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• Exposição: Andy Warhol na Pinacoteca do EstadoEntrevista: Eric HolderÉ o nosso NurembergO secretário de Justiça americano
diz que levar os terroristas
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Mike
Mcgregor/Contourphotos.com/Getty Images |
"Até agora, o caso de Khalid Sheikh Mohammed segue encaminhado para julgamento civil. Mas é óbvio que as condições podem mudar" |
Na porta de madeira do gabinete do secretário
Eric Holder, há cinco pequenas marcas de tiro. Foram feitas com arma de
chumbinho pelos filhos de Bob Kennedy, secretário de Justiça americano
de 1961 a 1964. Holder, o primeiro negro a ocupar esse cargo, é um admirador
de Bob Kennedy e sabe o que são tiros na porta. Há quatro meses,
ele anunciou que Khalid Sheikh Mohammed, o gerente operacional dos atentados
de 11 de setembro que foi submetido 183 vezes à simulação
de afogamento ao ser interrogado pela CIA, seria julgado num tribunal civil em
Manhattan, perto de onde ficavam as torres gêmeas. Desde então, Holder
está sob justificado e intenso tiroteio da oposição, que
defende julgamento militar em Guantánamo. Holder desistiu de Manhattan.
Ele é da copa e cozinha do presidente Barack Obama. Foi aliado de primeira
hora, fez parte da campanha, e sua mulher, a obstetra Sharon Malone, é
amiga da primeira-dama. Mesmo assim, Holder irritou a Casa Branca com a decisão
sobre onde julgar Mohammed. Nesta entrevista, ele admite que pode até desistir
de levá-lo à Justiça civil, mas diz que os EUA estão
prontos para fazer o seu "julgamento de Nuremberg".
Quando
estava previsto que Khalid Sheikh Mohammed se sentaria no banco dos réus
num tribunal civil no coração de Manhattan, o senhor disse que esse
seria o "julgamento do século". Ainda será?
Creio
que sim. Em 11 de setembro de 2001, sofremos o pior ataque terrorista da nossa
história, com todas aquelas mortes. Diante disso, e examinando-se as acusações
contra o réu, o julgamento certamente vai atrair a atenção
mundial, e merece atraí-la.
Julgamentos assim são
uma aposta: podem servir como uma bela demonstração de justiça
ao mundo, mas também podem virar uma tribuna para proselitismo do criminoso.
Há risco de que isso aconteça?
No curso desse julgamento, Khalid
Sheikh Mohammed e seus compatriotas mostrarão o que são, ou seja,
assassinos. Não estamos falando de homens de substância, nem de grandes
personalidades. São homens pequenos. Quem teme que o julgamento se transforme
em algo imprevisto precisa ter isso em mente. Nosso país já lidou
com gente desse tipo no passado e, seguramente, vai lidar no futuro. Mas são
pessoas que atuam à margem da história.
O senhor
estudou com Telford Taylor, promotor americano em Nuremberg, onde os nazistas
foram julgados depois da II Guerra. Nuremberg serviu de inspiração
para definir os moldes do julgamento de Mohammed?
Os julgamentos de Nuremberg
foram vistos desde o começo como um procedimento justo, e são considerados
assim até hoje. Daqui a cinquenta anos, quando olharmos para o que estamos
fazendo hoje, espero que possamos dizer o mesmo. Espero que a leitura seja de
que agimos com justiça, de acordo com o que há de melhor no sistema
jurídico americano e com os nossos valores. Não é fácil
fazê-lo. Nuremberg aconteceu depois do fim da II Guerra. Nós estamos
no meio de uma guerra contra o terrorismo. Mas acredito que é no calor
da batalha que mostramos se realmente somos fiéis aos nossos valores.
O
senhor desistiu de fazer o julgamento dos terroristas em Manhattan. Há
possibilidade de que também desista de fazê-lo em um tribunal civil,
como o pressiona a oposição?
