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Espião
do passado
O maior especialista
nos Manuscritos
do Mar Morto conta que
eles foram
quase totalmente decifrados, mas
deixaram mistérios que continuam
desafiando os estudiosos
Adriana
Carvalho
Arquivo pessoal
 |
"O
sensacionalismo foi enorme em torno dos manuscritos. Alguns jornais
americanos estamparam até que Elvis Presley era citado nas escrituras"
|
O
pesquisador holandês Emanuel Tov dedicou mais da metade da vida
ao estudo do que é considerado a maior descoberta arqueológica
de todos os tempos: os Manuscritos do Mar Morto. Aos 60 anos, ele agora
comemora a conclusão do trabalho de edição dos manuscritos,
que iluminaram os conhecimentos da humanidade sobre o judaísmo
e o início do cristianismo. A obra completa foi publicada em 52
volumes, a maior parte pela inglesa Oxford University Press, sob o título
de Descobertas no Deserto da Judéia. Outro volume, o derradeiro,
já está pronto e deverá vir a público nos
próximos meses. Os documentos foram escritos há mais de
2.000 anos sobre papiros e peles de carneiro, provavelmente pelos essênios,
um grupo de religiosos judeus. Permaneceram por séculos escondidos
nas cavernas da região de Qumran, próxima ao Mar Morto,
até ser descobertos em 1947. Desde então, passaram-se mais
algumas décadas até que seu conteúdo fosse traduzido
e revelado ao mundo. A expectativa foi imensa. Cristãos e judeus
queriam saber se havia neles algo que pudesse mudar a imagem que seus
fiéis tinham dessas religiões. Esperavam encontrar também
referências a Jesus Cristo e saber sua ligação com
o judaísmo. Tov diz que não há menções
a Jesus nos manuscritos, mas afirma que eles ajudaram em muito a conhecer
melhor o modo de vida das pessoas naquela época e a compreender
as mudanças pelas quais a Bíblia passou. E deixa
claro que, apesar de todo o estudo feito até agora, ainda há
muitos mistérios sobre o assunto aguardando uma solução.
Tov falou a VEJA por telefone, de seu escritório, em Jerusalém.
Veja Ao anunciar a conclusão da edição
dos Manuscritos do Mar Morto, o senhor disse que isso estava acontecendo
depois de 54 anos de excitação, expectativa, muita crítica
e poucos elogios. Quais foram essas críticas?
Tov
As principais críticas ocorreram principalmente há dez,
vinte anos, antes de eu assumir o cargo de editor-chefe da publicação
dos manuscritos, em 1991. Desde que eles foram descobertos e começaram
a ser estudados, o mundo acadêmico protestou contra o número
restrito de pesquisadores que tinham acesso aos textos. Além de
críticas, isso gerou uma série de especulações
e boatos.
Veja Que especulações eram essas?
Tov
Havia grande expectativa de que os manuscritos trouxessem revelações
sobre a vida de Jesus Cristo e sua relação com o judaísmo.
Mas isso não ocorreu. Não encontramos nada sobre Jesus ou
João Batista nos manuscritos. Muitas pessoas, entretanto, se recusaram
a aceitar esse fato e começaram a dizer que havia, sim, manuscritos
com referências a Jesus, mas que eles teriam sido escondidos ou
queimados pelo Vaticano. Afirmavam que o Vaticano não teria gostado
desse suposto texto sobre a vida de Jesus, que poderia comprometer a fé
dos cristãos. É evidente que ninguém pode provar
se esses boatos são verdadeiros ou não. Nós acreditamos
que sejam falsos, nos parece um absurdo acreditar nisso. Mas essas "versões"
saíram em alguns jornais. Os jornalistas gostavam de falar sobre
isso.
Veja Houve sensacionalismo em torno dos manuscritos?
Tov
Alguns tablóides americanos estamparam manchetes absurdas. Diziam
até que Elvis Presley era citado nos Manuscritos do Mar Morto.
Veja O senhor diz que Jesus Cristo não aparece nos
manuscritos, mas há um capítulo que descreve a vinda do
"filho de Deus" para a Terra. Não seria ele Jesus?
Tov
De fato, há um texto que chamamos de "O texto do filho de Deus".
Mas não há consenso entre nós, pesquisadores, sobre
quem era esse "filho de Deus". Alguns estudiosos dizem que é uma
entidade divina, outros afirmam que é um simples ser humano, alguns
o associam a uma pessoa angelical e há até quem diga que
era um ser demoníaco. É difícil explicar esse texto,
mas definitivamente ele é importante e contém expressões
similares às do Novo Testamento. Algumas pessoas podem dizer que
esse "filho de Deus" é Jesus Cristo, mas a maioria dos pesquisadores
não concorda com isso. Não há nada que prove essa
associação. "Filho de Deus" é um título muito
genérico, também encontrado na bíblia dos hebreus,
no Livro de Daniel. Não é necessariamente Jesus.
