Edição 1 649 -17/5/2000

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E agora, crescer?

"O principal desafio do presidente será definir um projeto 'pós-ajuste' da economia, que incorpore a estabilidade como um valor permanente"

 
Ilustração Ale Setti

A economia volta a crescer. Todos os indicadores confirmam isso. O ano passado, último de uma década que começou com hiperinflação, confirmou a robustez da estabilização. O Brasil, quando avança, passa a tolerar melhor os seus problemas. A tensão diminui. O presidente Fernando Henrique anunciou o fim da fase das reformas e o início da era do crescimento. O que significaria esse fim das reformas? Certamente não que poderíamos voltar à gastança. Muito menos que toda a tarefa reformista tenha sido realizada. A reforma do Estado permanece incompleta. Significa menos ainda que o gasto público já tenha grau aceitável de qualidade, racionalidade e justiça.

Significa, sim, que a tarefa legislativa para criar um quadro institucional que coíba o desmando fiscal está próxima de se completar. Todo governador sério, todo prefeito responsável, de esquerda, centro ou direita, tem hoje consciência da necessidade de uma gestão orçamentária equilibrada. Mas o fim da primeira etapa das reformas coloca o governo diante de um dilema político-econômico: o que fazer agora, já que não haverá uma nova pauta de reformas?

O principal desafio do presidente, agora, será definir um projeto "pós-ajuste" da economia, que incorpore a estabilidade como um valor permanente. Os setores dos partidos da coalizão governista que têm alguma preocupação programática querem esse projeto. Os demais não vêem a estabilidade e o equilíbrio fiscal como valores permanentes, mas como um incômodo imposto pelas circunstâncias e por forças externas. Querem se livrar dele e partir para o crescimento.

A equipe econômica tem sido a voz solitária que insiste que o "crescer" é parte do "ajustar" e "estabilizar", que são suas precondições. Se o crescimento resultar em desajuste ou instabilidade, será breve e não trará os benefícios esperados.

A própria idéia de políticas de crescimento tem se mostrado contraditória e pouco sensível às conquistas alcançadas com o sucesso da "agenda da estabilização". Não há convicção política suficiente sobre que conjunto de medidas constituiria uma agenda relevante, compatível com a estabilidade, que tenha credibilidade e mobilize parcela majoritária da nação a seu favor. Isso pode levar o governo FHC a ter um comportamento mais errático e contraditório do que teve até agora.

O crescimento é consenso. Como obtê-lo, não. Ninguém duvida que o Brasil precisa buscar ganhos continuados de produtividade e competitividade. Essa é uma idéia que, associada a princípios mais gerais de saúde macroeconômica, modernização e mudança educacional, serviria de base paba um projeto para mais de uma geração de presidentes.

Mas o que se viu até agora nos fóruns de competitividade foi como uma idéia nova usando tecnologia velha pode terminar em demandas ultrapassadas. Os fóruns setoriais são uma reedição atualizada dos velhos grupos executivos de JK e dos grupos setoriais do antigo Conselho de Desenvolvimento Industrial. Podem facilmente virar cadeias de transmissão para dentro do estado de demandas corporativistas que têm como alvo principal o Tesouro da República. Não cabe ao governo definir setores, escolher empresas, inventar campeões. É melhor fazer isso no Ministério dos Esportes, para ampliar nossas vitórias nas Olimpíadas. Os campeões nacionais de produtividade só podem sair da boa iniciativa privada, inovativa, competitiva e ambiciosa. É claro que o governo tem um papel importante na eliminação dos fatores que inibem a competitividade nacional. O primeiríssimo é enterrar – sem cerimônia – tudo o que pertence à velha política industrial, que torna os empresários absolutamente ineptos para enfrentar o mercado aberto, acostumados ao aconchego dos favores estatais. Acelerar a melhoria da macrologística. Retificar sua política regulatória. Desenhar uma reforma tributária para desinibir a competitividade da economia brasileira. A cultura brasileira sobre o modelo de crescimento ainda é a de nossa longa fase "pré-estabilização". O desafio é formarmos consenso sobre um novo modelo, contemporâneo ao depois da estabilização.

Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)