Cuidado com as bobagens
Ilustração Miriam Duenhas
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O cinema sempre mostrou gente morrendo. É a verdadeira
essência do cinema. Pense nos seus dez filmes preferidos.
Oito deles certamente têm algum morto no meio. Tem
filme bom em que morre apenas um personagem e tem filme
bom em que morrem mais de 100. Difícil é encontrar
filme bom em que ninguém morra. O repertório
de mortes cinematográficas é praticamente
infinito. Há mortes trágicas, mortes heróicas,
mortes cômicas. Há assassinatos e suicídios.
Há mortes sangrentas (nada é mais fotogênico
do que uma bela poça de sangue) e mortes assépticas.
Há mortes por doença e, de vez em quando,
mortes naturais, por velhice. Mas o que não falta
no cinema é gente morta. Desconfie de um filme sem
mortos. Deve ser ruim. A não ser que seus autores
tenham preferido explorar outras formas de violência:
moral, psicológica, econômica. Quando são
bem tratadas, essas modalidades de violência podem
ser ainda mais brutais do que a simples morte física.
E o cinema é isso: quanto mais brutal, melhor.
Digo essas coisas pensando em Mário Covas, o governador
de São Paulo. Ele reclamou que o maior responsável
pela criminalidade no Estado não é a polícia,
mas os filmes violentos exibidos na TV. É curioso
que um governador aponte a polícia que ele próprio
comanda como uma importante causa de violência. Ainda
mais curioso é o seu conceito de que, se as crianças
lessem as histórias em quadrinhos do Fantasma ou
de Flash Gordon, em vez de assistir aos filmes que passam
na TV, o nível de violência cairia enormemente.
Todo mundo concorda que filmes despertam fenômenos
de emulação. Outro dia mesmo, na Itália,
uma criança pulou da janela para imitar um Pokémon
voador. Mas não é esse o ponto. O ponto é
saber se as pessoas estariam dispostas a renunciar aos filmes
para conter um pouco da violência.
Eu não estaria. Certos assuntos precisam ser tratados
com clareza. Suponhamos que o governador tivesse razão.
Suponhamos que, se a TV se limitasse a mostrar programas
eleitorais gratuitos 24 horas por dia, morressem 300 pessoas
a menos por ano. Você aceitaria abrir mão dos
filmes? Eu não. Temo, porém, que muita gente
aceitaria. O fato é que, quando se encontram numa
situação exasperadora, os brasileiros topam
qualquer parada. Quando ainda havia inflação,
apoiavam as idéias mais estapafúrdias, por
mais inconstitucionais que fossem, como o congelamento de
preços ou o confisco da poupança. Com a violência
é igual. Desesperados, perdem a cabeça e defendem
fanaticamente pena de morte, tortura, grupos de extermínio
e outras asneiras do gênero. O libelo do governador
Mário Covas contra os filmes violentos é tolo
e não vai colar. Mas outros políticos oportunistas
vão aparecer, com soluções igualmente
absurdas para os problemas do país. Antes de votar
neles, faça a lista de seus dez filmes preferidos,
lembrando que nós, brasileiros, só pensamos
bobagem em situações de desespero.