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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
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O falastrão caiu

Multidões nas ruas e rebelião
militar tiram Hugo Chávez da
Presidência da Venezuela

Raul Juste Lores

 
Reuters

Manifestação convocada por empresários e sindicalistas em Caracas: 200.000 pessoas


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Dos arquivos de VEJA
"O charlatão bolivariano", de 4/7/2001
"Chávez enfrenta a contra-revolução", de 19/12/2001
Exclusivo VEJA on-line
Imagens do fim do governo Chávez

Foram três anos e dois meses de interminável retórica revolucionária – ou, melhor, daquela sopa de lugares-comuns esquerdistas que o presidente Hugo Chávez chamava "revolução bolivariana". A tônica da discurseira eram as promessas populistas e as infindáveis acusações à Igreja Católica, aos empresários, à imprensa e aos Estados Unidos, responsabilizados por todos os males da Venezuela. A cantilena se completava com juras de amor a Cuba e a seu ditador, Fidel Castro, de quem o presidente venezuelano copiou a mania de proferir discursos que se prolongavam por várias horas. Na quinta-feira passada, uma multidão de 200.000 venezuelanos, arregimentados por sindicatos de patrões e empregados, marchou para o palácio presidencial e foi recebida a bala por partidários do presidente. Morreram quinze manifestantes e 350 ficaram feridos. Na madrugada de sexta, com a nação mergulhada em comoção cívica, uma rebelião militar forçou Chávez a renunciar e ele foi aprisionado num quartel na periferia de Caracas, a capital do país. O destino dramático do presidente contém certa dose de justiça: há dez anos, quando era tenente-coronel do corpo de pára-quedistas, comandou uma sangrenta tentativa de golpe de Estado. Agora, sentiu na pele o peso da insubordinação nos quartéis.

Chávez é o terceiro presidente sul-americano a ser corrido do palácio pelo povo nas ruas em apenas quatro meses. Os outros foram os argentinos Fernando de la Rúa e Adolfo Rodríguez Saá. Em comum, eles presidiram países com a economia aos frangalhos e optaram por oferecer ilusões demagógicas em lugar de políticas concretas para sanear as finanças públicas. A seqüência de governantes derrubados pela multidão nas ruas e o governo caótico do presidente-coronel na Venezuela são mais um papelão daqueles que reforçam a imagem da América Latina como uma região instável e pouco séria. Nos últimos três anos, o peruano Alberto Fujimori fugiu do país para não ser preso como ladrão. Um vice-presidente foi assassinado no Paraguai e o presidente, acusado de ser o mandante do crime, exilou-se no Brasil. A Colômbia tornou-se refém de uma inusitada coalizão de guerrilheiros comunistas e narcotraficantes. A Argentina foi tragada por uma crise política e econômica que consumiu quatro presidentes. Em Cuba, persiste o mesmo ditador patético, Fidel Castro, no poder desde os anos 60. Dos grandes países latino-americanos, só o México, atrelado aos Estados Unidos por um acordo de comércio, e o Brasil são estáveis do ponto de vista político e econômico.

 
AP

Chávez joga a toalha: retórica em excesso, pouco resultado

Com uma vizinhança tão encrencada, o esforço do Brasil para se provar um país estável aos olhos dos investidores estrangeiros e criar barreiras contra o estigma terá de ser redobrado. "Tomara que a queda de Chávez represente uma vacina contra salvadores da pátria na região", disse a VEJA Andrés Oppenheimer, colunista do jornal americano Miami Herald e respeitado especialista em América Latina. O ponto positivo na queda de Chávez foi a demonstração de que o oportunismo populista já não consegue enganar uma sociedade latino-americana por muito tempo. A popularidade de Chávez, que era de 80% em 1999, caiu para 30% em fevereiro. Procurar briga com os Estados Unidos, que compram 60% do petróleo venezuelano, e ficar amigo de Cuba foram ações contra as tradições do país. Até 1974, o petróleo venezuelano era explorado pelos americanos, que colocaram o país no mapa, nos anos 20. O beisebol é o esporte mais popular da Venezuela. Os venezuelanos jamais perdoaram Chávez por ter criticado os ataques americanos no Afeganistão. Por pouco, eles entravam de graça no eixo do mal, a lista de países declarados inimigos pelos Estados Unidos.

 
Fotos Reuters

Chávez faz festa com o povo (acima, à esq.) e joga beisebol com Fidel Castro (acima, à dir.), em Caracas. Em aberto desafio aos Estados Unidos, o presidente visitou o ditador Saddam Hussein em Bagdá, a quem propôs aumentar o preço do petróleo (à esq.)

