Pais são cobaias
Estudioso americano diz que os bebês
nascem
bem espertos e aprendem usando os adultos
como se fossem seus ratos de laboratório
Flávia Varella
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"O ambiente influi e os estímulos
são necessários. Mas fazê-los ouvir
Mozart não serve para nada" |
O objetivo do psicólogo americano Andrew Meltzoff,
professor da Universidade de Washington, era entender como
se dá o desenvolvimento intelectual e emocional do
ser humano. Passou, então, a observar bebês.
Logo descobriu que eles são muito mais espertos do
que se pensava. Em 1977, comprovou isso com a publicação
de uma pesquisa revolucionária em que mostra que
os recém-nascidos imitam expressões faciais
dos adultos. Mais de vinte anos depois, Meltzoff continua
surpreendendo com suas pesquisas e se surpreendendo com
os bebês. Uma de suas conclusões: "Bebês
são como cientistas, querem entender o mundo. Para
tanto usam o que podem, inclusive os pais como seus ratos
de laboratório". A compilação de seu
trabalho está no livro The Scientist in the Crib
(O Cientista no Berço), escrito em parceria com duas
outras cientistas e lançado nos Estados Unidos no
ano passado.
Veja É possível criar bebês
mais espertos oferecendo estimulação ou brinquedos
especiais?
Meltzoff Crianças que vivem no isolamento
ou na pobreza absoluta têm o desenvolvimento retardado.
Portanto, o ambiente influi. Crianças não
são como flores dê-lhes água
e sol e elas desabrocharão. Mas isso não significa
que estímulos extras sejam bons ou mesmo necessários.
Acredito que a estimulação normal por meio
de brincadeiras e frases simples do dia-a-dia seja suficiente
e melhor. Não há nenhuma evidência de
que possamos criar um superbebê, apesar de haver muita
gente ganhando dinheiro com brinquedos, receitas de exercícios
e outras fórmulas para esse fim. Eu vejo cerca de
1.000 bebês por ano em
meu laboratório. Eles sempre preferem os brinquedos
simples, como potes e colheres, bolas e roupas, aos incrementados.
Veja Se o bebê ouve muita música
na época em que mais sinapses se formam na parte
do cérebro relacionada a essa arte, ele terá
mais chance de ser bom músico, como dizem alguns
neurocientistas?
Meltzoff Não há evidências
científicas de que isso produza resultados. Claro
que ouvir Mozart nunca fará mal a ninguém.
Mas as crianças não têm de ouvir música
para se tornar musicais. A voz de sua mãe é
a melhor música que há. Elas estão
aprendendo melodia quando alternamos tons e timbres em nossa
maneira usual de falar. Mozart, afinal, nunca ouviu fitas
de Mozart.
Veja Se esse conceito não é
verdadeiro para música, parece ser para línguas
estrangeiras. Por que uma criança que aprende outra
língua cedo fala facilmente, sem sotaque?
Meltzoff De fato, quem aprende uma segunda língua
entre os 3 e os 7 anos tem melhor pronúncia. Depois
dos 8 anos, o desempenho declina. Se a criança crescer
com alguém conversando com ela também em uma
segunda língua, poderá tornar-se bilíngüe
sem tanto esforço. Acredito que isso ocorre porque
é na infância que se criam na mente os protótipos
dos sons que ouvimos e emitimos. Ao alcançar a puberdade
esses protótipos já estão tão
formados e fixados que fica mais difícil a percepção
e a diferenciação dos sons de uma língua
estrangeira.
Veja Por que o senhor compara bebês
a cientistas?
Meltzoff Como os cientistas, as crianças
estão profundamente engajadas na tentativa de entender
o mundo físico, dos objetos, e o psicológico,
das pessoas. Os bebês agem como cientistas ideais:
eles querem compreender as coisas para poder fazer melhores
previsões. Tipo o que acontece se eu fizer isso ou
aquilo. Eles ocupam seus dias e noites nesse ofício.
A diferença é que a criança trabalha
pelo simples prazer da descoberta. Os cientistas muitas
vezes o fazem pela fama, dinheiro ou promoção.
Veja O senhor afirma que desde o nascimento
os bebês já tiram conclusões, fazem
previsões, buscam explicações, fazem
experimentos. Que tipo de problemas eles resolvem?
Meltzoff O problema da permanência dos
objetos é um clássico na infância. Antes
de 1 ano de idade, as crianças não sabem que
os objetos que desaparecem de suas vistas continuam a existir.
