J.R. Guzzo
Área de risco
"O cidadão tem o direito de gostar da nova Cidade
Administrativa
de Minas Gerais, mas ela levanta discussões que vão
muito além da estética"
A nova Cidade Administrativa de Minas Gerais, que acaba de ser
inaugurada em Belo Horizonte com a assinatura de Oscar Niemeyer e o propósito
de reunir num só local as secretarias estaduais e o palácio do
governo, é desde já um marco na arquitetura mineira e na biografia
do governador Aécio Neves, como a principal obra física deixada
por sua gestão. É, também, uma boa oportunidade para examinar
as armadilhas que costumam cercar projetos arquitetônicos ambiciosos e
tentativas de garantir um lugar na história com a construção
de monumentos. É natural que esses riscos existam, quando se leva em
conta, para começo de conversa, que arquitetura é sempre uma atividade
perigosa. O arquiteto pode errar sozinho, mas quando erra faz todo mundo sentir
os efeitos dos erros que cometeu - seus estragos degeneram a paisagem,
que é um bem comum, não podem ser ignorados e duram muito tempo.
Maus livros ou filmes ruins, só para comparar, não machucam ninguém;
não são lidos nem vistos, simplesmente, e acabam sumindo da praça.
Já uma calamidade de concreto, aço e vidro fica aí à
vista do cidadão, todos os dias, durante décadas. Para livrar-se
dela, só com dinamite.
Não há tratamento preventivo para evitar esses desastres,
nem em obras públicas nem em obras particulares, nem aqui nem em qualquer
outro lugar; na verdade, isso pode acontecer nas melhores cidades do mundo.
Paris, por exemplo, talvez ofereça as demonstrações mais
agressivas do que é capaz de produzir a combinação entre
a mania de grandeza dos governos e a arrogância dos arquitetos. Pensar
que seja possível melhorar a paisagem de uma cidade como Paris recorrendo
a escritórios de arquitetura é, obviamente, de uma pretensão
sem limites, mas esse tipo de observação não parece constranger
os envolvidos. O resultado é o que se vê. Paris passou por duas
guerras mundiais no século XX; não sofreu, em nenhuma delas, sequer
uma fração das deformações que lhe foram impostas
pelos arquitetos, e que prometem estar aí pelas próximas gerações.
E o novo centro administrativo de Belo Horizonte, como fica nessa foto? A obra
não se qualifica para entrar em nenhuma lista dos grandes horrores arquitetônicos
do Brasil, mas também não está destinada a ser uma nova
atração na capital mineira. Parece, apenas, fruto de uma arquitetura
cansada, previsível, com construções que dão a impressão
de já estarem velhas no dia da inauguração. Não
se vê, ali, nenhum sinal de que tenha ocorrido alguma boa ideia na arquitetura
mundial ao longo dos últimos cinquenta anos. Não dá para
notar, no conjunto, a presença de elementos do reino vegetal.
Há nisso tudo, naturalmente, questões de gosto,
que não se discutem. O cidadão tem o direito de gostar da obra
recém-inaugurada; também tem o direito de não gostar, sobretudo
quando se considera que é ele quem está pagando a conta, como
contribuinte. Mas a Cidade Administrativa de Minas Gerais levanta discussões
que vão muito além da estética. Belo Horizonte, como todas
as grandes cidades brasileiras, vive uma necessidade desesperada de salvar o
seu centro; por que, a esta altura, levar a sede do governo para um lugar que
fica a 20 quilômetros de distância? O primeiro efeito prático
da mudança, do ponto de vista do interesse público, foi um corte
de duas horas na jornada de trabalho dos funcionários, de oito para seis
por dia, em compensação pelo tempo a mais que vão gastar
indo e voltando do serviço; a redução vale até o
fim deste ano. A experiência mostra que se deve temer, também,
pelo futuro do Palácio da Liberdade - um dos mais belos palácios
de governo do Brasil, em funcionamento desde 1897 e inseparável da alma
de Belo Horizonte. O palácio já escapou de ser demolido, no fim
dos anos 60, por sugestão do mesmo Oscar Niemeyer, que via nele uma intromissão
europeia na cidade; não escapará de ser mais um "centro cultural",
nome que os governos dão aos edifícios que abandonam e em relação
aos quais não sabem o que fazer. Não se entende, ainda, o argumento
de que a mudança dará mais "eficiência" à
administração; o que mata a qualidade do serviço público
são os seus processos, envenenados por uma burocracia demente, e não
a localização dos prédios do governo. A mesma credibilidade
se pode dar à promessa de economizar, em aluguéis, "90 milhões"
de reais por ano, o que pagaria em dezoito anos o custo do novo centro. Quem,
em 2028, vai estar fazendo essas contas?
Ninguém, é claro. O que interessa, no teatro da
vida pública, é o espetáculo de hoje. |