A situação da Venezuela tornou-se muito ruim. Oito de cada dez venezuelanos são oficialmente pobres. O desemprego é de 15% e os investimentos estrangeiros minguaram, assustados com a retórica bolivariana. O país vivia aos sobressaltos por causa do comportamento imprevisível do presidente Chávez, que mudava leis e substituía autoridades de acordo com seu humor. A última travessura foi demitir toda a diretoria da estatal PDVSA, que explora o petróleo no país, o quarto maior produtor do mundo, e colocar no lugar intelectuais de esquerda que o apoiavam. Há um quarto de século, a maior empresa venezuelana era autônoma em relação ao governo. Desta vez, não aceitou a ingerência. Os funcionários entraram em greve. Tanto a Central dos Trabalhadores Venezuelanos como a Fedecámaras, a principal associação empresarial, decidiram apoiar o protesto dos petroleiros. O presidente tentou um último golpe de efeito: aumentou o salário mínimo, de 190 para 230 dólares. Foi inútil. O principal organizador das greves gerais, o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, de 61 anos, assumiu a Presidência no lugar de Chávez e prometeu convocar eleições em menos de um ano.

Desde que foi eleito, pouco mais de três anos atrás, Chávez endureceu o discurso populista que agradava aos mais pobres, que estavam cansados da miséria, da corrupção e da velha elite política da Venezuela. Com a popularidade no pico, o presidente venceu plebiscitos, o que lhe permitiu construir uma formidável estrutura de poder, colocando juízes e militares amigos nos principais postos. Apesar do poder enorme, não conseguiu nem reduzir o desemprego, nem a inflação, nem fazer com que a economia se tornasse menos dependente do petróleo. Com a sensação de que as leis mudavam diariamente, os investimentos estrangeiros secaram. "O país estava à venda, os empresários precisavam urgentemente de parceiros estrangeiros para se tornar competitivos. E o que aconteceu? Ninguém queria colocar seu dinheiro na terra de Chávez", disse a VEJA o editor da respeitada revista americana Foreign Policy, o venezuelano Moisés Naím.

Muito do clima de instabilidade se deve ao esquerdismo folclórico de Chávez. Adorava exibir sua amizade com Fidel Castro. Visitou os aiatolás do Irã e até o ditador iraquiano Saddam Hussein, com quem se sentia completamente à vontade. Era repetidamente acusado pelas autoridades da Colômbia de dar abrigo a guerrilheiros colombianos, e até Vladimiro Montesinos, o chefão do esquema corrupto de Alberto Fujimori, esteve foragido em Caracas, provavelmente com a autorização do coronel. Suas bravatas esquerdistas chegaram a encantar setores da esquerda brasileira. Na Venezuela, o discurso soava mal. "Houve uma crescente repulsa pelo estilo autoritário e marxista do presidente. Tanto a sociedade quanto o Exército achavam que Chávez foi longe demais e não o respeitavam", afirma o cientista político Carlos Romero, da Universidade Central da Venezuela. Sua artilharia verbal, contra tudo e todos (certa vez chamou a Igreja de "tumor"), permitiu que a oposição se unisse.

O regime enfraqueceu junto com o sobe-e-desce do preço do petróleo. Mais de 80% das exportações e 60% da arrecadação da Venezuela se devem ao combustível. Mesmo nos momentos em que o preço caiu, Chávez continuou distribuindo dinheiro público aos círculos bolivarianos, que, na prática, eram células de divulgação de seu governo e de livros didáticos cubanos. A inflação, somada à estagnação econômica, tirou do presidente seu apoio mais fiel, o da classe baixa. Chávez se considerava um Robin Hood bolivariano. Era mais um bufão, que entretinha o povão com programas de televisão em que se comportava mais como animador de auditório do que como presidente. Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%.

 

O desastre econômico de Hugo Chávez

O desemprego, que era de 12% quando ele chegou ao poder, pulou para 15%

A moeda nacional, o bolívar, perdeu 44% do valor desde a posse, em fevereiro de 1999

Os investimentos estrangeiros minguaram. Foram de apenas 2,5 bilhões de dólares em 2001, quase um décimo do que o Brasil ou o México receberam no mesmo ano

As exportações caíram para 24 bilhões de dólares em 2001, 3 bilhões a menos que no ano anterior. As importações subiram de 15,8 bilhões para 18,6 bilhões

Devido à gastança populista, o déficit público foi de 8% em 2001, um dos maiores do continente

As previsões são de crescimento zero do PIB neste ano

A inflação prevista para este ano é de 20%



 
 
   
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