Edição 1 649 -17/5/2000

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Claudio Rossi

Silvio: lição de moral com a censura e admiração pela classe C. "Pobre é o melhor pagador do mundo"


Leia abaixo um extrato das dezesseis horas de conversa que VEJA manteve com Silvio Santos.

Veja – Quando, afinal, o senhor vai se aposentar?
Silvio
– Meu plano era parar aos 70 anos. Mas não sei se vou conseguir. Há uma resistência grande a isso dentro da emissora. Os executivos dizem que se eu parar o SBT regride, o Baú não vende. É tudo mentira. Os executivos falam isso porque eles ganham bônus e acham que as coisas são mais fáceis com o Silvio Santos lá, porque o Silvio Santos é um bom vendedor etc. Mas eu acho que o SBT não pode depender mais do Silvio Santos. A Globo não é sinônimo de Tarcísio Meira, Regina Duarte, Xuxa, Faustão. Da mesma forma, o SBT não tem de ser sinônimo de Silvio Santos, Hebe Camargo, Gugu ou Jackeline. O SBT tem de ser uma linha de produção. Se o artista convier ao SBT, ótimo. Se não, troca-se e não acontece nada com a emissora.

Veja – O senhor se sente cansado?
Silvio
– Antes eu gravava dois dias por semana, das 11 da manhã até as 7 da noite, e não tinha o menor problema. Agora eu fico das 11 às 3 e meia da tarde e, quando chega perto da hora de ir embora, já estou querendo parar, não estou mais animando com leveza. O que me dá mais prazer hoje é a atividade como empresário. Gosto de acompanhar os números de audiência dos programas. Minha vibração é ver que o infantil do SBT ganhou do Angel Mix, ou que o Chaves está liderando no horário. O resto é besteira.

Veja – É verdade que o senhor teve depressão recentemente?
Silvio
– Eu comecei a ficar desanimado sem razão aparente, a ficar com sono, não queria sair da cama. Isso foi há uns três anos. Fui a um médico neurologista e ele me receitou o Prozac. Não adiantou nada, só serviu para me deixar mais irritado. Descobri que a causa de tudo era um problema de tireóide. Me tratei e agora estou bem.

Veja – Por que o senhor desmontou os departamentos de jornalismo e de telenovelas do SBT?
Silvio
– Era muito dinheiro jogado fora. No caso do jornalismo, houve uma briga entre o Marcos Wilson, diretor do departamento, e o Boris Casoy. Por isso, para cada evento, mandavam duas equipes, uma do Marcos e outra do Boris. Essa brincadeira saía caríssimo – 30 milhões de reais por ano. O Boris ainda trazia uma boa grana, mas o jornalismo como um todo dava prejuízo. No caso das novelas, os diretores queriam gastar 100.000 dólares por capítulo. Os hispânicos gastam 30.000 dólares por capítulo. Tem de fazer como eles. Quem gastar 30.000 dólares por capítulo de novela eu contrato. Mas diretor de novela quer ganhar prêmio de Hollywood. Não tenho nada contra, desde que não seja com o meu dinheiro. Não gosto de estrelas. Não recontrataria Lillian Witte Fibe, porque ela reclama muito. De estrela, no SBT, basta o dono.

Veja – O senhor já foi assaltado três vezes. A violência o assusta?
Silvio
– Se você estiver na sua casa e for chamado para a guerra, vai tremer de medo. Mas, na hora em que você estiver no campo de batalha, o medo passa e você joga baralho com o seu colega na trincheira. Nós estamos no meio de uma guerra, fazer o quê? Não adianta ficar com medo. Além disso, nas vezes em que eu fui assaltado, os bandidos não fizeram nada porque reconheceram a voz do Silvio Santos.

Veja – O senhor é a favor da pena de morte?
Silvio
– Sou a favor, desde que seja como nos Estados Unidos. Lá, o sujeito fica um longo período preso, passa por todos os julgamentos possíveis para não ter erro e tem todas as oportunidades de perdão. O preso tem até tempo de fazer barulho, escrever livros. Isso é bom do ponto de vista de marketing. Eles matam um por ano, mas parece que mataram dezesseis. A propaganda acaba inibindo os que querem cometer crimes.

Veja – Qual a sua opinião sobre o presidente Fernando Henrique Cardoso? O senhor votou nele?
Silvio
– Votei, até porque não tinha nenhum outro candidato. Na minha opinião é o melhor presidente que o Brasil já teve nos últimos cinqüenta anos, comparável a Juscelino Kubitschek. Juscelino era empreendedor. Já Fernando Henrique tem como principal virtude a paciência. Para lidar com o Congresso, com aquela gente que tem dezesseis anos de mandato, tem de ter muita cintura e fazer o jogo deles. Se o Fernando não tivesse a paciência que tem, não conseguiria fazer um quinto do que está fazendo. Ele é um craque.

Veja – E o que acha de Fernando Collor, a quem o senhor pediu socorro financeiro quando ele era presidente?
Silvio
– Gosto do Collor. Ele me socorreu num momento em que os bancos, diante da minha situação, queriam cobrar juros exorbitantes. Quando eu fui falar com ele, ele deu uma de galã. Eu disse: "O senhor não precisa fazer essa pose toda, afinal nós dois somos artistas". Ainda bem que ele não é animador de auditório. Seria um concorrente terrível. É boa-pinta e fala bem. Eu o contrataria para apresentar um telejornal na minha rede.

