Energia

Um caos mal explicado

Governo leva vinte horas para justificar o maior
blecaute da história e põe a culpa em um raio

Sandra Brasil e Vladimir Netto

Foto: Ormuzd Alves/Folha Imagem
O centro de São Paulo apagado: quatro horas de
transtorno na maior cidade do país

Desde que se acendeu a primeira lâmpada no país, em 1879, nunca houve um blecaute tão abrangente quanto o da quinta-feira passada. Antes dele, o maior ocorreu em 1985, afetou nove Estados e foi superado em três horas. Desta vez, o eclipse atingiu dez Estados e o Distrito Federal, e a situação só foi inteiramente contornada mais de quatro horas depois — quando São Paulo, o último Estado a ter energia de volta, pôde enfim reacender as luzes. Estima-se que cerca de 60 milhões de moradores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste ficaram sem eletricidade, uma multidão de gente no escuro como nunca se viu. Na Argentina, que acaba de sair de um apagão de onze dias, pouco mais de 100.000 pessoas foram afetadas. No grande blecaute de 1965, ocorrido nos Estados Unidos e Canadá, a luz só voltou treze horas depois, mas afetou 30 milhões de pessoas. Além de bater esses recordes, o blecaute da semana passada só teve explicação vinte horas depois, no fim da tarde de sexta-feira. Segundo o Ministério das Minas e Energia, a causa foi um raio que atingiu a subestação de Bauru, no interior de São Paulo.

"Foi um fato excepcional. Não há razão para duvidar da confiabilidade do sistema elétrico brasileiro", disse o ministro Rodolpho Tourinho, das Minas e Energia. Na sexta-feira, os técnicos se empenharam para explicar por que se demorou tanto a descobrir uma ocorrência tão barulhenta — como um raio que, de tão poderoso, tirou do ar a subestação e ainda danificou todo o seu sistema de pára-raios. "É que na quinta-feira caíram 13.500 raios na região. Um deles atingiu a subestação. Mas até descobrir que a subestação saiu do ar por causa do raio era preciso ler os relatórios e todos os registros", observa Mário Santos, presidente da ONS, a empresa que, há apenas duas semanas, é responsável por controlar a teia de aranha formada pelas linhas que levam energia aos diversos pontos do país. Se, realmente, o raio foi a razão do blecaute, haverá aí um novo recorde: é a primeira vez, desde que o país criou o sistema interligado de energia, há 25 anos, que um raio provoca um blecaute.

Falta de segurança — Depois de um dia inteiro de acusações, em que uma usina atribuía a culpa à outra, chegou a notícia do raio. De acordo com o ministério, a subestação de Bauru capta e distribui energia para São Paulo e parte do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Como suas linhas saíram do ar, outra linha de transmissão, que sai de Itaipu e chega a Ibiúna, no interior de São Paulo, também caiu. Daí em diante, sobrecarregadas, diversas linhas de transmissão se desligaram automaticamente — um mecanismo de proteção, semelhante aos fusíveis das casas, destinado a evitar que a instalação se danifique. Às 22h16, hora em que o blecaute começou, os moradores das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste tinham uma oferta de 35.700 megawatts — e, de repente, desabou para apenas 13.000 megawatts. O acidente levou o caos às grandes cidades, paralisando o trânsito e facilitando a ação de assaltantes e arrombadores.

Não existe sistema energético 100% seguro e, na década passada, houve um caso semelhante na Áustria, quando um raio provocou um blecaute. O problema, descobriu-se depois, foi que os sistemas de controle das usinas austríacas haviam sido modernizados. Eram eletromecânicos e passaram a ser eletrônicos. O sistema é mais moderno e eficaz, mas muito mais sensível às oscilações de corrente elétrica, como as provocadas por um raio, e portanto requer que toda a fiação seja blindada. Na subestação de Bauru, fez-se a mesma modernização, que aliás está ocorrendo em boa parte das usinas do país. Acontece que em Bauru se fez também a blindagem dos fios — o que torna mais misterioso o acidente da semana passada. Na Áustria, a blindagem dos fios mostrou-se suficiente para enfrentar os raios. Aqui, ainda é preciso investigar o que na verdade ocorreu, pois, aparentemente, o sistema de proteção de Bauru não segurou o rojão. "O fato é que também não existe blindagem 100% segura", diz o secretário de Energia do Estado de São Paulo, Mauro Arce, sob cuja responsabilidade está a subestação do blecaute.

Se a hipótese de que o raio provocou o blecaute se provar correta ao cabo de todas as investigações, será um alívio. Uma tempestade elétrica é um evento fortuito. Não há motivo para ficar imaginando que novos raios vão danificar as subestações no futuro. O pior cenário seria a repetição das causas do blecaute de 1985. Ele foi provocado por um defeito congênito no sistema energético. Nos anos 80, o maior problema estava nas linhas de transmissão de energia, que não passavam de 40.000 quilômetros. A rede era tão pequena que, em alguns casos, uma usina produzia mais energia do que as linhas eram capazes de transmitir. Havia constantes congestionamentos e risco crônico de blecaute. Hoje, o país tem 140.000 quilômetros de linhas de transmissão. É um bom quadro, que não traz risco imediato de colapso.