Veja Quais as principais contribuições dos
Manuscritos do Mar Morto?
Tov
Bom, nós temos um conhecimento agora muito melhor das raízes
do judaísmo e do início do cristianismo. Sabemos hoje mais
sobre os diferentes grupos judeus daqueles tempos. Entre eles, os essênios,
cujos sábios foram provavelmente os autores dos manuscritos. Há
neles descrições das relações desses grupos,
que freqüentemente brigavam entre si. Os manuscritos foram escritos
no período que vai do ano 250 antes de Cristo a 65 depois de Cristo,
ou seja, compreendem exatamente a época do início do cristianismo.
Há diversos textos bíblicos que, comparados à Bíblia
que conhecemos hoje, nos mostram que ela passou por vários estágios
de mutação.
Veja Mutações de que tipo?
Tov
Nas cavernas de Qumran e em outros lugares de Israel, nós encontramos
centenas de manuscritos, todos da Bíblia hebraica, o Velho
Testamento. Comparando com as traduções que conhecemos hoje
da Bíblia, notamos que há passagens que eram mais
curtas, outras mais compridas ou com textos diferentes dos que conhecemos
hoje. O Livro de Jeremias nos manuscritos aparece em uma versão
talvez 15% mais curta. Isso significa que, nas cópias feitas por
gerações após gerações, freqüentemente
os escribas mudavam os textos, acrescentando alguns detalhes, suprimindo
outros. Eles consideravam-se também autores e permitiam-se fazer
alterações. Isso ocorreu com os textos de Homero, as tragédias
gregas, não apenas com a Bíblia.
Veja Há quem diga que os Manuscritos do Mar Morto
podem melhorar as relações atuais entre cristãos
e judeus. O senhor acha que isso é possível?
Tov
Nosso grupo de pesquisadores inclui judeus, católicos, protestantes.
Nós trabalhamos em um espírito ecumênico, o que eu
considero um sinal de cooperação entre as religiões.
Mas não acredito que o conteúdo dos manuscritos, por si
só, possa melhorar as relações entre esses grupos
religiosos nos dias de hoje. Os documentos têm importância
para os estudiosos, para a compreensão e o conhecimento das religiões
antigas e não devem, necessariamente, ser um elo de aproximação
entre cristãos e judeus.
Veja Quais foram as maiores dificuldades do trabalho?
Tov
O
trabalho realmente não foi fácil, a começar pelos
meus colegas. Eu tinha de convencê-los a terminar suas tarefas.
Alguns deles já vinham trabalhando havia dez ou vinte anos no assunto
e eu tentava convencê-los de que era necessário finalizar
seus relatórios. Isso se tornou a maior dificuldade no decorrer
do trabalho. Logo que eu fui designado para assumir o comando da edição,
também houve problemas no relacionamento com outros estudiosos.
Tivemos de informar-lhes que eles deveriam reduzir sua participação
na pesquisa, simplesmente porque eles estavam incumbidos de grande parte
dela. Isso não foi fácil. Ficaram algumas divergências
ainda fortes entre nós. Até pessoais. O volume de trabalho
era assombroso. Os pesquisadores vieram da América do Norte, de
países europeus e também havia estudiosos de Israel. Alguns
eram especialistas em textos de sabedoria antiga, outros experts em textos
bíblicos. Havia especialistas em várias áreas, na
maioria professores universitários.
Veja Os especialistas trabalhavam diretamente com os manuscritos
originais? Quanto custou todo o trabalho?
Tov
Não. As escrituras foram fotografadas em 1950, e nosso trabalho
foi feito com base nessas fotos, que permitiam uma visualização
melhor dos textos originais. É muito difícil estimar quanto
dinheiro os estudos consumiram, mas podemos afirmar que foram gastos milhões
de dólares.
Veja O senhor vive em Israel, que é um país
marcado pelo conflito com os palestinos. Como isso afeta o trabalho?
Tov
Isso não torna o trabalho mais fácil, evidentemente, mas
nós conseguimos fazer o que precisamos. Os conflitos podem alterar
nosso humor, mas não nosso estudo. Temos de ser mais cuidadosos,
não podemos andar livremente com segurança pelas ruas. Mas
eu sou otimista. Acredito que mais cedo ou mais tarde os conflitos terão
fim.