Examinamos os casos à luz
da realidade, que é dinâmica. Mas, pelo menos até agora, o
caso de Khalid Sheikh Mohammed segue encaminhado para julgamento civil. é
óbvio, porém, que as condições podem mudar. Temos
nossos parâmetros, nossa pedra de toque, e consideramos o respeito à
lei uma questão essencial e inegociável. Agora, dentro dessa moldura
básica, somos flexíveis. Além disso, há uma proposta
no Congresso para bloquear o financiamento para um julgamento civil.
Fora
uma determinação do Congresso, o que pode acontecer a ponto de mudar
sua decisão?
Há uma gama de questões, mas realmente não
posso discuti-las publicamente. Há suspeitos que hoje são réus
mas amanhã deixam de ser, porque resolvem cooperar com as investigações,
para citar um exemplo. São coisas que podem mudar nosso entendimento sobre
o que é mais apropriado.
Um julgamento militar não
seria visto como um fracasso do presidente Obama em se distanciar das práticas
do governo anterior, que incluíram prisão sem acusação
formal e tortura durante os interrogatórios?
O sistema das comissões
militares não é o mesmo de antes. Fizemos uma reformulação
completa. Hoje, eu me sentiria à vontade para remeter um réu a uma
comissão militar. Antes, tínhamos deficiências em relação
à forma como os advogados de defesa eram escolhidos, ao uso de informações
sem provas materiais, às técnicas usadas para extrair informação
dos interrogados. Tudo isso mudou no governo do presidente Obama. As comissões
militares, agora, estão em harmonia com o que há de melhor no sistema
jurídico americano. Sei que é fácil, hoje, olhar para trás
e criticar o que foi feito no governo anterior. Tenho consciência de que
eles tiveram de lidar com muitas coisas ao mesmo tempo depois do 11 de Setembro.
Merecem o benefício da dúvida. Mas não sou tão caridoso
com o ex-vice-presidente e sua crença persistente de que as tais técnicas
heterodoxas de interrogatório funcionam e estão em harmonia com
o que este país é. Isso é inteiramente condenável.
A opinião pública americana apoia o julgamento
dos terroristas em tribunais militares...
Não estou seguro de que a
opinião pública seja realmente contra o julgamento na Justiça
civil. Quando se pergunta se os suspeitos de terrorismo devem ser julgados em
cortes civis, as pessoas respondem que não. Quando são informadas
de que as cortes civis têm um extraordinário histórico de
sucesso no julgamento de terroristas, com uma taxa de condenação
de 100% e com os réus fornecendo informações de inteligência,
as pessoas mudam de opinião. Então, atribuo parte da oposição
captada pelas pesquisas ao desconhecimento do desempenho das cortes civis.
Em
que é errada a visão de que os terroristas são combatentes
estrangeiros em guerra contra os EUA e, por isso, não faz sentido julgá-los
como criminosos comuns com as garantias da Constituição americana?
Não existe essa dicotomia. Podemos tratar esses casos como atos criminosos
que violam nosso código penal, mas também podemos tratá-los
como atos de guerra. Porque são as duas coisas. Não vejo por que
teríamos de escolher qual é a descrição mais adequada,
se, de fato, ambas o são.
O presidente Obama prometeu
fechar a prisão na Baía de Guantánamo, em Cuba, em um ano.
O prazo acabou, a prisão continua lá e já há quem
diga que não fecha mais.
Não cumprimos o prazo, mas a prisão
de Guantánamo será fechada. Guantánamo não nos ajudou
na guerra contra a Al Qaeda. Primeiro, porque virou um símbolo que ajuda
no recrutamento do terror. Assim como os excessos cometidos na prisão de
Abu Ghraib, em Bagdá, ajudaram os terroristas a recrutar jovens impressionáveis
para suas fileiras, Guantánamo serviu ao mesmo propósito. Hoje,
não é mais o que foi nos seus dias iniciais, mas a imagem permanece,
e isso favorece o trabalho de recrutamento dos terroristas. O segundo problema
é que a existência de Guantámano complicou a relação
dos EUA com os aliados tradicionais. Já revisamos os 240 casos de presos
em Guantánamo, determinamos o que deve ser feito com cada um e, agora,
estamos trabalhando com o Congresso para fechar as instalações e
arranjar um lugar para abrigar os que seguirão presos. Há a possibilidade
de comprarmos uma prisão em Thompson, no Illinois.
