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Edição 1 747 - 17 de abril de 2002
Entrevista: Emanuel Tov

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Espião do passado

O maior especialista nos Manuscritos
do Mar Morto conta
que eles foram
quase totalmente decifrados, mas
deixaram mistérios que continuam
desafiando os estudiosos

Adriana Carvalho

 
Arquivo pessoal
"O sensacionalismo foi enorme em torno dos manuscritos. Alguns jornais americanos estamparam até que Elvis Presley era citado nas escrituras"

O pesquisador holandês Emanuel Tov dedicou mais da metade da vida ao estudo do que é considerado a maior descoberta arqueológica de todos os tempos: os Manuscritos do Mar Morto. Aos 60 anos, ele agora comemora a conclusão do trabalho de edição dos manuscritos, que iluminaram os conhecimentos da humanidade sobre o judaísmo e o início do cristianismo. A obra completa foi publicada em 52 volumes, a maior parte pela inglesa Oxford University Press, sob o título de Descobertas no Deserto da Judéia. Outro volume, o derradeiro, já está pronto e deverá vir a público nos próximos meses. Os documentos foram escritos há mais de 2.000 anos sobre papiros e peles de carneiro, provavelmente pelos essênios, um grupo de religiosos judeus. Permaneceram por séculos escondidos nas cavernas da região de Qumran, próxima ao Mar Morto, até ser descobertos em 1947. Desde então, passaram-se mais algumas décadas até que seu conteúdo fosse traduzido e revelado ao mundo. A expectativa foi imensa. Cristãos e judeus queriam saber se havia neles algo que pudesse mudar a imagem que seus fiéis tinham dessas religiões. Esperavam encontrar também referências a Jesus Cristo e saber sua ligação com o judaísmo. Tov diz que não há menções a Jesus nos manuscritos, mas afirma que eles ajudaram em muito a conhecer melhor o modo de vida das pessoas naquela época e a compreender as mudanças pelas quais a Bíblia passou. E deixa claro que, apesar de todo o estudo feito até agora, ainda há muitos mistérios sobre o assunto aguardando uma solução. Tov falou a VEJA por telefone, de seu escritório, em Jerusalém.

Veja – Ao anunciar a conclusão da edição dos Manuscritos do Mar Morto, o senhor disse que isso estava acontecendo depois de 54 anos de excitação, expectativa, muita crítica e poucos elogios. Quais foram essas críticas?
Tov – As principais críticas ocorreram principalmente há dez, vinte anos, antes de eu assumir o cargo de editor-chefe da publicação dos manuscritos, em 1991. Desde que eles foram descobertos e começaram a ser estudados, o mundo acadêmico protestou contra o número restrito de pesquisadores que tinham acesso aos textos. Além de críticas, isso gerou uma série de especulações e boatos.

Veja – Que especulações eram essas?
Tov – Havia grande expectativa de que os manuscritos trouxessem revelações sobre a vida de Jesus Cristo e sua relação com o judaísmo. Mas isso não ocorreu. Não encontramos nada sobre Jesus ou João Batista nos manuscritos. Muitas pessoas, entretanto, se recusaram a aceitar esse fato e começaram a dizer que havia, sim, manuscritos com referências a Jesus, mas que eles teriam sido escondidos ou queimados pelo Vaticano. Afirmavam que o Vaticano não teria gostado desse suposto texto sobre a vida de Jesus, que poderia comprometer a fé dos cristãos. É evidente que ninguém pode provar se esses boatos são verdadeiros ou não. Nós acreditamos que sejam falsos, nos parece um absurdo acreditar nisso. Mas essas "versões" saíram em alguns jornais. Os jornalistas gostavam de falar sobre isso.

Veja – Houve sensacionalismo em torno dos manuscritos?
Tov – Alguns tablóides americanos estamparam manchetes absurdas. Diziam até que Elvis Presley era citado nos Manuscritos do Mar Morto.

Veja – O senhor diz que Jesus Cristo não aparece nos manuscritos, mas há um capítulo que descreve a vinda do "filho de Deus" para a Terra. Não seria ele Jesus?
Tov – De fato, há um texto que chamamos de "O texto do filho de Deus". Mas não há consenso entre nós, pesquisadores, sobre quem era esse "filho de Deus". Alguns estudiosos dizem que é uma entidade divina, outros afirmam que é um simples ser humano, alguns o associam a uma pessoa angelical e há até quem diga que era um ser demoníaco. É difícil explicar esse texto, mas definitivamente ele é importante e contém expressões similares às do Novo Testamento. Algumas pessoas podem dizer que esse "filho de Deus" é Jesus Cristo, mas a maioria dos pesquisadores não concorda com isso. Não há nada que prove essa associação. "Filho de Deus" é um título muito genérico, também encontrado na bíblia dos hebreus, no Livro de Daniel. Não é necessariamente Jesus.

