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Sandra Speidel/Getty Images![]() |
Não é preciso tocar para abusar da criança.
Um olhar voyeurista é suficiente para induzir ao exibicionismo na infância
ou depois. A exibição do sexo pelo adulto basta para induzir ao
voyeurismo, o que não significa que a nudez deva ser proibida. Uma coisa
é o exibicionismo e outra é a nudez.
Entre os tantos abusos dos adultos, estão os que eles praticam com as palavras, maldizendo a sexualidade - e, mais que isso, emporcalhando-a. Uma só frase e o outro poderá ficar marcado para sempre. Em geral, os atos perversos permanecem impunes. Quem tiver uma suspeita fundada e ficar em silêncio deve ser responsabilizado por deixar o adulto infrator livre para exercer a sua violência contra a criança e o jovem. Denunciar o comportamento perverso é a forma de impedir que ele se reproduza.
Foi o que fez Kathryn Harrison no romance O Beijo, publicado originalmente nos Estados Unidos e traduzido no Brasil. Kathryn narra com detalhes como o pai, um pastor, a seduziu, alegando que obedecia à vontade de Deus. Ela foi cúmplice dele durante quatro anos, mas teve a coragem de revelar a verdade e mostrou, assim, os efeitos nefastos do incesto. Com isso, emergiu como escritora. Converteu um trauma num trunfo, protegendo possíveis vítimas.
Decerto, escreveu para superar o desespero. Mas o livro fez dela uma cidadã exemplar e um modelo a ser seguido. Porque soube dizer não ao pai usurpador. Aquele que desprezou a lei ao transformar o prazer na única lei do seu desejo.
A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental em Veja.com. Uma vez por mês, ela publica em VEJA um artigo especialmente escrito para a revista impressa
Acompanhe a coluna de Betty Milan