Ferida aberta
Arquivos revelam a cooperação
das ditaduras
militares que dominaram o Cone Sul no
combate à oposição
Maurício Cardoso
AFP
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AFP
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General chileno Carlos
Prats: assassinado em atentado
a bomba no exílio, em Buenos Aires, em 1974 |
A prisão do general Augusto Pinochet em Londres,
em 1998, a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón,
que investigava a morte de cidadãos espanhóis
no Chile, na época da ditadura militar, não
teve resultados práticos imediatos. Pinochet foi
libertado e voltou a seu país. Mas a iniciativa de
Garzón acabou provocando a reabertura em cascata
de processos referentes a esse período da História
latino-americana. Investigações semelhantes
às levadas a efeito pelo juiz espanhol estão
sendo feitas em vários países da Europa, como
França, Itália, Suíça e Suécia.
Elas bateram recentemente num conjunto de episódios
mal explicados daquela época conhecidos em conjunto
como Operação Condor, a rede de cooperação
montada por integrantes das ditaduras militares do Cone
Sul nas décadas de 70 e 80 com o objetivo de combater
seus opositores mais radicais.
Os militantes de esquerda e agora os investigadores europeus
sustentam que a operação existiu com esse
nome e foi tocada com êxito nos porões dos
regimes ditatoriais da época. Os militares brasileiros
com cargo de mando naquela época insistem em dizer
que nunca houve um movimento coordenado supranacional de
repressão. "É tudo palhaçada", diz
o general Newton Cruz, ex-chefe do Serviço Nacional
de Informação (SNI), a agência brasileira
de inteligência. Dois outros depoimentos de pessoas
da área de informação naquele período
dão força à idéia de que havia
mais que apoio ocasional entre os militares encarregados
de conter os insurgentes de esquerda. "As esquerdas se uniram
e atuavam de forma internacional em nossos países.
Então não deveríamos nos defender?",
disse ao Jornal do Brasil o coronel da reserva Alberto
Ponzi, que chefiou a seção gaúcha do
SNI entre 1975 e 1980. O ex-agente do Centro de Informações
do Exército, Marival Chaves, também confirmou
a cooperação brasileira com o esquema de repressão
da época. "Foram os órgãos de segurança
do Brasil que ensinaram a colegas de países vizinhos
os métodos de repressão a grupos guerrilheiros,
muito antes da Operação Condor", disse Chaves
na semana passada.
Nelio Rodrigues
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Nelio Rodrigues
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O ex-agente do Centro de Informações
do Exército e do Comando Militar do Planalto
Marival Chaves revelou detalhes da cooperação
no Cone Sul: "Muito antes da Operação
Condor, os órgãos de segurança
do Brasil já ensinavam aos colegas dos países
vizinhos os métodos de repressão a grupos
terroristas"
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Tendo existido ou não de forma organizada, a verdade
é que os juízes estão listando um número
crescente de casos de crimes cometidos pelos governos sul-americanos
daquela época. O juiz argentino Claudio Bonadio está
apurando a possibilidade de militares brasileiros terem
alguma participação no desaparecimento dos
militantes de esquerda Horacio Campiglia, Monica de Binstock
e Lorenzo Viñas. Os três são ítalo-argentinos
e possivelmente se encontravam em território brasileiro
quando foram presos. Em março, o Supremo Tribunal
Federal concedeu autorização para o cumprimento
de um pedido de Bonadio para que os órgãos
de segurança e de informação do Brasil
revelem o que sabem sobre o caso. Na semana passada prestou
depoimento a um tribunal italiano a professora uruguaia
Lilian Celiberti, num caso célebre de colaboração
multinacional para prender opositores de esquerda no Cone
Sul. Em 1978, Lilian Celiberti, que vivia exilada em Porto
Alegre com seu companheiro Universindo Díaz, foi
seqüestrada por um comando de policiais gaúchos
trabalhando em colaboração com uruguaios.
O seqüestro foi denunciado na época pelos jornalistas
de VEJA Luís Cláudio Cunha e J.B. Scalco.
O caso veio a público, ganhou notoriedade internacional,
mas ainda assim Lilian e Universindo foram levados clandestinamente
para o Uruguai, onde permaneceram encarcerados por cinco
anos.
Ricardo Chaves
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Adolfo Gerchmann
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| Universindo Díaz
e Lilian Celiberti: exilados uruguaios foram seqüestrados
em Porto Alegre, em 1978, numa operação
com a participação de policiais brasileiros
(à dir.) |
Existem apenas evidências indiretas da participação
oficial de altas patentes do governo brasileiro nessas operações
clandestinas. Até porque o governo brasileiro começava
naquela época o movimento de distensão política
do general Ernesto Geisel. Enquanto isso, Chile e Argentina,
em sua guerra anti-subversiva, mergulhavam no terrorismo
de Estado. Casos como o de Lilian Celiberti seriam devidos
mais à subversão da hierarquia nos porões
do que por uma decisão das altas esferas do governo.
No caso dos vizinhos aparece com mais clareza o comprometimento
dos generais Augusto Pinochet, no Chile, Jorge Videla, na
Argentina, e do presidente Juan Bordaberry, do Uruguai.
Mesmo em seus momentos mais duros, a máquina repressora
no Brasil nunca teve o grau de virulência da chilena
e especialmente o da argentina. Enquanto os dados de organismos
de direitos humanos indicam que, no Brasil, foram registrados
350 casos de mortos e desaparecidos, na Argentina, com uma
população quase cinco vezes menor, o número
de vítimas chega a 30.000
e no Chile vai a mais de 3.000.