Veja – Quais as principais contribuições dos Manuscritos do Mar Morto?
Tov – Bom, nós temos um conhecimento agora muito melhor das raízes do judaísmo e do início do cristianismo. Sabemos hoje mais sobre os diferentes grupos judeus daqueles tempos. Entre eles, os essênios, cujos sábios foram provavelmente os autores dos manuscritos. Há neles descrições das relações desses grupos, que freqüentemente brigavam entre si. Os manuscritos foram escritos no período que vai do ano 250 antes de Cristo a 65 depois de Cristo, ou seja, compreendem exatamente a época do início do cristianismo. Há diversos textos bíblicos que, comparados à Bíblia que conhecemos hoje, nos mostram que ela passou por vários estágios de mutação.

Veja – Mutações de que tipo?
Tov – Nas cavernas de Qumran e em outros lugares de Israel, nós encontramos centenas de manuscritos, todos da Bíblia hebraica, o Velho Testamento. Comparando com as traduções que conhecemos hoje da Bíblia, notamos que há passagens que eram mais curtas, outras mais compridas ou com textos diferentes dos que conhecemos hoje. O Livro de Jeremias nos manuscritos aparece em uma versão talvez 15% mais curta. Isso significa que, nas cópias feitas por gerações após gerações, freqüentemente os escribas mudavam os textos, acrescentando alguns detalhes, suprimindo outros. Eles consideravam-se também autores e permitiam-se fazer alterações. Isso ocorreu com os textos de Homero, as tragédias gregas, não apenas com a Bíblia.

Veja – Há quem diga que os Manuscritos do Mar Morto podem melhorar as relações atuais entre cristãos e judeus. O senhor acha que isso é possível?
Tov – Nosso grupo de pesquisadores inclui judeus, católicos, protestantes. Nós trabalhamos em um espírito ecumênico, o que eu considero um sinal de cooperação entre as religiões. Mas não acredito que o conteúdo dos manuscritos, por si só, possa melhorar as relações entre esses grupos religiosos nos dias de hoje. Os documentos têm importância para os estudiosos, para a compreensão e o conhecimento das religiões antigas e não devem, necessariamente, ser um elo de aproximação entre cristãos e judeus.

Veja – Quais foram as maiores dificuldades do trabalho?
Tov – O trabalho realmente não foi fácil, a começar pelos meus colegas. Eu tinha de convencê-los a terminar suas tarefas. Alguns deles já vinham trabalhando havia dez ou vinte anos no assunto e eu tentava convencê-los de que era necessário finalizar seus relatórios. Isso se tornou a maior dificuldade no decorrer do trabalho. Logo que eu fui designado para assumir o comando da edição, também houve problemas no relacionamento com outros estudiosos. Tivemos de informar-lhes que eles deveriam reduzir sua participação na pesquisa, simplesmente porque eles estavam incumbidos de grande parte dela. Isso não foi fácil. Ficaram algumas divergências ainda fortes entre nós. Até pessoais. O volume de trabalho era assombroso. Os pesquisadores vieram da América do Norte, de países europeus e também havia estudiosos de Israel. Alguns eram especialistas em textos de sabedoria antiga, outros experts em textos bíblicos. Havia especialistas em várias áreas, na maioria professores universitários.

Veja – Os especialistas trabalhavam diretamente com os manuscritos originais? Quanto custou todo o trabalho?
Tov – Não. As escrituras foram fotografadas em 1950, e nosso trabalho foi feito com base nessas fotos, que permitiam uma visualização melhor dos textos originais. É muito difícil estimar quanto dinheiro os estudos consumiram, mas podemos afirmar que foram gastos milhões de dólares.

Veja – O senhor vive em Israel, que é um país marcado pelo conflito com os palestinos. Como isso afeta o trabalho?
Tov – Isso não torna o trabalho mais fácil, evidentemente, mas nós conseguimos fazer o que precisamos. Os conflitos podem alterar nosso humor, mas não nosso estudo. Temos de ser mais cuidadosos, não podemos andar livremente com segurança pelas ruas. Mas eu sou otimista. Acredito que mais cedo ou mais tarde os conflitos terão fim.

