Edição 1 649 -17/5/2000

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Pais são cobaias

Estudioso americano diz que os bebês nascem
bem espertos e aprendem usando os adultos
como se fossem seus ratos de laboratório

Flávia Varella

 
"O ambiente influi e os estímulos são necessários. Mas fazê-los ouvir Mozart não serve para nada"

O objetivo do psicólogo americano Andrew Meltzoff, professor da Universidade de Washington, era entender como se dá o desenvolvimento intelectual e emocional do ser humano. Passou, então, a observar bebês. Logo descobriu que eles são muito mais espertos do que se pensava. Em 1977, comprovou isso com a publicação de uma pesquisa revolucionária em que mostra que os recém-nascidos imitam expressões faciais dos adultos. Mais de vinte anos depois, Meltzoff continua surpreendendo com suas pesquisas e se surpreendendo com os bebês. Uma de suas conclusões: "Bebês são como cientistas, querem entender o mundo. Para tanto usam o que podem, inclusive os pais como seus ratos de laboratório". A compilação de seu trabalho está no livro The Scientist in the Crib (O Cientista no Berço), escrito em parceria com duas outras cientistas e lançado nos Estados Unidos no ano passado.

Veja – É possível criar bebês mais espertos oferecendo estimulação ou brinquedos especiais?
Meltzoff –
Crianças que vivem no isolamento ou na pobreza absoluta têm o desenvolvimento retardado. Portanto, o ambiente influi. Crianças não são como flores – dê-lhes água e sol e elas desabrocharão. Mas isso não significa que estímulos extras sejam bons ou mesmo necessários. Acredito que a estimulação normal por meio de brincadeiras e frases simples do dia-a-dia seja suficiente e melhor. Não há nenhuma evidência de que possamos criar um superbebê, apesar de haver muita gente ganhando dinheiro com brinquedos, receitas de exercícios e outras fórmulas para esse fim. Eu vejo cerca de 1.000 bebês por ano em meu laboratório. Eles sempre preferem os brinquedos simples, como potes e colheres, bolas e roupas, aos incrementados.

Veja – Se o bebê ouve muita música na época em que mais sinapses se formam na parte do cérebro relacionada a essa arte, ele terá mais chance de ser bom músico, como dizem alguns neurocientistas?
Meltzoff –
Não há evidências científicas de que isso produza resultados. Claro que ouvir Mozart nunca fará mal a ninguém. Mas as crianças não têm de ouvir música para se tornar musicais. A voz de sua mãe é a melhor música que há. Elas estão aprendendo melodia quando alternamos tons e timbres em nossa maneira usual de falar. Mozart, afinal, nunca ouviu fitas de Mozart.

Veja – Se esse conceito não é verdadeiro para música, parece ser para línguas estrangeiras. Por que uma criança que aprende outra língua cedo fala facilmente, sem sotaque?
Meltzoff –
De fato, quem aprende uma segunda língua entre os 3 e os 7 anos tem melhor pronúncia. Depois dos 8 anos, o desempenho declina. Se a criança crescer com alguém conversando com ela também em uma segunda língua, poderá tornar-se bilíngüe sem tanto esforço. Acredito que isso ocorre porque é na infância que se criam na mente os protótipos dos sons que ouvimos e emitimos. Ao alcançar a puberdade esses protótipos já estão tão formados e fixados que fica mais difícil a percepção e a diferenciação dos sons de uma língua estrangeira.

Veja – Por que o senhor compara bebês a cientistas?
Meltzoff –
Como os cientistas, as crianças estão profundamente engajadas na tentativa de entender o mundo físico, dos objetos, e o psicológico, das pessoas. Os bebês agem como cientistas ideais: eles querem compreender as coisas para poder fazer melhores previsões. Tipo o que acontece se eu fizer isso ou aquilo. Eles ocupam seus dias e noites nesse ofício. A diferença é que a criança trabalha pelo simples prazer da descoberta. Os cientistas muitas vezes o fazem pela fama, dinheiro ou promoção.

Veja – O senhor afirma que desde o nascimento os bebês já tiram conclusões, fazem previsões, buscam explicações, fazem experimentos. Que tipo de problemas eles resolvem?
Meltzoff –
O problema da permanência dos objetos é um clássico na infância. Antes de 1 ano de idade, as crianças não sabem que os objetos que desaparecem de suas vistas continuam a existir. Deitados no berço, os bebês fazem experiências de como esconder o boneco debaixo de um pano e então procurar por ele, mostrando grande entusiasmo quando o encontram. Ou então empurram uma bola para baixo do sofá dezenas de vezes e a recuperam apenas para, em seguida, escondê-la de novo. Mediante esses jogos de esconde-esconde, eles descobrem a permanência dos objetos.