Veja – O senhor manteve uma relação pessoal com o ex-presidente João Figueiredo?
Silvio
– Uma vez ele me convidou para jantar em Brasília e eu retribuí o convite convidando-o para ir à minha casa. Ele era um sujeito firme. Quando não gostava de alguém, dizia na cara. Mais tarde, ele me deu uma concessão em Brasília. Disse na ocasião: "Estou com o saco cheio dos Marinho, então vou te dar este canal para eles sossegarem um pouco". Ele havia brigado com os Marinho. Figueiredo, sim, era machão.

Veja – O senhor não acha que, como um grande empresário de comunicação, deveria levar cultura ao povo?
Silvio
– O brasileiro é um povo humilde. A televisão é a sua única diversão. Esse povo não quer ligar a televisão para ter aula ou ter cultura. Isso quem tem de dar para ele são as autoridades competentes, por meio da escola. Nós, empresários, podemos ir a Miami, podemos ir à França ver ópera. Mas o pobre, que não tem dinheiro nem para ir ao circo, porque tem de comprar cachorro-quente para os filhos, quer é diversão grátis. Temos de dar ao povo o que o povo quer. Se for samba, será samba. Se for mulher com pouca roupa, será mulher com pouca roupa.

Veja – Mas o senhor não acha que, ao popularizar, muitas vezes os apresentadores apelam? Não há um limite?
Silvio
– Na minha emissora, eu não interfiro. Cada um faz o programa do jeito que quer. Eu não falo nada. Quem fala é o número. Quem dá ibope pode mostrar o que quiser. As pessoas sabem que não é o Silvio Santos que está mostrando esta ou aquela coisa, é o apresentador.

Veja – Nos tempos do regime militar o senhor teve problemas com a censura?
Silvio
– Na verdade, a censura me deu uma lição de moral. Uma vez, nos anos 70, eu estive nos Estados Unidos e, escondido da minha mulher, assisti a dois filmes pornográficos, Garganta Profunda e O Diabo na Carne de Miss Jones. Quando voltei, o censor me chamou e reclamou de que eu estava mostrando mulher com pouca roupa. Eu retruquei dizendo que nos Estados Unidos eles faziam coisa muito pior. Aí ele respondeu: "É, mas nos Estados Unidos o cara tem dinheiro, sai do cinema, procura uma prostituta e satisfaz o desejo sexual dele. Aqui no Brasil ele vai estuprar uma mulher na rua. Você gostaria que acontecesse isso com a sua irmã?" Aí eu falei: "É, está certo, o senhor está com a razão". Uma outra vez, eu tinha um homossexual no júri, e o coronel Erasmo Dias – acho que foi ele – ligou para mim e falou que eu estava dando mau exemplo. Tirei o jurado do ar. O público não aceita bem o homossexualismo.

Veja – E o senhor, o que acha desse assunto?
Silvio
– Eu acho que homossexual não dá certo em televisão, o público não gosta. Se é um humorista fazendo o papel de homossexual, de uma maneira caricata, tudo bem. Mas, quando é de verdade, eles preferem não ver. Acham que é uma apologia do homossexualismo. Eu, se puder, não coloco no vídeo. Mas, pessoalmente, não tenho nada contra eles.

Veja – O crescimento da classe C mudou a cabeça do empresariado?
Silvio
– Eu estou há quarenta anos trabalhando para essa classe com o Baú. É uma classe espetacular. É humilde, é correta. Pobre é o melhor pagador do mundo. A classe média às vezes não paga porque sabe que se a coisa for para a Justiça pode demorar até dez anos.

Veja – O senhor tem medo de alguma coisa?
Silvio –
Só de doença. Mas não sou hipocondríaco. No meu corpo só entram três drogas: Doce Menor, Synthroide, que é o remédio para a tireóide, e Rohypnol, que uso para dormir. Não tenho, também, medo de morrer. Sei que alguma coisa vai estar reservada para mim no outro lado, uma nova missão.

Veja – O senhor é religioso?
Silvio –
Eu sou judeu. Aprendi hebraico, sei rezar a oração dos mortos, respeito as datas religiosas. Leio a Bíblia e sigo os preceitos. Faço jejum completo. Quando é época, não tomo nem água – na hora do Rohypnol, chego a juntar cuspe na boca para poder engolir. Sou fã também do bispo Edir Macedo, embora não seja adepto da religião dele. Ele tira as pessoas das drogas, da bebida, faz com que as classes menos favorecidas tenham confiança no futuro. Na verdade, se não fosse animador, gostaria de ser pastor. Mas, na minha igreja, eu só ia falar do Velho Testamento. Está tudo lá. Quanto a Jesus... Ele pode ter sido lá o filho de Deus. Mas eu acho que ele era mais um cara brilhante, um sujeito que hoje seria o Lula, o Jânio Quadros, o Collor. Acho que ele era antes de tudo um político.

 

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