Deitados no berço, os bebês fazem experiências
de como esconder o boneco debaixo de um pano e então
procurar por ele, mostrando grande entusiasmo quando o encontram.
Ou então empurram uma bola para baixo do sofá
dezenas de vezes e a recuperam apenas para, em seguida,
escondê-la de novo. Mediante esses jogos de esconde-esconde,
eles descobrem a permanência dos objetos.
Veja Se nascem com tantas habilidades, por
que os bebês são tão dependentes e precisam
de um período tão longo de proteção
por parte dos adultos?
Meltzoff Os bebês nascem sabendo muito,
mas não tudo. Existem três bases para o desenvolvimento
das crianças: elas nascem com muitos conhecimentos;
dois, aprendem ainda mais com suas próprias atividades;
e três, são ensinadas pela cultura e por seus
pais. Por isso são tão dependentes. As aranhas
tecem suas teias sem instrução paterna. Os
carneirinhos sobem as montanhas poucas horas após
o nascimento. Há muitas espécies que são
bem mais próximas dos adultos ao nascer do que os
humanos. Na verdade, nascer com habilidade para aprender
de suas próprias atividades e das dos outros é
um dom raro e formidável não compartilhado
por todas as espécies. Em certo sentido, nós
humanos nascemos para aprender. A aparente fragilidade é,
na verdade, uma predisposição para aprender
rapidamente, para absorver o que está na cultura
sem esforço. Não é uma desvantagem
ser dependente e um aprendiz super-rápido. Pelo contrário,
isso dá à espécie humana flexibilidade
para formar diferentes culturas com diferentes costumes,
rituais, línguas.
Veja A infância é o período
de aprendizado mais importante?
Meltzoff É o mais acelerado. Quando recém-nascidos,
os bebês mamam e dormem. Aos 3 anos, andam, conversam,
às vezes contam mentiras, sentem simpatia ou aversão
pelos outros e têm noções de moralidade.
Nenhuma outra espécie aprende tanto em tão
pouco tempo. Os bebês aprendem mais nos três
primeiros anos do que em quaisquer outros três anos
de sua vida. Se nós adultos pudéssemos aprender
tanto a cada semana, seríamos todos gênios.
Veja Há trinta anos, acreditava-se
que os bebês não enxergavam, que seus sorrisos
eram sem significado e que a idéia de que eles reconheciam
a mãe era apenas uma ilusão maternal. Hoje
essas idéias parecem absurdas e mesmo insensíveis.
Por que elas duraram tanto tempo?
Meltzoff Nós adultos somos maiores e mais
fortes e temos mais conhecimento do que as crianças,
por isso é fácil pensar que elas são
folhas de papel em branco que preenchemos e moldamos em
seres humanos. Essa idéia errada começou a
mudar com o surgimento de um aparelho hoje trivial, o videocassete.
Sua invenção foi para os psicólogos
do desenvolvimento como o telescópio para os astrônomos.
Revolucionou completamente a nossa ciência. Antes
tínhamos de observar uma criança num cenário
artificial durante os poucos minutos do teste. As mães
diziam que os filhos se saíam melhor nas atividades
em casa. Com o vídeo, pudemos gravar comportamentos
à noite e em casa e considerá-los evidências
científicas. É verdade que bebês novinhos
sorriem para suas mães. Não é uma ilusão
maternal.
Veja O senhor provou que bebês de 1
mês imitam expressões faciais. O que isso exige
do bebê e o que indica?
Meltzoff Ao mostrar a língua imitando
sua mãe, o bebê demonstra saber que ele é
semelhante a nós. De todos os objetos na sala
a lâmpada, a manta, o ursinho , ele sabe que
os adultos "são como eu e eu como eles". Não
é algo que lhes é ensinado. Eles deduzem,
e essa percepção torna-se fundamental para
o desenvolvimento moral e social.
Veja Todo pai acha que, às vezes,
seu filho quer levá-lo à loucura. O que as
crianças estão tramando quando fazem coisas
que você não quer exatamente porque você
não quer?
Meltzoff Nada de mal. Elas apenas trabalham em
seus estudos como psicólogos e usam os pais como
seus ratos de laboratório. Aos 2, 3 anos de idade,
elas estão muito interessadas em testar os limites
das coisas. O menino quer entender o que nos deixa irritados
e quais são as regras. Para isso, repete à
exaustão um comportamento, como engatinhar até
a tomada para confirmar se aquilo realmente nos deixa bravos.
Está verificando se suas previsões estão
corretas. Os filhos experimentam com a gente, seus ratinhos
irritados.
Veja O que os bebês sabem sobre o que
pensam os adultos?
