Edição 1 649 -17/5/2000

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Cuidado com as bobagens

Ilustração Miriam Duenhas


O cinema sempre mostrou gente morrendo. É a verdadeira essência do cinema. Pense nos seus dez filmes preferidos. Oito deles certamente têm algum morto no meio. Tem filme bom em que morre apenas um personagem e tem filme bom em que morrem mais de 100. Difícil é encontrar filme bom em que ninguém morra. O repertório de mortes cinematográficas é praticamente infinito. Há mortes trágicas, mortes heróicas, mortes cômicas. Há assassinatos e suicídios. Há mortes sangrentas (nada é mais fotogênico do que uma bela poça de sangue) e mortes assépticas. Há mortes por doença e, de vez em quando, mortes naturais, por velhice. Mas o que não falta no cinema é gente morta. Desconfie de um filme sem mortos. Deve ser ruim. A não ser que seus autores tenham preferido explorar outras formas de violência: moral, psicológica, econômica. Quando são bem tratadas, essas modalidades de violência podem ser ainda mais brutais do que a simples morte física. E o cinema é isso: quanto mais brutal, melhor.

Digo essas coisas pensando em Mário Covas, o governador de São Paulo. Ele reclamou que o maior responsável pela criminalidade no Estado não é a polícia, mas os filmes violentos exibidos na TV. É curioso que um governador aponte a polícia que ele próprio comanda como uma importante causa de violência. Ainda mais curioso é o seu conceito de que, se as crianças lessem as histórias em quadrinhos do Fantasma ou de Flash Gordon, em vez de assistir aos filmes que passam na TV, o nível de violência cairia enormemente. Todo mundo concorda que filmes despertam fenômenos de emulação. Outro dia mesmo, na Itália, uma criança pulou da janela para imitar um Pokémon voador. Mas não é esse o ponto. O ponto é saber se as pessoas estariam dispostas a renunciar aos filmes para conter um pouco da violência.

Eu não estaria. Certos assuntos precisam ser tratados com clareza. Suponhamos que o governador tivesse razão. Suponhamos que, se a TV se limitasse a mostrar programas eleitorais gratuitos 24 horas por dia, morressem 300 pessoas a menos por ano. Você aceitaria abrir mão dos filmes? Eu não. Temo, porém, que muita gente aceitaria. O fato é que, quando se encontram numa situação exasperadora, os brasileiros topam qualquer parada. Quando ainda havia inflação, apoiavam as idéias mais estapafúrdias, por mais inconstitucionais que fossem, como o congelamento de preços ou o confisco da poupança. Com a violência é igual. Desesperados, perdem a cabeça e defendem fanaticamente pena de morte, tortura, grupos de extermínio e outras asneiras do gênero. O libelo do governador Mário Covas contra os filmes violentos é tolo e não vai colar. Mas outros políticos oportunistas vão aparecer, com soluções igualmente absurdas para os problemas do país. Antes de votar neles, faça a lista de seus dez filmes preferidos, lembrando que nós, brasileiros, só pensamos bobagem em situações de desespero.