Irã

Cada vez melhor

Khatami vê o papa e se firma
como o Gorbachev de turbante

Quem hoje anda pelas ruas de Teerã vê cenas inimagináveis até poucos anos atrás: casais de namorados de mãos dadas, antenas parabólicas e gente de gravata. Se tanta coisa banida pela revolução islâmica em 1979 voltou ao cotidiano da capital iraniana, é porque o presidente Mohammed Khatami vem bancando uma queda-de-braço, lenta e gradual, contra os aiatolás de linha dura. Há dois anos, Khatami, um clérigo apenas moderado, catalisou a insatisfação dos iranianos com o fanatismo do regime e se elegeu presidente, com 70% dos votos. A preferência popular por uma sociedade mais arejada foi confirmada três semanas atrás, com a vitória esmagadora dos candidatos moderados na disputa pelas Câmaras Municipais. Na semana passada, o presidente deu um novo passo em direção à luz, tornando-se a mais alta autoridade iraniana a visitar a Europa desde a queda do xá Reza Pahlevi.

A viagem à Itália foi muito mais que um simples gesto diplomático. Significou a reabertura do diálogo com o Ocidente, encerrado, havia vinte anos, com uma declaração de guerra santa. Uma das bases ideológicas do fundamentalismo muçulmano era varrer do Oriente Médio qualquer resquício de influência dos "cruzados" e "adoradores da cruz", termos usados para os ocidentais cristãos. A importância do encontro de Khatami com o papa João Paulo II, na quinta-feira, e de sua proposta de um "diálogo entre civilizações" deve ser entendida contra esse pano de fundo. Representa uma guinada fenomenal, comparável à dada por Mikhail Gorbachev quando começou a sacudir as bases dogmáticas e esclerosadas do comunismo. Mais do que Gorbachev, o presidente iraniano precisa se mover com cautela redobrada. Ele não tem cacife institucional para escancarar o regime. Apesar do peso político conquistado com o apoio da opinião pública, as Forças Armadas, a polícia e as leis estão nas mãos do aiatolá conservador Ali Khamenei, líder espiritual da república islâmica.

A política externa está igualmente nas mãos do clero inimigo das reformas. É por isso que o passo em direção ao diálogo internacional tem significado notável. A popularidade de Khatami deve-se à promessa de instaurar o estado de direito no Irã, uma nação onde os dogmas do clero xiita dão as cartas. Respira-se melhor no país. A imprensa já pode discutir mais livremente certos assuntos, e mesmo as antenas parabólicas — porta de entrada da influência estrangeira — são toleradas. Nada garante, por enquanto, o sucesso. A linha dura islâmica anda cada dia mais agressiva. Milícias espancam até líderes religiosos se estes discordam de seu sermão. O maior esforço de Khatami tem sido convencer o alto clero de que a sobrevivência do regime depende de ampliar a abertura, tanto interna quanto externa. Foi com esse argumento que conseguiu que o serviço secreto, controlado pela linha dura, responsabilizasse os próprios arapongas por uma série recente de assassinatos de intelectuais liberais. Tudo ainda pode dar errado, mas o Irã nunca esteve tão perto de se tornar um país decente.




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