Veja O senhor e sua equipe dedicaram um dos versos de Ação
de Graças dos Manuscritos do Mar Morto à cidade de Nova
York, depois dos ataques terroristas de 11 de setembro. O que esses versos
dizem?
Tov
Esses antigos versos dizem que o mundo tem problemas, mas trazem uma mensagem
de otimismo porque prevêem que o futuro será brilhante. Por
isso nós os consideramos particularmente apropriados para ser dedicados
a Nova York e seu povo. Todos nós ficamos chocados com os ataques
terroristas e a princípio não sabíamos como reagir.
Até agora os ataques continuam sendo algo incompreensível
para seres humanos normais. Eles mudaram não só os Estados
Unidos, mas todo o mundo.
Veja O senhor passou metade de sua vida estudando os Manuscritos
do Mar Morto e, no momento, a publicação está praticamente
concluída. O que pretende fazer agora que o trabalho acabou?
Tov
O trabalho não acabou. Há ainda milhares de questões
em aberto. Uma delas é: por que os manuscritos estavam nas cavernas
de Qumran? Acreditamos que estavam lá porque alguém queria
escondê-los, mas também há quem pense que as cavernas
eram templos secretos. Outra questão intrigante é sobre
as pessoas que escreveram esses manuscritos. Nós acreditamos que
foram os essênios, mas há pesquisadores que discordam dessa
teoria. Também sabemos pouco sobre os líderes dos grupos
religiosos citados nos manuscritos, que aparecem identificados nos textos
apenas por apelidos. Há muitos mistérios que precisam ser
resolvidos, principalmente porque os manuscritos encontrados são
fragmentos. É como se você pegasse um grande livro, arrancasse
e jogasse fora a maior parte dele e ficasse apenas com umas dez páginas.
É preciso tentar deduzir o que estava escrito nas páginas
que estão faltando e traçar uma relação com
as que sobraram. Eu vou continuar estudando os hábitos dos escribas,
como eles escreveram os manuscritos. Na verdade, já comecei a escrever
um livro sobre isso. Será a continuação do meu trabalho.
Veja Com tantos assuntos para estudar, como fica a vida pessoal
de um pesquisador como o senhor?
Tov
Realmente é um bocado de trabalho, que consome de onze a doze horas
de meu tempo todos os dias. Mas mesmo assim eu consigo desenvolver outras
atividades. Gosto muito de fotografar. Também sou um colecionador
de selos. Aliás, acabei de acrescentar dois selos do Brasil à
minha coleção, que chegaram em uma correspondência
que recebi de seu país. Também encontro tempo para jogar
tênis de mesa.
Veja O senhor nasceu na Holanda e com apenas 20 anos decidiu
mudar-se para Israel. Por que escolheu esse país?
Tov
Naquela
época eu tinha certos ideais, que ainda guardo hoje. Eu queria
ir para Israel e viver em um Estado judeu. Na II Guerra Mundial, milhões
de judeus foram mortos pelos alemães, incluindo boa parte da minha
família e até mesmo meus pais. Um tio e uma tia passaram
a cuidar de mim depois da guerra, quando se deram conta de que meus pais
nunca mais voltariam para casa. Fui viver com eles, seus filhos e meus
irmãos. Apesar de tudo, tive uma juventude feliz. Foi na Holanda
que tive o primeiro contato com os Manuscritos do Mar Morto. Lembro-me
de que tinha 14 anos quando li um livrinho de quinze páginas sobre
os manuscritos, que haviam sido descobertos poucos anos antes. E aí
começou meu interesse por esse assunto.
Veja Seus filhos estão na casa dos 30 anos, ou seja,
passaram praticamente a vida toda acompanhando seu trabalho com os Manuscritos
do Mar Morto. Eles não o seguiram na profissão?
Tov
Não, não. Eu tenho três filhos, um com 32 anos, outro
com 30 e um com 27 anos, mas todos têm profissões diferentes.
Um é artista, outro é programador de computadores e outro
é psicólogo.
Veja Qual é sua passagem favorita nos Manuscritos
do Mar Morto?
Tov
Meus preferidos são os manuscritos do Livro de Jeremias e de Samuel.
Os trechos mais bonitos provavelmente são as escrituras levíticas
(conjunto de regras de ética e comportamento). Mas é muito
difícil dizer o que é mais extraordinário nos manuscritos.
Para mim, a coisa mais fascinante é conhecer as diferenças
entre as várias cópias de textos bíblicos. Já
outros pesquisadores se apaixonaram pelo estudo da literatura dos antigos
essênios e pelos manuscritos que contêm as regras seguidas
por esse grupo religioso.
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