Perfil
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Perfil
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Ditadores unidos:
Videla (à dir.) caçava na Argentina
os exilados inimigos de Bordaberry, do Uruguai
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Um levantamento feito pelo jornalista Nilson César
Mariano, no livro Operação Condor, Terrorismo
de Estado no Cone Sul (www.aprodev.org/_private/libros/condor),
indica que 135 uruguaios, 113 chilenos, 51 paraguaios e
onze brasileiros, pelo menos, foram presos, mortos ou desapareceram
nas mãos das polícias quando estavam no exílio
em algum dos países membros da operação.
Quem realmente parece ter-se empenhado a fundo na Operação
Condor foi Pinochet. Protegido por uma lei de anistia que
ele mesmo ditou, Pinochet corre o risco de ter sua imunidade
suspensa para responder a 100 processos que se acumulam
contra ele. Na lista estão casos espetaculares, como
o assassinato do ex-chanceler Orlando Letelier, morto num
atentado a bomba em 1976, em Washington, a 2 quilômetros
da Casa Branca. O general Manuel Contreras, chefe da Dina
na época do atentado, cumpre pena pelo crime. Foi
condenado ainda o americano Charles Townley, agente da Dina
igualmente suspeito de fazer parte dos quadros da CIA. Na
semana passada, a juíza argentina Maria Servini de
Cubría revelou que Townley, que hoje vive com nova
identidade no programa de proteção a testemunhas
americano, assumiu também a autoria do atentado ocorrido
em Buenos Aires, em 1974, no qual morreu outro notório
desafeto da ditadura chilena, o general Carlos Prats. Segundo
Townley, ele mesmo colocou e ativou a bomba que explodiu
o carro em que estavam Prats e sua mulher, Sofia. O atentado
a tiros contra o ex-vice-presidente Bernardo Leighton, em
1975, em Roma, completa a tríplice coroa de Pinochet
e Townley.
Uma fonte preciosa de informações para entender
esse período são os arquivos da Freedom of
Information Act (Foia), a lei americana de 1966 que estabelece
que documentos secretos de interesse histórico sejam
liberados depois de certo período. Há quatro
anos, o presidente Bill Clinton determinou que eles fossem
colocados num site aberto na internet (www.foia.state.gov).
Em um conjunto de pastas catalogadas sob a rubrica Chile,
a página relata, na forma de despachos de agentes
da CIA e do FBI americanos em operação na
América Latina, a criação e as atribuições
da Operação Condor. "O Brasil concordou, em
caráter experimental, em fornecer dados para a Operação
Condor", diz o informe. Os Estados Unidos agem de maneira
exemplar nessa matéria. Os documentos expostos revelam
um país que, hoje um campeão dos direitos
humanos, atuava na época sem compromisso com a vida.
Estão ali provas de que agentes americanos estiveram
envolvidos em crimes que em nada se diferenciavam das atrocidades
cometidas pelas ditaduras latino-americanas. "Os serviços
de inteligência americanos podem ter tido participação
infeliz na morte de Horman...", afirma outro documento da
série Chile. O relatório refere-se ao assassinato
no Estádio Nacional de Santiago, após o golpe
militar de 1973, de Charles Horman, o personagem real que
inspirou o filme Desaparecido (Missing), do
diretor Costa-Gavras. Ao expor publicamente suas
mazelas, os Estados Unidos têm um propósito:
evitar que fatos desse tipo se repitam.
Com reportagem de
Raul Juste Lores, de Buenos Aires,
Ana Santa Cruz e Cristine Prestes
Os Estados Unidos admitem sua culpa
Documentos secretos, agora na internet (www.foia.state.gov),
revelam participação americana
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Desde a promulgação
do Decreto-lei nº 521, que estabelece a
Dina como o braço de inteligência
do governo, o coronel Contreras tem se reportado
exclusivamente ao presidente Pinochet e recebido
ordens somente dele
(sobre as ligações
do chefe da Dina, o SNI chileno, com Pinochet)
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O Chile é
o centro da Operação Condor, que
inclui também entre seus membros Argentina,
Bolívia, Paraguai e Uruguai. O Brasil,
a título de experiência, concordou
em fornecer dados de inteligência para
a Operação Condor
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A terceira e
mais secreta fase da
Operação Condor envolve a
formação de equipes especiais
dos países membros, que devem
viajar para qualquer lugar do mundo,
para países não membros, com o
propósito de levar desde punição
até o assassinato de terroristas ou
adeptos de organizações
terroristas dos países membros
da Operação Condor
(informe do FBI sobre a criação
da Operação Condor)
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"O governo prendeu cerca
de 5 000 no estádio. Eles foram muito
ingênuos
neste caso. Pretendem tratá-los de acordo
com as cortes marciais. Se inocentes, eles serão
libertados para voltar para Cuba. Se culpados,
a junta pretende tratá-los com dureza"
(diálogo de um assessor do Departamento
de Estado com o
secretário Henry Kissinger, após
o golpe de Estado no Chile)
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O serviço de inteligência
dos EUA pode ter tido uma participação
infeliz no assassinato de Horman. Na melhor
das hipóteses, limitou-se a fornecer
ou a confirmar informações que
ajudaram a motivar
seu assassinato pelo governo chileno. Na pior,
a inteligência americana foi avisada de
que as autoridades estavam investigando Horman,
mas seus agentes nada fizeram para desencorajar
a previsível conseqüência
dessa paranóia
(relatório do Departamento de Estado
sobre o assassinato de Charles Horman)
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