Meltzoff Sabem pouco, aparentemente. Mas por
volta de 1 ano começam a ler nossos pensamentos e
expressões de uma maneira interessante. Eles percebem
que, quando você olha para algum lugar e sorri, está
querendo que eles também olhem para lá. Um
pouco depois, descobrem que outras pessoas podem ter gostos
e desejos diferentes dos deles. Realizamos uma experiência
na qual um adulto finge gostar de brócolis e detestar
biscoito. Quando o adulto pede uma das comidas, o bebê
de 1 ano e meio entrega aquela que o adulto demonstrou gostar,
apesar de ele próprio achar a verdura horrorosa e
adorar biscoito. Uma criança de 1 ano não
é capaz de dar os brócolis. Mas com mais seis
meses de pesquisas ela já entende que o outro é
diferente e dá os brócolis. Ela se dá
conta de que cada louco tem sua mania.
Veja Qual o papel dos irmãos no processo
de aprendizado?
Meltzoff Os pais tendem a achar que são
o fator decisivo na vida de seus filhos, mas, para um menino
de 2 anos, um irmão ou irmã pode ser um exemplar
humano muito mais encantador. A convivência com outras
crianças afeta o desenvolvimento. Crianças
com irmãos aprendem mais rápido que nem todos
têm sempre o mesmo ponto de vista. Testes mostram
que irmãos mais velhos ou filhos únicos se
saem melhor em testes de QI e se tornam pessoas mais dominadoras
e ambiciosas. Em compensação, os mais novos
costumam dar baile em simpatia e sociabilidade.
Veja Por que essa diferença?
Meltzoff Talvez porque os mais velhos vivam provocando
os mais novos e enfatizando sua superioridade diante da
ignorância do menor. Além disso, enquanto os
pais fazem sempre o que os filhos querem, convencer um irmão
mais velho a te atender exige muito mais astúcia.
Veja O senhor chama de "mamanhês" a
maneira como os adultos falam com os bebês. Parece
tão bobo. Esse tatibitate tem alguma utilidade?
Meltzoff Vários estudos confirmaram que
os bebês aprendem melhor a linguagem quando lhes falamos
dessa maneira amorosa e emocional, com palavras melodiosas
e simples e num timbre mais alto. Ou seja, não faz
nenhum mal para crianças com menos de 2 anos ter
pais que falam e agem como bobos.
Veja Se o "mamanhês" é um tipo
de lição, os bebês estão aprendendo
linguagem desde que nascem. O que exatamente eles sabem
antes de falar?
Meltzoff Uma pesquisa recente mostra que os bebês
reconhecem a língua materna bem cedo, provavelmente
nos primeiros seis meses. Isso quer dizer que eles estão
aprendendo os padrões, ritmos e sons de sua língua
apenas ao ouvi-la o tempo todo. Não quer dizer que
possam falar ou entendam muita coisa antes dos 10 meses.
Veja Por que as primeiras palavras ditas
são quase sempre, e quase em todo o mundo, mama e
papa?
Meltzoff Esses sons são produzidos abrindo
e fechando os lábios. Quando balbuciam, os bebês
dizem "mamama" ou "papapa". Em várias culturas, versões
desses sons foram adotadas com o significado de mãe
e pai.
Veja Os bebês têm memória?
Meltzoff Sim, os bebês podem lembrar do
rosto da mãe, do brinquedo favorito e, quando testados
corretamente, demonstram ter muito boa memória com
1 ano de idade. Eu comprovei que eles podem lembrar de coisas
até com uma semana de intervalo.
Veja Por que depois não conseguimos
lembrar nada do que nos aconteceu quando éramos bebês?
Meltzoff A maioria das pessoas não consegue
lembrar o que se passou antes dos 3 anos. Isso é
chamado de amnésia infantil. Os cientistas não
sabem a causa. Talvez tenha a ver com o fato de as primeiras
lembranças serem armazenadas de uma maneira pré-verbal
e é difícil traduzi-las nas representações
verbais que temos quando adultos.
Veja O senhor diz que os bebês não
são meigos por acaso. Qual seria a função
de tanta meiguice?
Meltzoff A evolução parece ter
arranjado as coisas de maneira a nos fazer querer tomar
conta dos bebês. Em todo o mundo, as pessoas acham
as bochechas rosadas dos bebês uma gracinha. É
como se fosse um truque para nos ajudar a cair de amores
por essas criaturas que dependem de nós. Cuidar de
bebês é uma tarefa árdua, melhor que
nós os achemos irresistivelmente meigos
Saiba
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