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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
A
tragédia vista
em suas
ninharias
Em
torno da visita sorrateira do terrorismo,
em Madri, 11 de março, como em Nova York,
11 de setembro
Um
poema de Carlos Drummond de Andrade, Morte no Avião,
descreve o último dia de um homem marcado para morrer num
desastre aéreo: "Acordo para a morte. / Barbeio-me, visto-me,
calço-me. (...) Tudo funciona como sempre. / Saio para a
rua. Vou morrer". O narrador do poema tem plena consciência
de que dali a pouco embarcará para a morte, e no entanto
não deixa de cumprir os pequenos rituais da vida: "Visito
o banco. Para que / esse dinheiro azul se, algumas horas / mais,
vem a polícia retirá-lo / do que foi meu peito e está
aberto?". E assim prossegue, ritual por ritual, miúdo gesto
cotidiano por miúdo gesto cotidiano: "Tenho pressa. Compro
um jornal. É pressa / embora vá morrer. (...) Comprometo-me
ao extremo, combino encontros / a que nunca irei, pronuncio palavras
vãs, / minto dizendo: até amanhã. Pois não
haverá". Enfim, chega a hora: "Subo uma escada. Curvo-me.
Penetro / no interior da morte". A hora fatal se aproxima. O avião
decola. Mais alguns minutos, e então... "Golpe vibrado no
ar, lâmina de vento / no pescoço, raio / choque, estrondo,
fulguração / rolamos pulverizados / caio verticalmente
e me transformo em notícia".
Madri,
11 de março de 2004. (Exatos dois anos e meio depois de Nova
York, 11 de setembro de 2001.) Confrontada com a realidade, a fantasia
do poeta revela-se poderosamente verdadeira. É fruto da fantasia
imaginar alguém que tenha cabal consciência de que
dali a pouco embarcará para a morte. Mas, por trás
da fantasia, esconde-se a poderosa verdade de quão distraídos
nos arrastamos em direção a ela. No poema, a morte
naquele dia mesmo, no avião, funciona como metáfora
para a morte em geral. Os seres humanos sabem que vão morrer.
Têm plena consciência disso. E no entanto vão
tocando como se não tivessem um encontro marcado com a morte
e se vestem, calçam-se, vão ao banco, compram
o jornal. Chegam a dizer "até amanhã" quando amanhã
não há.
Se
é assim em geral, é muito mais assim quando a morte
espera de tocaia, no mais inesperado dos dias, como num atentado
terrorista. Esbocemos um exercício de ficção.
Imaginemos os pensamentos, os diálogos, os gestos e os cacoetes
da gente que circulava nos trens ou nas estações de
Madri, na quinta-feira, pouco antes da tragédia. Um dormitava
ainda, naquela hora matinal. No banco ao lado, outro lia o jornal.
Imaginemos uma jovem que ia, cheia de apreensão, para o primeiro
dia no primeiro emprego. A seu lado, um engenheiro rascunhava mentalmente
o cálculo de que o tinham incumbido para aquele dia, mas
tinha a atenção desviada por dois vizinhos que disputavam
quem teria se saído melhor, Ronaldo ou Beckham, no último
jogo do Real Madrid.
Uma
senhora (continuemos sempre a imaginar, apenas imaginar, mas com
a certeza de que, se não foi exatamente assim, algo muito
parecido ocorria) se dirigia ao laboratório onde receberia
o exame indicando que estava com câncer. Outra coçava
a perna. Outra matava a sede levando aos lábios a garrafa
de água mineral. Um moço levantou-se do banco para
descer na estação que se avizinhava e disse ao companheiro
que seguiria viagem: "Hasta mañana!". Hasta mañana!
Inadvertida e mecanicamente, ele pronunciou as palavras mais insensatas
possíveis, naquela hora e local. No momento seguinte, como
no avião do poeta, "choque, estrondo, fulguração".
E toda aquela teia de pequenos movimentos, alegrias, tristezas,
aflições e arrebatamentos a que chamamos vida pulveriza-se
no ar e desfaz-se em barulho, fumaça e horror.
Seguem-se
os comentários sobre as trapaças do acaso. Há
o caso (podemos ter certeza, pois há sempre esse caso) daquele
que não devia ter embarcado naquele trem, mas mudou de idéia
e... azar. Inversamente, outro habitualmente embarcava àquela
hora, mas naquele dia dormiu demais e... sorte. Uma, desesperada,
procurava saber do marido, que sempre viajava naquele trem
mas naquele dia ele passou antes na casa da amante, e escapou. Outra
nem de leve supôs que o marido pudesse estar entre as vítimas,
mas ele arrumara uma amante na véspera e decidira visitá-la.
Despedaçou-se junto com o ramalhete que levava nas mãos.
A
tragédia interrompe a orquestração da vida
como um maestro ensandecido que resolvesse atirar nos músicos.
Tal papel é desde sempre cumprido pelas tragédias
naturais, como os terremotos, e pelos grandes acidentes, como os
naufrágios de navios e quedas de aviões. Mas estamos
no século XXI, e o terrorismo arrogou-se exercê-lo.
Às vezes o terrorismo se volta contra alvos específicos
e compreensíveis o chefe da facção contrária,
alguém a serviço dele. Outras, como nas tragédias
naturais, ataca cegamente. Como os alvos específicos se encontram
bem protegidos, opta por atacar quem não tem nada com isso.
E nesse caso, para causar impacto, precisa atacar maciçamente
e fazer muitas mortes. Assim foi em Nova York, 11 de setembro, e
em Madri, 11 de março. O terrorismo roubou do diabo a chave
do inferno e deleita-se em transformar este mundo num monturo pestilento.
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