Livros
Melhores inimigos
Em
seu novo livro, Miguel Sanches Neto se vale da ficção
para falar
da amizade com o recluso Dalton Trevisan
que terminou em bate-boca

Marcelo Marthe
Por sete anos, o escritor paranaense
Dalton Trevisan e seu conterrâneo Miguel Sanches Neto foram mestre e discípulo.
Na década de 90, Trevisan um dos maiores contistas brasileiros,
hoje com 84 anos acolheu o jovem vindo do interior em seu círculo
em Curitiba. Sanches, que é colaborador de VEJA e nos últimos anos
ganhou reconhecimento com romances como Chove sobre Minha Infância, devotava-se então ao estudo acadêmico da obra do mentor. Em 2001,
porém, a amizade desandou. Famoso por sua vida reclusa, Trevisan acusou
Sanches de revelar intimidades suas a um repórter e o rumor de que
o ex-discípulo preparava um livro sobre ele envenenou de vez a relação.
Em 2004, Sanches lançou uma carta aberta na qual esclarecia: estava mesmo
escrevendo a tal obra. Mas ela não seria uma biografia de Trevisan, e sim
uma ficção com personagens livremente inspirados nele e em outras
figuras da literatura paranaense. "É sobre a arte da maledicência,
praticada em menor ou maior grau por todos nós", anunciava. A reação
de Trevisan foi agressiva: em um poema intitulado Hiena Papuda, ele cobriu
Sanches de xingamentos ("araponga louca" é dos poucos publicáveis).
Agora, eis que se pode conhecer o pomo da discórdia. Em Chá
das Cinco com o Vampiro (Objetiva; 294 páginas; 39,90 reais), Sanches
oferece uma visão desencantada do meio literário. Geraldo Trentini
é o vampiro do título e, claro, também a versão
ficcional de Trevisan, autor de O Vampiro de Curitiba.
O
livro é um roman à clef, forma narrativa em que o autor trata
de pessoas reais por meio de personagens com nomes fictícios. Assim como
ocorreu com Sanches, o protagonista Beto muda-se na juventude da cidadezinha de
Peabiru para Curitiba em busca da vida literária. Na capital, frequenta
lugares como a extinta confeitaria Schaf-fer, na esperança de travar amizade
com o "escritor recluso". As semelhanças de Trentini com Trevisan
vão do gosto por chocolate ao fato de o personagem ser viúvo e pai
de duas filhas. Há outros tipos que espelham gente conhecida: o crítico
Wilson Martins, morto em janeiro, aparece como Valter Marcondes.
Ainda que de forma cifrada, o livro permite vislumbrar o íntimo sob a couraça
enigmática de Trevisan. Sua contraparte se esquiva de forma paranoica dos
jornalistas, mas não deixa de ser um pavão que devora críticas
elogiosas como quem saboreia "broinhas de fubá mimoso". O isolamento
não é de todo voluntário: seu temperamento realmente é
difícil. "Geraldo não cumprimenta ninguém; homem de
poucos amigos, brigou praticamente com todos os que conviveram com ele",
escreve Sanches. O mérito de Chá das Cinco com o Vampiro é não se reduzir a um apanhado de inconfidências. A decepção
com o ídolo leva o discípulo a libertar-se dele e essa afirmação
da individualidade, mostra Sanches, é o caminho para um autor encontrar
a si próprio. Ele diz ter vivido o mesmo em relação a Trevisan.
"Se eu continuasse a corresponder à imagem que ele fazia de mim, mataria
a possibilidade de ser escritor", diz. Se também Trevisan tirou do
episódio alguma lição, é fato ignorado: desde 2006,
quando chamou Sanches de "Judas que se vendeu por trinta lentilhas"
em seu poema, ele mantém o silêncio habitual e impenetrável.
Fotos Nani
Gois e Humberto Michalchuk
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