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O falastrão
caiu
Multidões
nas ruas e rebelião
militar tiram Hugo Chávez da
Presidência da Venezuela
Raul Juste
Lores
Reuters

Manifestação
convocada por empresários e sindicalistas em Caracas: 200.000
pessoas |

Veja também |
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Foram três
anos e dois meses de interminável retórica revolucionária
ou, melhor, daquela sopa de lugares-comuns esquerdistas que o presidente
Hugo Chávez chamava "revolução bolivariana". A tônica
da discurseira eram as promessas populistas e as infindáveis acusações
à Igreja Católica, aos empresários, à imprensa
e aos Estados Unidos, responsabilizados por todos os males da Venezuela.
A cantilena se completava com juras de amor a Cuba e a seu ditador, Fidel
Castro, de quem o presidente venezuelano copiou a mania de proferir discursos
que se prolongavam por várias horas. Na quinta-feira passada, uma
multidão de 200.000 venezuelanos, arregimentados
por sindicatos de patrões e empregados, marchou para o palácio
presidencial e foi recebida a bala por partidários do presidente.
Morreram quinze manifestantes e 350 ficaram feridos. Na madrugada de sexta,
com a nação mergulhada em comoção cívica,
uma rebelião militar forçou Chávez a renunciar e
ele foi aprisionado num quartel na periferia de Caracas, a capital do
país. O destino dramático do presidente contém certa
dose de justiça: há dez anos, quando era tenente-coronel
do corpo de pára-quedistas, comandou uma sangrenta tentativa de
golpe de Estado. Agora, sentiu na pele o peso da insubordinação
nos quartéis.
Chávez
é o terceiro presidente sul-americano a ser corrido do palácio
pelo povo nas ruas em apenas quatro meses. Os outros foram os argentinos
Fernando de la Rúa e Adolfo Rodríguez Saá. Em comum,
eles presidiram países com a economia aos frangalhos e optaram
por oferecer ilusões demagógicas em lugar de políticas
concretas para sanear as finanças públicas. A seqüência
de governantes derrubados pela multidão nas ruas e o governo caótico
do presidente-coronel na Venezuela são mais um papelão daqueles
que reforçam a imagem da América Latina como uma região
instável e pouco séria. Nos últimos três anos,
o peruano Alberto Fujimori fugiu do país para não ser preso
como ladrão. Um vice-presidente foi assassinado no Paraguai e o
presidente, acusado de ser o mandante do crime, exilou-se no Brasil. A
Colômbia tornou-se refém de uma inusitada coalizão
de guerrilheiros comunistas e narcotraficantes. A Argentina foi tragada
por uma crise política e econômica que consumiu quatro presidentes.
Em Cuba, persiste o mesmo ditador patético, Fidel Castro, no poder
desde os anos 60. Dos grandes países latino-americanos, só
o México, atrelado aos Estados Unidos por um acordo de comércio,
e o Brasil são estáveis do ponto de vista político
e econômico.
AP

