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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
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22 a 8

Bons contos perdem de goleada
no novo livro
de Rubem Fonseca

Carlos Graieb


Pequenas Criaturas
(Companhia das Letras; 284 páginas; 28 reais), o novo livro de Rubem Fonseca, tem trinta contos. Oito são muito bons. Os outros, não mais que razoáveis. Alguém pode até reclamar do placar, e dizer que o juiz anulou tentos válidos. Pode citar textos como Natal ou Madrinha da Bateria. Há, de fato, o que discutir. Mas nem isso inverteria a goleada.

O choque na obra de Rubem Fonseca costuma ser térmico. Resulta do embate de matéria quente e abordagem fria. Seus textos lidam com o grotesco e o violento, falam de perversões e desajustes, de hipocrisia e exploração social. Mas a voz do narrador é quase sempre desapaixonada. E a linguagem, de fraseado mais corriqueiro possível, é carregada de estereótipos. Como notou certa vez o crítico Luiz Costa Lima, com freqüência a surpresa nesses textos decorre do súbito "descongelamento" dessa linguagem. Uma informação inusitada vem à tona, um clichê é arrancado de seu contexto usual, e isso gera uma ironia, um desconforto para o leitor. Um exemplo claro desse procedimento está no famoso conto Feliz Ano Novo, que termina com esse bordão – mas proferido por um bandido, depois de um assalto violento.

Com o ajuste adequado de temperaturas, Fonseca é magistral. Isso se vê em Ganhar o Jogo, com seu protagonista que é um garçom assassino, e nos sarcásticos Meu Avô (uma breve história da violência urbana no Brasil) e Virtudes Teologais (sobre o fracasso das boas intenções). Outros acertos são O Garoto Maravilha, Soma Zero, Escuridão e Lucidez, Todos Temos um Pouco e Começo. Dados o material e a técnica do autor, contudo, sempre há o risco de ele cair na vulgaridade ou no banal. E, infelizmente, isso ocorre em boa parte de Pequenas Criaturas. Caderninho de Nomes, por exemplo, é pouco mais que uma piada suja. Já textos como Paixão e Tratado do Uso das Mulheres não pecam pelo excesso, mas por ser anedotas sem maior impacto.

   
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