Claudio Rossi
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Silvio:
lição
de moral
com a
censura e admiração
pela classe C.
"Pobre
é o melhor
pagador
do mundo"
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Leia abaixo um extrato das dezesseis horas de conversa
que VEJA manteve com Silvio Santos.
Veja Quando, afinal, o senhor vai se
aposentar?
Silvio Meu plano era parar aos 70 anos.
Mas não sei se vou conseguir. Há uma
resistência grande a isso dentro da emissora.
Os executivos dizem que se eu parar o SBT regride,
o Baú não vende. É tudo mentira.
Os executivos falam isso porque eles ganham bônus
e acham que as coisas são mais fáceis
com o Silvio Santos lá, porque o Silvio Santos
é um bom vendedor etc. Mas eu acho que o SBT
não pode depender mais do Silvio Santos. A
Globo não é sinônimo de Tarcísio
Meira, Regina Duarte, Xuxa, Faustão. Da mesma
forma, o SBT não tem de ser sinônimo
de Silvio Santos, Hebe Camargo, Gugu ou Jackeline.
O SBT tem de ser uma linha de produção.
Se o artista convier ao SBT, ótimo. Se não,
troca-se e não acontece nada com a emissora.
Veja O senhor se sente cansado?
Silvio Antes eu gravava dois dias por semana,
das 11 da manhã até as 7 da noite, e
não tinha o menor problema. Agora eu fico das
11 às 3 e meia da tarde e, quando chega perto
da hora de ir embora, já estou querendo parar,
não estou mais animando com leveza. O que me
dá mais prazer hoje é a atividade como
empresário. Gosto de acompanhar os números
de audiência dos programas. Minha vibração
é ver que o infantil do SBT ganhou do Angel
Mix, ou que o Chaves está liderando no
horário. O resto é besteira.
Veja É verdade que o senhor
teve depressão recentemente?
Silvio Eu comecei a ficar desanimado sem
razão aparente, a ficar com sono, não
queria sair da cama. Isso foi há uns três
anos. Fui a um médico neurologista e ele me
receitou o Prozac. Não adiantou nada, só
serviu para me deixar mais irritado. Descobri que
a causa de tudo era um problema de tireóide.
Me tratei e agora estou bem.
Veja Por que o senhor desmontou os
departamentos de jornalismo e de telenovelas do SBT?
Silvio Era muito dinheiro jogado fora.
No caso do jornalismo, houve uma briga entre o Marcos
Wilson, diretor do departamento, e o Boris Casoy.
Por isso, para cada evento, mandavam duas equipes,
uma do Marcos e outra do Boris. Essa brincadeira saía
caríssimo 30 milhões de reais
por ano. O Boris ainda trazia uma boa grana, mas o
jornalismo como um todo dava prejuízo. No caso
das novelas, os diretores queriam gastar 100.000
dólares por capítulo. Os hispânicos
gastam 30.000 dólares
por capítulo. Tem de fazer como eles. Quem
gastar 30.000 dólares
por capítulo de novela eu contrato. Mas diretor
de novela quer ganhar prêmio de Hollywood. Não
tenho nada contra, desde que não seja com o
meu dinheiro. Não gosto de estrelas. Não
recontrataria Lillian Witte Fibe, porque ela reclama
muito. De estrela, no SBT, basta o dono.
Veja O senhor já foi assaltado
três vezes. A violência o assusta?
Silvio Se você estiver na sua casa
e for chamado para a guerra, vai tremer de medo. Mas,
na hora em que você estiver no campo de batalha,
o medo passa e você joga baralho com o seu colega
na trincheira. Nós estamos no meio de uma guerra,
fazer o quê? Não adianta ficar com medo.
Além disso, nas vezes em que eu fui assaltado,
os bandidos não fizeram nada porque reconheceram
a voz do Silvio Santos.
Veja O senhor é a favor da pena
de morte?
Silvio Sou a favor, desde que seja como
nos Estados Unidos. Lá, o sujeito fica um longo
período preso, passa por todos os julgamentos
possíveis para não ter erro e tem todas
as oportunidades de perdão. O preso tem até
tempo de fazer barulho, escrever livros. Isso é
bom do ponto de vista de marketing. Eles matam um
por ano, mas parece que mataram dezesseis. A propaganda
acaba inibindo os que querem cometer crimes.
Veja Qual a sua opinião sobre
o presidente Fernando Henrique Cardoso? O senhor votou
nele?
Silvio Votei, até porque não
tinha nenhum outro candidato. Na minha opinião
é o melhor presidente que o Brasil já
teve nos últimos cinqüenta anos, comparável
a Juscelino Kubitschek. Juscelino era empreendedor.
Já Fernando Henrique tem como principal virtude
a paciência. Para lidar com o Congresso, com
aquela gente que tem dezesseis anos de mandato, tem
de ter muita cintura e fazer o jogo deles. Se o Fernando
não tivesse a paciência que tem, não
conseguiria fazer um quinto do que está fazendo.
Ele é um craque.
Veja E o que acha de Fernando Collor,
a quem o senhor pediu socorro financeiro quando ele
era presidente?
Silvio Gosto do Collor. Ele me socorreu
num momento em que os bancos, diante da minha situação,
queriam cobrar juros exorbitantes. Quando eu fui falar
com ele, ele deu uma de galã. Eu disse: "O
senhor não precisa fazer essa pose toda, afinal
nós dois somos artistas". Ainda bem que ele
não é animador de auditório.