O
senhor já esteve em Guantánamo?
Estive uma vez, logo depois
de tomar posse.
O senhor viu Khalid Mohammed?
Só
pela televisão.
Há suspeitas de que o governo
americano, apesar do discurso pela legalidade e direitos humanos, continua
mandando presos a países que torturam.
Não, não fazemos
isso. Não devolvemos um preso nem ao seu próprio país quando
há risco de que seja torturado. Nesse caso, temos de achar um país
alternativo. Por isso às vezes é tão difícil encontrar
um lugar. O Departamento de Estado tem feito buscas no mundo inteiro, literalmente
no mundo inteiro, tentando encontrar lugares adequados.
O cargo
de secretário de Justiça é especialmente espinhoso porque
equivale ao de ministro da Justiça e, ao mesmo tempo, ao de procurador-geral.
Até onde vai o poder político da Casa Branca e onde começa
seu zelo jurídico?
Esse é o desafio de todo secretário
de Justiça. Faço parte da equipe ministerial do presidente Obama,
mas, ainda assim, não posso ser político como outros membros do
ministério. Como sou o responsável pelo cumprimento das leis neste
país, preciso manter minha independência. O desafio é encontrar
o equilíbrio certo entre ser independente e ser parte do governo.
Os
críticos dizem que o senhor está menos independente e mais pró-governo,
e que os treze meses no cargo o deixaram mais sensível aos argumentos políticos.
Cabe aos outros avaliar se estou encontrando o equilíbrio correto entre
ser ministro e ser independente, mas acho que tenho hoje o mesmo nível
de sensibilidade política de antes. Tenho posições claras,
sigo acreditando fortemente no nosso sistema jurídico, e não mudei
em nada. Isso é o que me guia na hora do conflito com os outros. Temos
tido batalhas, mas são batalhas de ideais, sobre o rumo que os EUA devem
tomar, sobre nossa ordem jurídica. Fundamentalmente, creio que sou o mesmo
de treze meses atrás.
O trabalho é mais difícil
do que o senhor imaginava?
Ser o secretário de Justiça nunca
foi fácil, mas talvez agora seja um pouco mais difícil porque há
desafios simultâneos. Estamos envolvidos em esforços de guerra em
dois países e lidando com uma economia em recuperação depois
da maior crise desde os anos 30. A crise teve um enorme impacto no sistema de
financiamento imobiliário, com fraudes em hipotecas, o que cai na área
do Departamento de Justiça. A crise também chegou aos governos
estaduais, que estão com os cofres menos cheios, e isso afeta as demandas
das polícias locais. Por fim, as crises econômicas tendem a elevar
a taxa de criminalidade, o que repercute igualmente no Departamento de Justiça.
Existe
algum segredo para combater com eficiência a corrupção de
políticos e funcionários públicos?
Na minha carreira
no Departamento de Justiça, trabalhei doze anos na Integridade Pública. (Ele se refere à unidade criada em 1976 para investigar a corrupção
de ocupantes de cargo público, eleitos ou nomeados, nas três esferas
de governo. Em 2008, a unidade acusou 949 agentes públicos, dos quais 827
foram condenados). A unidade provou-se muito efetiva e hoje está presente
em várias subsedes do Departamento de Justiça pelo país.
As equipes da Integridade Pública sabem como investigar um caso de corrupção
oficial, sabem o que e como procurar para fazer uma investigação
capaz de resultar num processo judicial competente. Os crimes na esfera pública
são diferentes dos crimes comuns. São mais difíceis de detectar,
de investigar e de julgar. Por isso, uma unidade especializada, com equipe própria,
consegue um combate mais efetivo contraa corrupção oficial.
É
mais difícil pegar políticos corruptos do que terroristas?
Como?
É
mais difícil pegar políticos corruptos do que terroristas?
Como
assim?
No Brasil, talvez seja mais fácil pegar terroristas
do que políticos corruptos.
O quê?