Veja – O senhor e sua equipe dedicaram um dos versos de Ação de Graças dos Manuscritos do Mar Morto à cidade de Nova York, depois dos ataques terroristas de 11 de setembro. O que esses versos dizem?
Tov – Esses antigos versos dizem que o mundo tem problemas, mas trazem uma mensagem de otimismo porque prevêem que o futuro será brilhante. Por isso nós os consideramos particularmente apropriados para ser dedicados a Nova York e seu povo. Todos nós ficamos chocados com os ataques terroristas e a princípio não sabíamos como reagir. Até agora os ataques continuam sendo algo incompreensível para seres humanos normais. Eles mudaram não só os Estados Unidos, mas todo o mundo.

Veja – O senhor passou metade de sua vida estudando os Manuscritos do Mar Morto e, no momento, a publicação está praticamente concluída. O que pretende fazer agora que o trabalho acabou?
Tov – O trabalho não acabou. Há ainda milhares de questões em aberto. Uma delas é: por que os manuscritos estavam nas cavernas de Qumran? Acreditamos que estavam lá porque alguém queria escondê-los, mas também há quem pense que as cavernas eram templos secretos. Outra questão intrigante é sobre as pessoas que escreveram esses manuscritos. Nós acreditamos que foram os essênios, mas há pesquisadores que discordam dessa teoria. Também sabemos pouco sobre os líderes dos grupos religiosos citados nos manuscritos, que aparecem identificados nos textos apenas por apelidos. Há muitos mistérios que precisam ser resolvidos, principalmente porque os manuscritos encontrados são fragmentos. É como se você pegasse um grande livro, arrancasse e jogasse fora a maior parte dele e ficasse apenas com umas dez páginas. É preciso tentar deduzir o que estava escrito nas páginas que estão faltando e traçar uma relação com as que sobraram. Eu vou continuar estudando os hábitos dos escribas, como eles escreveram os manuscritos. Na verdade, já comecei a escrever um livro sobre isso. Será a continuação do meu trabalho.

Veja – Com tantos assuntos para estudar, como fica a vida pessoal de um pesquisador como o senhor?
Tov – Realmente é um bocado de trabalho, que consome de onze a doze horas de meu tempo todos os dias. Mas mesmo assim eu consigo desenvolver outras atividades. Gosto muito de fotografar. Também sou um colecionador de selos. Aliás, acabei de acrescentar dois selos do Brasil à minha coleção, que chegaram em uma correspondência que recebi de seu país. Também encontro tempo para jogar tênis de mesa.

Veja – O senhor nasceu na Holanda e com apenas 20 anos decidiu mudar-se para Israel. Por que escolheu esse país?
Tov – Naquela época eu tinha certos ideais, que ainda guardo hoje. Eu queria ir para Israel e viver em um Estado judeu. Na II Guerra Mundial, milhões de judeus foram mortos pelos alemães, incluindo boa parte da minha família e até mesmo meus pais. Um tio e uma tia passaram a cuidar de mim depois da guerra, quando se deram conta de que meus pais nunca mais voltariam para casa. Fui viver com eles, seus filhos e meus irmãos. Apesar de tudo, tive uma juventude feliz. Foi na Holanda que tive o primeiro contato com os Manuscritos do Mar Morto. Lembro-me de que tinha 14 anos quando li um livrinho de quinze páginas sobre os manuscritos, que haviam sido descobertos poucos anos antes. E aí começou meu interesse por esse assunto.

Veja – Seus filhos estão na casa dos 30 anos, ou seja, passaram praticamente a vida toda acompanhando seu trabalho com os Manuscritos do Mar Morto. Eles não o seguiram na profissão?
Tov – Não, não. Eu tenho três filhos, um com 32 anos, outro com 30 e um com 27 anos, mas todos têm profissões diferentes. Um é artista, outro é programador de computadores e outro é psicólogo.

Veja – Qual é sua passagem favorita nos Manuscritos do Mar Morto?
Tov – Meus preferidos são os manuscritos do Livro de Jeremias e de Samuel. Os trechos mais bonitos provavelmente são as escrituras levíticas (conjunto de regras de ética e comportamento). Mas é muito difícil dizer o que é mais extraordinário nos manuscritos. Para mim, a coisa mais fascinante é conhecer as diferenças entre as várias cópias de textos bíblicos. Já outros pesquisadores se apaixonaram pelo estudo da literatura dos antigos essênios e pelos manuscritos que contêm as regras seguidas por esse grupo religioso.

 
 
   
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