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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
O fim das pequenas empresas
"Quem
tem mais condições de gerar
os empregos de que este país necessita?
Nossos intelectuais, nossos economistas,
nosso governo ou nossa classe média?"
Hoje
em dia as grandes empresas desempregam mais do que contratam. São
as pequenas e médias que geram emprego, aqui e mundo afora.
Mas, em vez de fortalecer a pequena empresa, quase todos os governos
do Brasil a ignoram ou a enfraquecem.
As
pequenas e médias empresas são tipicamente dirigidas
pela classe média alta, em torno de 10% da população
brasileira. Se cada membro da classe média empregasse dez
funcionários, não teríamos desemprego neste
país. Teríamos 100% da população empregada,
por definição. Hoje, com os inúmeros cursos
disponíveis de administração, gerenciar uma
empresa com dez pessoas não é coisa do outro mundo.
O difícil é abrir e manter uma pequena ou média
empresa no Brasil. A maioria das leis, voltadas para conter a grande
empresa, acaba contendo a pequena e a média.
Entre
no Google e pesquise os assuntos mais tratados pelos nossos economistas
e governantes os temas mais freqüentes são juros,
inflação e câmbio. "Pequenas e médias
empresas" raramente fazem parte do temário de discussão.
Ajudar a pequena e a média empresa a crescer, nem pensar.
Ilustração Ale Setti
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Estamos assistindo a uma sistemática destruição
desse setor no Brasil e, de roldão, de nossa classe média.
Os ricos com suas grandes empresas já não criam mais
empregos e os pobres não têm como gerá-los.
Denegrir e dizimar a classe média por seus "valores pequeno-burgueses"
pode ser uma grande vitória política, mas será
um enorme suicídio econômico.
De
vinte anos para cá, além de aumentarem os impostos,
reduziram os prazos de pagamento desses impostos de 120 para quinze
dias. Hoje, as empresas precisam pagar 40% de sua receita ao governo
antes de receber de seus clientes. O capital de giro dessas empresas
sumiu; em vez de financiar a produção, financia o
governo.
Não
é a economia informal que está crescendo, é
a economia formal e a classe média que vêm sendo destruídas,
e rapidamente. Estudo realizado pelo Sebrae, e apresentado por Alencar
Burti, estima que 31% das pequenas empresas quebrarão até
2005. Ou seja, não somente não irão empregar
ninguém como vão desempregar aqueles que já
têm emprego.
Não
é exatamente uma previsão fora de propósito,
porque a grande maioria dessas empresas não obtém
lucro há mais de três anos, e 90% delas não
possuem mais capital, muito menos capital de giro. Se levarmos em
conta os encargos fiscais em atraso, os Refis, os processos trabalhistas
a pagar, a maioria está com patrimônio negativo, ou
seja, encontra-se literalmente quebrada. Muitas não fecham
imediatamente porque não podem pagar os elevados custos da
demissão dos funcionários. Vão levando, na
esperança de que as coisas melhorem. A maioria dos pequenos
e médios empresários nem pensa mais em crescer, mas
em vender suas empresas assim que a economia melhorar.
Até
recentemente, as empresas médias sobreviviam sonegando um
ou outro dos 46 impostos a pagar. Sonegavam o suficiente para se
manter vivas. Hoje não dá mais para sonegar. Ou se
sonega tudo, devido ao excelente controle e amarrações
entre os órgãos arrecadadores, ou não se sonega
nada. Como sonegar todos os impostos dá cadeia, e não
sonegar nenhum significa falência em alguns anos, a saída
é fechar a empresa assim que for possível.
Ainda
segundo estimativas de Burti, 59% das pequenas e médias empresas
fecharão as portas em 2009. Essas estatísticas não
são exageradas. O número de insolvências nesse
segmento sempre foi elevado, só que antigamente cinco novas
empresas eram criadas para cada quatro que quebravam.
Hoje
não. Não vejo mais aquela vontade de ser empresário
e empreendedor no Brasil, muito pelo contrário. Entre abrir
uma pequena empresa e arrumar um emprego público, os filhos
da classe média estão preferindo a opção
mais segura. E eles têm razão.
Quando
baixarem os juros dos empréstimos, nossos intelectuais vão
descobrir que não haverá mais classe média
para tomá-los, não haverá administrador de
empresas querendo administrá-los, não haverá
engenheiro querendo empregá-los.
Em
sua opinião, quem tem mais condições de gerar
os empregos de que este país necessita? Nossos intelectuais,
nossos economistas, nosso governo ou nossa classe média?
É uma interessante questão para ser discutida ao longo
desta semana.
Stephen
Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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