Tchan d'além-mar

A axé music faz percurso inverso ao de
Cabral e emplaca nas paradas de Portugal

Celso Masson

É axé, pá! Depois de infestar as rádios brasileiras, a música baiana de trio elétrico — aquela que alterna os refrões "aê, aê, aê" e "iô, iô, iô" — cruzou o Atlântico na direção contrária à das naves de Cabral e aportou na terrinha. Na proa da invasão do axé em Portugal está a cantora Daniela Mercury. Lançado no ano passado no país de Fernando Pessoa, o álbum Feijão com Arroz, de 1996, é simplesmente o CD mais vendido em Portugal em todos os tempos, atingindo a inédita marca das 250.000 cópias. No mesmo ranking, preparado pela Associação Fonográfica Portuguesa, estão mais dois discos do gênero, um de Netinho, outro do cantor Iran Costa, um maranhense que cruzou o oceano há seis anos e se dedica a regravar sucessos daqui na pátria de Cabral. Artistas como Chico Buarque e Fafá de Belém — que desenvolve uma sólida carreira em terras portuguesas — desde há muito têm fãs por lá, mas o público da chamada MPB é restrito, irrelevante em termos de mercado. Agora, pela primeira vez, a música brasileira virou um fenômeno de massa naquele país.

Para entender o que acontece, é necessário saber como funciona o mercado de música jovem. A maior parte do consumo de CDs se dá na faixa etária entre 15 e 30 anos. No mundo todo, esse mercado é ocupado primordialmente por artistas dos Estados Unidos e da Inglaterra. Por causa disso, em quase todos os países ouve-se mais música anglo-americana do que produções locais. O Brasil é uma exceção. É um dos poucos países do mundo que têm música jovem consistente. Por causa disso, ocorre aqui o raríssimo fenômeno de predominância do CD nacional sobre o importado — 65% contra 35% dos discos vendidos. Essa produção caudalosa mais cedo ou mais tarde teria de desaguar em Portugal, onde não existe a barreira da língua e começam a desaparecer os obstáculos culturais que dificultavam a entrada desse tipo de música. "É maravilhoso ver a carreira florescendo assim no estrangeiro", comemora Daniela Mercury, que no próximo mês fará sua terceira temporada em Lisboa.

Fafá entre fãs
lusitanos: carreira
sólida na terrinha

Planeta dos pimpolhos — Portugal está cada vez mais receptivo ao axé porque, nos últimos anos, se multiplicaram por lá os canais de divulgação de música jovem. "Houve uma explosão do número de emissoras de FM voltadas para esse público", avalia Antonio Pires, chefe de redação do semanário Blitz, a publicação especializada mais influente no país. O mercado de shows também sofreu um incremento com a Expo-98. "O público que compareceu aos espetáculos promovidos durante o evento era nitidamente mais interessado no som jovem internacional do que no português", diz Cecília MacDowell, da gravadora Sony no Brasil. Por último, hábitos recém-adquiridos pelos portugueses ajudaram a ampliar o mercado de música brasileira. É o caso da ginástica aeróbica, grande responsável pela popularização do cantor Netinho. Seus trinados são a trilha sonora mais constante na malhação lisboeta.

O crescimento do axé em Portugal enfrenta, claro, certa resistência. "Uma invasão em massa dos brasileiros no mercado fechará as portas para os portugueses cuja carreira não estiver consagrada", acha o cantor Pedro Abrunhosa, o principal artista pop lusitano. A qualidade da axé music também vem sendo questionada pelos críticos, mais ou menos como ocorre no Brasil em relação ao som enlatado. A verdade é que música jovem para consumo de massa é ruim em qualquer lugar do mundo, e É o Tchan e Cheiro de Amor não são melhores nem piores do que Celine Dion ou Mariah Carey. Alheio a essa discussão, Iran Costa, o brasileiro que regravou sucessos como É o Bicho e Ah, Eu Tô Maluco em Portugal, vem enchendo os bolsos. Ele faz uma média de 100 shows por ano e, em suas apresentações, coloca no palco duas bailarinas com figurino e requebro análogos aos das Sheilas. Iran também é popular com o público infantil — tanto que lançou um CD chamado O Planeta dos Pimpolhos. "Com o meu sucesso, há vários artistas portugueses querendo fazer algo parecido", vangloria-se. Será mesmo? É difícil imaginar uma dupla de lusitanas rebolando lascivamente, enquanto um gajo de bigodes entoa Segura o vira/ Amarra o vira...




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line