Veja – Se nascem com tantas habilidades, por que os bebês são tão dependentes e precisam de um período tão longo de proteção por parte dos adultos?
Meltzoff –
Os bebês nascem sabendo muito, mas não tudo. Existem três bases para o desenvolvimento das crianças: elas nascem com muitos conhecimentos; dois, aprendem ainda mais com suas próprias atividades; e três, são ensinadas pela cultura e por seus pais. Por isso são tão dependentes. As aranhas tecem suas teias sem instrução paterna. Os carneirinhos sobem as montanhas poucas horas após o nascimento. Há muitas espécies que são bem mais próximas dos adultos ao nascer do que os humanos. Na verdade, nascer com habilidade para aprender de suas próprias atividades e das dos outros é um dom raro e formidável não compartilhado por todas as espécies. Em certo sentido, nós humanos nascemos para aprender. A aparente fragilidade é, na verdade, uma predisposição para aprender rapidamente, para absorver o que está na cultura sem esforço. Não é uma desvantagem ser dependente e um aprendiz super-rápido. Pelo contrário, isso dá à espécie humana flexibilidade para formar diferentes culturas com diferentes costumes, rituais, línguas.

Veja – A infância é o período de aprendizado mais importante?
Meltzoff –
É o mais acelerado. Quando recém-nascidos, os bebês mamam e dormem. Aos 3 anos, andam, conversam, às vezes contam mentiras, sentem simpatia ou aversão pelos outros e têm noções de moralidade. Nenhuma outra espécie aprende tanto em tão pouco tempo. Os bebês aprendem mais nos três primeiros anos do que em quaisquer outros três anos de sua vida. Se nós adultos pudéssemos aprender tanto a cada semana, seríamos todos gênios.

Veja – Há trinta anos, acreditava-se que os bebês não enxergavam, que seus sorrisos eram sem significado e que a idéia de que eles reconheciam a mãe era apenas uma ilusão maternal. Hoje essas idéias parecem absurdas e mesmo insensíveis. Por que elas duraram tanto tempo?
Meltzoff –
Nós adultos somos maiores e mais fortes e temos mais conhecimento do que as crianças, por isso é fácil pensar que elas são folhas de papel em branco que preenchemos e moldamos em seres humanos. Essa idéia errada começou a mudar com o surgimento de um aparelho hoje trivial, o videocassete. Sua invenção foi para os psicólogos do desenvolvimento como o telescópio para os astrônomos. Revolucionou completamente a nossa ciência. Antes tínhamos de observar uma criança num cenário artificial durante os poucos minutos do teste. As mães diziam que os filhos se saíam melhor nas atividades em casa. Com o vídeo, pudemos gravar comportamentos à noite e em casa e considerá-los evidências científicas. É verdade que bebês novinhos sorriem para suas mães. Não é uma ilusão maternal.

Veja – O senhor provou que bebês de 1 mês imitam expressões faciais. O que isso exige do bebê e o que indica?
Meltzoff –
Ao mostrar a língua imitando sua mãe, o bebê demonstra saber que ele é semelhante a nós. De todos os objetos na sala – a lâmpada, a manta, o ursinho –, ele sabe que os adultos "são como eu e eu como eles". Não é algo que lhes é ensinado. Eles deduzem, e essa percepção torna-se fundamental para o desenvolvimento moral e social.

Veja – Todo pai acha que, às vezes, seu filho quer levá-lo à loucura. O que as crianças estão tramando quando fazem coisas que você não quer exatamente porque você não quer?
Meltzoff –
Nada de mal. Elas apenas trabalham em seus estudos como psicólogos e usam os pais como seus ratos de laboratório. Aos 2, 3 anos de idade, elas estão muito interessadas em testar os limites das coisas. O menino quer entender o que nos deixa irritados e quais são as regras. Para isso, repete à exaustão um comportamento, como engatinhar até a tomada para confirmar se aquilo realmente nos deixa bravos. Está verificando se suas previsões estão corretas. Os filhos experimentam com a gente, seus ratinhos irritados.