Chávez
joga a toalha: retórica em excesso, pouco resultado |
Com uma vizinhança
tão encrencada, o esforço do Brasil para se provar um país
estável aos olhos dos investidores estrangeiros e criar barreiras
contra o estigma terá de ser redobrado. "Tomara que a queda de
Chávez represente uma vacina contra salvadores da pátria
na região", disse a VEJA Andrés Oppenheimer, colunista do
jornal americano Miami Herald e respeitado especialista em América
Latina. O ponto positivo na queda de Chávez foi a demonstração
de que o oportunismo populista já não consegue enganar uma
sociedade latino-americana por muito tempo. A popularidade de Chávez,
que era de 80% em 1999, caiu para 30% em fevereiro. Procurar briga com
os Estados Unidos, que compram 60% do petróleo venezuelano, e ficar
amigo de Cuba foram ações contra as tradições
do país. Até 1974, o petróleo venezuelano era explorado
pelos americanos, que colocaram o país no mapa, nos anos 20. O
beisebol é o esporte mais popular da Venezuela. Os venezuelanos
jamais perdoaram Chávez por ter criticado os ataques americanos
no Afeganistão. Por pouco, eles entravam de graça no eixo
do mal, a lista de países declarados inimigos pelos Estados Unidos.
Fotos Reuters
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Chávez
faz festa com o povo (acima, à esq.) e joga beisebol
com Fidel Castro (acima, à dir.), em Caracas. Em aberto
desafio aos Estados Unidos, o presidente visitou
o ditador Saddam Hussein em Bagdá, a quem propôs aumentar
o preço do
petróleo (à esq.)
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A situação
da Venezuela tornou-se muito ruim. Oito de cada dez venezuelanos são
oficialmente pobres. O desemprego é de 15% e os investimentos estrangeiros
minguaram, assustados com a retórica bolivariana. O país
vivia aos sobressaltos por causa do comportamento imprevisível
do presidente Chávez, que mudava leis e substituía autoridades
de acordo com seu humor. A última travessura foi demitir toda a
diretoria da estatal PDVSA, que explora o petróleo no país,
o quarto maior produtor do mundo, e colocar no lugar intelectuais de esquerda
que o apoiavam. Há um quarto de século, a maior empresa
venezuelana era autônoma em relação ao governo. Desta
vez, não aceitou a ingerência. Os funcionários entraram
em greve. Tanto a Central dos Trabalhadores Venezuelanos como a Fedecámaras,
a principal associação empresarial, decidiram apoiar o protesto
dos petroleiros. O presidente tentou um último golpe de efeito:
aumentou o salário mínimo, de 190 para 230 dólares.
Foi inútil. O principal organizador das greves gerais, o presidente
da Fedecámaras, Pedro Carmona, de 61 anos, assumiu a Presidência
no lugar de Chávez e prometeu convocar eleições em
menos de um ano.
Desde que
foi eleito, pouco mais de três anos atrás, Chávez
endureceu o discurso populista que agradava aos mais pobres, que estavam
cansados da miséria, da corrupção e da velha elite
política da Venezuela. Com a popularidade no pico, o presidente
venceu plebiscitos, o que lhe permitiu construir uma formidável
estrutura de poder, colocando juízes e militares amigos nos principais
postos. Apesar do poder enorme, não conseguiu nem reduzir o desemprego,
nem a inflação, nem fazer com que a economia se tornasse
menos dependente do petróleo. Com a sensação de que
as leis mudavam diariamente, os investimentos estrangeiros secaram. "O
país estava à venda, os empresários precisavam urgentemente
de parceiros estrangeiros para se tornar competitivos. E o que aconteceu?
Ninguém queria colocar seu dinheiro na terra de Chávez",
disse a VEJA o editor da respeitada revista americana Foreign Policy,
o venezuelano Moisés Naím.
Muito do
clima de instabilidade se deve ao esquerdismo folclórico de Chávez.
Adorava exibir sua amizade com Fidel Castro. Visitou os aiatolás
do Irã e até o ditador iraquiano Saddam Hussein, com quem
se sentia completamente à vontade. Era repetidamente acusado pelas
autoridades da Colômbia de dar abrigo a guerrilheiros colombianos,
e até Vladimiro Montesinos, o chefão do esquema corrupto
de Alberto Fujimori, esteve foragido em Caracas, provavelmente com a autorização
do coronel. Suas bravatas esquerdistas chegaram a encantar setores da
esquerda brasileira. Na Venezuela, o discurso soava mal. "Houve uma crescente
repulsa pelo estilo autoritário e marxista do presidente. Tanto
a sociedade quanto o Exército achavam que Chávez foi longe
demais e não o respeitavam", afirma o cientista político
Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela. Sua artilharia verbal,
contra tudo e todos (certa vez chamou a Igreja de "tumor"), permitiu que
a oposição se unisse.
O regime
enfraqueceu junto com o sobe-e-desce do preço do petróleo.
Mais de 80% das exportações e 60% da arrecadação
da Venezuela se devem ao combustível. Mesmo nos momentos em que
o preço caiu, Chávez continuou distribuindo dinheiro público
aos círculos bolivarianos, que, na prática, eram células
de divulgação de seu governo e de livros didáticos
cubanos. A inflação, somada à estagnação
econômica, tirou do presidente seu apoio mais fiel, o da classe
baixa. Chávez se considerava um Robin Hood bolivariano. Era mais
um bufão, que entretinha o povão com programas de televisão
em que se comportava mais como animador de auditório do que como
presidente. Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou
o índice risco país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou
(alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%.
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O
desastre econômico de Hugo Chávez
O
desemprego, que era de 12% quando ele chegou ao poder, pulou
para 15%
A moeda nacional, o bolívar, perdeu 44% do valor desde
a posse, em fevereiro de 1999
Os
investimentos estrangeiros minguaram. Foram de apenas 2,5 bilhões
de dólares em 2001, quase um décimo do que o Brasil
ou o México receberam no mesmo ano
As exportações caíram para 24 bilhões
de dólares em 2001, 3 bilhões a menos que no
ano anterior. As importações subiram de 15,8 bilhões
para 18,6 bilhões
Devido
à gastança populista, o déficit público
foi de 8% em 2001, um dos maiores do continente
As previsões são de crescimento zero do PIB
neste ano
A inflação prevista para este ano é de 20%
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