Onde eles estavam

Para quem estava num restaurante, até que não foi tão mau. Todo mundo gosta de jantar à luz de velas. Mas o corte de energia que surpreendeu o país atrapalhou reuniões, atrasou vôos e estabeleceu o caos no trânsito das grandes cidades. Pior para quem chegava em casa e teve de subir vários andares de escada. Ao lado, algumas histórias de gente que, se importando ou não, foi obrigada a passar horas no escuro.

O governador de São Paulo, Mário Covas, estava na residência oficial com a família. Diferentemente da maioria das pessoas, ele viu o noticiário sobre o apagão pela TV porque o prédio tem gerador de energia.
Morando em Porto Alegre, a atriz Cristiana Oliveira só pensava na filha, Rafaella, que estava sozinha em casa. "Com esse barrigão de sete meses de gravidez, ainda tive de subir a pé até o 7º andar."
"Engraçado é que eu estava com os diretores das Centrais Elétricas de Santa Catarina, em Florianópolis. Ainda brinquei: 'Pra isso, só a privatização'. Usamos uma lanterna", disse o governador Esperidião Amin.
O presidente da Fiesp, Horácio Lafer Piva, chegava a São Paulo de viagem. "Vi aquela confusão e ouvi no rádio a notícia do blecaute. Desmarquei uma reunião importante que tinha na Fiesp e fui direto para casa."
O nadador Fernando Scherer, o Xuxa, tinha saído de um restaurante e ia para uma boate, no Rio. "Quando a luz voltou, ficamos só mais um pouquinho e todo mundo foi embora louco da vida", conta.
A apresentadora Ana Maria Braga jantava em sua casa em São Paulo com o marido e a mãe de Xuxa, dona Alda Meneghel. "Ela ficou até tarde lá em casa porque o trânsito estava completamente maluco."
O padre Marcelo Rossi acabara de rezar uma missa, em São Paulo. Ele estava gravando um programa para a Rádio América no estúdio do Santuário do Terço Bizantino, onde costuma celebrar suas missas.
"Dei sorte. Quando a luz acabou, os garçons acenderam velas maravilhosas e o jantar ficou charmosíssimo", disse a modelo Adriane Galisteu, que estava com amigos no restaurante Antiquarius, no Rio.
"Depois de uma reunião com deputados, acabei voltando para a residência oficial, em Vitória, com uma vela na mão", diz José Ignacio, governador do Espírito Santo.
Luís Inácio Lula da Silva comia pizza com assessores no Mário, tradicional casa do Ipiranga, em São Paulo. O assunto era manter a oposição a FHC, mas Lula também se empolgou na hora de pedir mais manjericão na margherita.
Claude Troisgros, chef de cozinha, estava num coquetel da BMW, no Rio. "Os faróis dos carros foram acesos para iluminar o ambiente. O resultado ficou excepcional: um luxo."
A socialite Vera Loyola estava em casa no Rio com sua cachorrinha "Pepezinha". "Eu tentava escrever minha coluna para o Jornal do Brasil. Fora a luz, também apagou a minha inspiração."
"Esperava a chegada de minha mulher para jantarmos todos juntos. Ela demorou, eu fiquei preocupado, mas depois resolvi ir para a cama. E o pior: não jantei", conta o compositor Gilberto Gil, morador do Rio.
O empresário Benjamin Steinbruch, dono da Vale do Rio Doce, demorou horas para sair do aeroporto e chegar em sua casa em São Paulo. "Só percebi que a cidade estava às escuras quando desembarquei."
Rachel de Queiroz, escritora que mora no Rio: "Tive de ficar dentro do carro em frente do meu prédio durante horas. A garagem só funciona com eletricidade. Fiquei morrendo de medo de ser assaltada".
O prefeito do Rio, Luiz Paulo Conde, estava em casa vendo TV. "Na mesma hora telefonei e mandei a guarda municipal reforçar o policiamento das ruas da cidade."
A atriz Juliana Silveira também disse que sentiu medo. "Meu avião ficou voando em círculos sobre São Paulo. Olhava pela janela e via só as luzes dos carros."
Marcelinho Carioca, jogador de futebol que vive em São Paulo: "Tinha acabado de chegar de um culto religioso com minha família. Enchemos a casa de velas e ficamos numa boa".
A atriz Bruna Lombardi e o marido não queriam ir embora de um restaurante asiático, em São Paulo. "As pessoas ficaram super à vontade naquela atmosfera difusa e romântica criada pela falta de luz."
O ex-jogador Pelé estava com a mulher, os filhos pequenos e a babá em seu apartamento em São Paulo. Ficaram conversando e nem ligaram para o corte de energia.
Em sua casa no Rio, na companhia do namorado, Floriano Peixoto, a atriz Vera Fischer assistia ao vídeo Loucos de Amor, estrelado por Sean Penn. "Fiquei superchateada, estava adorando o filme."
Quando o ator Marco Nanini se deu conta do apagão, pensou no pior. No camarim do teatro, no Rio, preveniu-se: "Entrei logo num chuveiro frio. Se fosse incêndio, já estaria molhado".




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