Seria um concorrente terrível. É boa-pinta
e fala bem. Eu o contrataria para apresentar um telejornal
na minha rede.
Veja O senhor manteve uma relação
pessoal com o ex-presidente João Figueiredo?
Silvio Uma vez ele me convidou para
jantar em Brasília e eu retribuí o convite
convidando-o para ir à minha casa. Ele era
um sujeito firme. Quando não gostava de alguém,
dizia na cara. Mais tarde, ele me deu uma concessão
em Brasília. Disse na ocasião: "Estou
com o saco cheio dos Marinho, então vou te
dar este canal para eles sossegarem um pouco". Ele
havia brigado com os Marinho. Figueiredo, sim, era
machão.
Veja O senhor não acha que,
como um grande empresário de comunicação,
deveria levar cultura ao povo?
Silvio O brasileiro é um povo humilde.
A televisão é a sua única diversão.
Esse povo não quer ligar a televisão
para ter aula ou ter cultura. Isso quem tem de dar
para ele são as autoridades competentes, por
meio da escola. Nós, empresários, podemos
ir a Miami, podemos ir à França ver
ópera. Mas o pobre, que não tem dinheiro
nem para ir ao circo, porque tem de comprar cachorro-quente
para os filhos, quer é diversão grátis.
Temos de dar ao povo o que o povo quer. Se for samba,
será samba. Se for mulher com pouca roupa,
será mulher com pouca roupa.
Veja Mas o senhor não acha que,
ao popularizar, muitas vezes os apresentadores apelam?
Não há um limite?
Silvio Na minha emissora, eu não
interfiro. Cada um faz o programa do jeito que quer.
Eu não falo nada. Quem fala é o número.
Quem dá ibope pode mostrar o que quiser. As
pessoas sabem que não é o Silvio Santos
que está mostrando esta ou aquela coisa, é
o apresentador.
Veja Nos tempos do regime militar o
senhor teve problemas com a censura?
Silvio Na verdade, a censura me deu uma
lição de moral. Uma vez, nos anos 70,
eu estive nos Estados Unidos e, escondido da minha
mulher, assisti a dois filmes pornográficos,
Garganta Profunda e O Diabo na Carne de
Miss Jones. Quando voltei, o censor me chamou
e reclamou de que eu estava mostrando mulher com pouca
roupa. Eu retruquei dizendo que nos Estados Unidos
eles faziam coisa muito pior. Aí ele respondeu:
"É, mas nos Estados Unidos o cara tem dinheiro,
sai do cinema, procura uma prostituta e satisfaz o
desejo sexual dele. Aqui no Brasil ele vai estuprar
uma mulher na rua. Você gostaria que acontecesse
isso com a sua irmã?" Aí eu falei: "É,
está certo, o senhor está com a razão".
Uma outra vez, eu tinha um homossexual no júri,
e o coronel Erasmo Dias acho que foi ele
ligou para mim e falou que eu estava dando mau exemplo.
Tirei o jurado do ar. O público não
aceita bem o homossexualismo.
Veja E o senhor, o que acha desse assunto?
Silvio Eu acho que homossexual não
dá certo em televisão, o público
não gosta. Se é um humorista fazendo
o papel de homossexual, de uma maneira caricata, tudo
bem. Mas, quando é de verdade, eles preferem
não ver. Acham que é uma apologia do
homossexualismo. Eu, se puder, não coloco no
vídeo. Mas, pessoalmente, não tenho
nada contra eles.
Veja O crescimento da classe C mudou
a cabeça do empresariado?
Silvio Eu estou há quarenta anos
trabalhando para essa classe com o Baú. É
uma classe espetacular. É humilde, é
correta. Pobre é o melhor pagador do mundo.
A classe média às vezes não paga
porque sabe que se a coisa for para a Justiça
pode demorar até dez anos.
Veja O senhor tem medo de alguma coisa?
Silvio Só de doença. Mas
não sou hipocondríaco. No meu corpo
só entram três drogas: Doce Menor, Synthroide,
que é o remédio para a tireóide,
e Rohypnol, que uso para dormir. Não tenho,
também, medo de morrer. Sei que alguma coisa
vai estar reservada para mim no outro lado, uma nova
missão.
Veja O senhor é religioso?
Silvio Eu sou judeu. Aprendi hebraico,
sei rezar a oração dos mortos, respeito
as datas religiosas. Leio a Bíblia e
sigo os preceitos. Faço jejum completo. Quando
é época, não tomo nem água
na hora do Rohypnol, chego a juntar cuspe na
boca para poder engolir. Sou fã também
do bispo Edir Macedo, embora não seja adepto
da religião dele. Ele tira as pessoas das drogas,
da bebida, faz com que as classes menos favorecidas
tenham confiança no futuro. Na verdade, se
não fosse animador, gostaria de ser pastor.
Mas, na minha igreja, eu só ia falar do Velho
Testamento. Está tudo lá. Quanto a Jesus...
Ele pode ter sido lá o filho de Deus. Mas eu
acho que ele era mais um cara brilhante, um sujeito
que hoje seria o Lula, o Jânio Quadros, o Collor.
Acho que ele era antes de tudo um político.
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