Veja – O que os bebês sabem sobre o que pensam os adultos?
Meltzoff –
Sabem pouco, aparentemente. Mas por volta de 1 ano começam a ler nossos pensamentos e expressões de uma maneira interessante. Eles percebem que, quando você olha para algum lugar e sorri, está querendo que eles também olhem para lá. Um pouco depois, descobrem que outras pessoas podem ter gostos e desejos diferentes dos deles. Realizamos uma experiência na qual um adulto finge gostar de brócolis e detestar biscoito. Quando o adulto pede uma das comidas, o bebê de 1 ano e meio entrega aquela que o adulto demonstrou gostar, apesar de ele próprio achar a verdura horrorosa e adorar biscoito. Uma criança de 1 ano não é capaz de dar os brócolis. Mas com mais seis meses de pesquisas ela já entende que o outro é diferente e dá os brócolis. Ela se dá conta de que cada louco tem sua mania.

Veja – Qual o papel dos irmãos no processo de aprendizado?
Meltzoff –
Os pais tendem a achar que são o fator decisivo na vida de seus filhos, mas, para um menino de 2 anos, um irmão ou irmã pode ser um exemplar humano muito mais encantador. A convivência com outras crianças afeta o desenvolvimento. Crianças com irmãos aprendem mais rápido que nem todos têm sempre o mesmo ponto de vista. Testes mostram que irmãos mais velhos ou filhos únicos se saem melhor em testes de QI e se tornam pessoas mais dominadoras e ambiciosas. Em compensação, os mais novos costumam dar baile em simpatia e sociabilidade.

Veja – Por que essa diferença?
Meltzoff –
Talvez porque os mais velhos vivam provocando os mais novos e enfatizando sua superioridade diante da ignorância do menor. Além disso, enquanto os pais fazem sempre o que os filhos querem, convencer um irmão mais velho a te atender exige muito mais astúcia.

Veja – O senhor chama de "mamanhês" a maneira como os adultos falam com os bebês. Parece tão bobo. Esse tatibitate tem alguma utilidade?
Meltzoff –
Vários estudos confirmaram que os bebês aprendem melhor a linguagem quando lhes falamos dessa maneira amorosa e emocional, com palavras melodiosas e simples e num timbre mais alto. Ou seja, não faz nenhum mal para crianças com menos de 2 anos ter pais que falam e agem como bobos.

Veja – Se o "mamanhês" é um tipo de lição, os bebês estão aprendendo linguagem desde que nascem. O que exatamente eles sabem antes de falar?
Meltzoff –
Uma pesquisa recente mostra que os bebês reconhecem a língua materna bem cedo, provavelmente nos primeiros seis meses. Isso quer dizer que eles estão aprendendo os padrões, ritmos e sons de sua língua apenas ao ouvi-la o tempo todo. Não quer dizer que possam falar ou entendam muita coisa antes dos 10 meses.

Veja – Por que as primeiras palavras ditas são quase sempre, e quase em todo o mundo, mama e papa?
Meltzoff –
Esses sons são produzidos abrindo e fechando os lábios. Quando balbuciam, os bebês dizem "mamama" ou "papapa". Em várias culturas, versões desses sons foram adotadas com o significado de mãe e pai.

Veja – Os bebês têm memória?
Meltzoff –
Sim, os bebês podem lembrar do rosto da mãe, do brinquedo favorito e, quando testados corretamente, demonstram ter muito boa memória com 1 ano de idade. Eu comprovei que eles podem lembrar de coisas até com uma semana de intervalo.

Veja – Por que depois não conseguimos lembrar nada do que nos aconteceu quando éramos bebês?
Meltzoff –
A maioria das pessoas não consegue lembrar o que se passou antes dos 3 anos. Isso é chamado de amnésia infantil. Os cientistas não sabem a causa. Talvez tenha a ver com o fato de as primeiras lembranças serem armazenadas de uma maneira pré-verbal e é difícil traduzi-las nas representações verbais que temos quando adultos.  

Veja – O senhor diz que os bebês não são meigos por acaso. Qual seria a função de tanta meiguice?
Meltzoff –
A evolução parece ter arranjado as coisas de maneira a nos fazer querer tomar conta dos bebês. Em todo o mundo, as pessoas acham as bochechas rosadas dos bebês uma gracinha. É como se fosse um truque para nos ajudar a cair de amores por essas criaturas que dependem de nós. Cuidar de bebês é uma tarefa árdua, melhor que nós os achemos irresistivelmente meigos

 
Saiba mais
Da internet
  Associação Americana de Psicologia