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fé de sua mulher quase
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| UM MUNDO SEM GÊNESIS Bettany, como Darwin, com Jennifer, como sua mulher: a polêmica começou em casa |
A lealdade conjugal é uma qualidade admirável,
além de algo rara. Mas em um caso, ao menos, ela quase pôs a perder
aquela que se tornaria a ideia mais influente do pensamento científico
nos dois últimos séculos: a teoria da evolução formulada
por Charles Darwin. Casado com sua prima-irmã Emma - nada de estranho
ou escandaloso nisso na primeira metade do século XIX -, o naturalista
protelou durante anos a publicação de seu tratado revolucionário, A Origem das Espécies, e quase perdeu de vez a saúde já
habitualmente instável com a aflição provocada pelo dilema
de editá-lo ou não. A causa primordial dessa angústia era
a religiosidade de sua mulher, e a maneira como, em um período particularmente
difícil na vida do casal, ela fez aflorar ainda mais dúvidas sobre
a fé cristã em que ele fora educado, e da qual abdicara. A história
é familiar aos que conhecem em detalhe a trajetória de Darwin.
Mas, no contexto de suas conquistas científicas, não passa de
uma nota de rodapé. Colocá-la no centro da polêmica formidável
que A Origem das Espécies provocaria, e mostrar como, na verdade,
esse conflito doméstico em tudo antecipou essa polêmica, é
o feito de Criação (Creation, Inglaterra,
2009), que estreia no país na próxima sexta-feira.
Se o relacionamento encenado no filme por Paul Bettany e Jennifer Connelly (casados também na vida civil) parece bem mais moderno e igualitário do que se imagina do padrão vitoriano, não é porque o diretor inglês Jon Amiel tenha tomado liberdades com os fatos. Desde muito antes de seu casamento, em 1839, Emma e Charles tratavam com franqueza das divergências que poderiam dividi-los. Pianista talentosa, que chegou a ter carreira como concertista, ela era uma entusiasta das ambições do marido e muito colaborou para que se concretizasse sua longa viagem a bordo do navio Beagle, durante a qual ele estabeleceu as bases de sua teoria. Mas Emma tinha também convicções religiosas profundas e, tanto quanto se possa aplicar aí o termo, racionais, já que eram fruto de estudo e questionamento. A correspondência dos dois nos anos anteriores ao casamento mostra que Darwin nunca escondeu dela sua migração rumo ao agnosticismo. E, durante a maior parte de sua vida conjugal, os dois negociaram, quase sem atrito, suas diferenças.
Na década de 1850, porém, uma constelação de fatores abalou essa détente. Em 1851, aos 10 anos, morreu Annie, a filha mais velha e querida de Darwin. O naturalista foi acometido de diversos males - em maior quantidade e gravidade do que fora comum até ali - e tornou-se quase um recluso (entre as muitas hipóteses sobre sua saúde frágil, inclui-se a de que suas doenças fossem psicossomáticas); Emma se refugiou na fé. Em meio a esse equilíbrio tão precário, Darwin escrevia, escrevia, e não chegava a lugar nenhum: sua teoria (que afinal seria publicada em 1859) de certa forma "assassinava Deus", como resumiu seu editor - e poderia também, portanto, assassinar de mil maneiras diferentes o que restava de harmonia na família, no casamento e no seu íntimo.
Criação faz um bom trabalho de reconstituir esse período na vida do cientista e do homem. São belíssimas, por exemplo, as várias cenas em que ele conta à filha como travou contato com uma macaquinha levada da Nova Guiné para a Inglaterra, e como ela morreu, solitária, no zoológico - elas elucidam algumas de suas iluminações científicas e, ao mesmo tempo, sugerem como a nova ordem que ele enxergara na natureza, embora totalmente distinta da ordem disseminada pela religião, era também ela repleta de um sentido de conexão e de deslumbramento. Menos bem-sucedida é a tentativa de recriar a tensão que assomava e se multiplicava à medida que A Origem das Espécies ia tomando forma: Jon Amiel é um diretor por demais amável e conciliador para cravar os dentes nesse aspecto de sua história e escapar, assim, aos elementos mais banais dos filmes de época. Mas Criação ao menos consegue trazer à baila um aspecto que muitos dos grandes pioneiros da ciência, do próprio Darwin a Robert Oppenheimer, que chefiou o projeto americano da bomba atômica, viveram na carne e nos nervos: a urgência de seguir adiante, e o tormento de consciência de não saber o que esse adiante guarda.
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