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• Exposição: Andy Warhol na Pinacoteca do EstadoMúsicaMahler, o profeta de si próprioCem anos atrás,
o compositor austríaco previu que sua música
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No
início do século passado, o compositor austríaco Gustav Mahler
(1860-1911) lançou uma profecia à soprano alemã Lilli Lehmann:
"Daqui a 100 anos, haverá festivais dedicados às minhas sinfonias,
e elas serão executadas em enormes salas de concerto". Não
se sabe se essa previsão foi feita em tom de bazófia ou de desabafo,
mas atualmente poucos compositores são tão executados quanto Mahler.
As orquestras e o público o amam (bem, parte do público) por causa
da inegável qualidade de suas obras, da forte presença de metais
e percussão e da intensidade com que ele expressa temas como paixão
e morte. O austríaco também é um favorito dos cineastas,
que utilizam sua música para pontuar momentos de dramaticidade. O italiano
Luchino Visconti escolheu o Adagietto da Quinta Sinfonia para traduzir
a paixão arrebatadora de Gustav von Aschenbach, o compositor de Morte
em Veneza. Mahler também é utilizado para o mal: o vilão
de The Killer Inside Me, de Michael Winterbottom, espanca e mata mulheres
ao som de suas obras e da ópera Norma, de Bellini. O culto às
composições de Mahler deverá aumentar nos próximos
dois anos, quando serão lembrados os 150 anos de seu nascimento e o centenário
de sua morte. No Brasil, pelo menos seis orquestras de grande e médio porte
vão tocar suas peças. O projeto mais ambicioso é o da Orquestra
Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), que vai apresentar todas
as sinfonias e ciclos de canções de Mahler. A estreia está
marcada para esta quinta-feira, quando a Osesp interpreta a Quarta Sinfonia, regida pelo inglês Justin Brown, com solos da soprano Gabriella Pace. "Foi
a primeira sinfonia que regi na vida. Nela, Mahler capturou a visão do
paraíso sob os olhos de uma criança e a transformou em música
com uma precisão infalível", disse
Brown a VEJA.
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O talento de Mahler não se limitou à composição. Ele foi também um regente do primeiro escalão, tendo assumido a direção artística da Ópera de Viena e da Filarmônica de Nova York. Judeu de nascimento, ele se converteu ao catolicismo para se candidatar ao cargo em Viena (mas não escapou de críticas por parte de antissemitas). No posto, foi temido e respeitado por exigir o máximo dos instrumentistas e por empreender mudanças que até hoje são seguidas à risca pelas casas de ópera. Pedia que a iluminação fosse reduzida durante os espetáculos e proibia a entrada de espectadores após o início da récita. Mahler, o maestro, era também celebrado pelas leituras revolucionárias que fazia das obras de clássicos como Mozart e Beethoven. O fato de conhecer a fundo as engrenagens de uma orquestra fez com que ele criasse novas técnicas de composição: em suas sinfonias, a melodia pode ser dividida de instrumento para instrumento o tema começa nas cordas, passa para o clarinete e termina no trompete. "Um concerto com obras de Mahler equivale a uma boa peça de teatro. O público assiste ao desenrolar de uma trama, na qual os instrumentos assumem o papel dos atores", escreveu o dramaturgo escocês Armando Iannucci.
Mahler não mexeu na estrutura das sinfonias. Mas aumentou sua duração, volume e densidade, e introduziu nelas instrumentos e gêneros musicais alheios ao mundo sinfônico. O terceiro movimento da Primeira Sinfonia traz uma música folclórica judaica. Um martelo gigante é utilizado no momento crucial da Sexta Sinfonia, e a Sétima Sinfonia traz um mandolim. O compositor mudou também uma pequena regra do período clássico. Nela, a sinfonia deveria começar e terminar na mesma tonalidade. Mahler aboliu a convenção. Para um leigo, tais mudanças podem soar pequenas; mas inspirados nelas é que compositores como Schoen-berg, Webern e Berg viriam a criar movimentos como o atonalismo.
O compositor austríaco foi banido das salas de concerto durante o nazismo e, a exemplo de outros autores judeus, quase terminou relegado ao esquecimento. A obra de Mahler reviveu quando, na década de 60, o regente americano Leonard Bernstein resgatou suas sinfonias e canções e defendeu sua genialidade em palestras em universidades e nas apresentações especiais que fazia para o público jovem. Hoje, as peças de Mahler são parte indispensável do cânone de qualquer maestro que se dê ao respeito (exigem do regente pulso forte para não perder o ritmo, como lembra o ex-diretor da Osesp John Neschling). Mahler é utilizado também para grandes celebrações. Simon Rattle estreou como diretor artístico da Filarmônica de Berlim, em 2000, com a Quinta Sinfonia; o venezuelano Gustavo Dudamel regeu a Primeira Sinfonia na sua estreia em Los Angeles, em outubro de 2009. A profecia feita pelo austríaco há mais de um século foi, afinal, cumprida.