Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Música
O rock de auto-ajuda

Som pesado e inquietações existenciais
levam Linkin Park
e Evanescence ao sucesso


Sérgio Martins


Divulgação
Evanescence, com a ultrapálida Amy Lee à frente: canções para quem não se sente confortável na própria pele

Para ouvir: Linkin Park e Evanescense

Os "holden caulfields" da atualidade já têm sua trilha sonora: ela é feita pelo Linkin Park e pelo Evanescence. Protagonista do romance O Apanhador no Campo de Centeio, do escritor americano J.D. Salinger, Holden Caulfield é a mais célebre representação literária do adolescente mergulhado em questionamentos existenciais. E é exatamente disso que tratam as letras dos dois grupos americanos em questão, campeões de venda no cenário roqueiro. O Linkin Park já vendeu 25 milhões de cópias de quatro lançamentos ao redor do mundo, enquanto o Evanescence atingiu a marca de 9 milhões com seu disco de estréia, Fallen. No Brasil, as vendagens de 2003 foram de 160.000 cópias para Meteora, do Linkin Park, e de 140.000 para Fallen. Nenhuma outra banda estrangeira igualou esse desempenho.


Divulgação
Linkin Park: fio de alta-tensão desencapado

A inquietação juvenil tem várias formas de traduzir-se em rock. Há a música de protesto com pretensões políticas, a música rebelde que investe contra tudo e todos, a música que é pura farra e finalmente a música feita por aqueles que não se sentem à vontade na própria pele e têm uma inclinação, digamos assim, "metafísica". Com letras batizadas de Somewhere I Belong (Algum Lugar Onde Eu Me Sinta em Casa) e Bring Me to Life (Faça-me Viver), respectivamente, Linkin Park e Evanescence pertencem a essa última vertente. No caso do Evanescence, as preocupações cósmicas são ainda mais evidentes. A banda nasceu no fim dos anos 90 e encontrou seus primeiros fãs entre os apreciadores do rock cristão. Aos poucos, o grupo tentou se desfazer dessas vinculações religiosas, que não são muito boas para os negócios. "Eu não gosto de falar sobre minha religião, mas posso garantir que não somos uma banda cristã", disse a cantora Amy Lee a VEJA. A vocalista afirma, no entanto, que acha bom quando alguém lhe diz que sua música serve de inspiração para a vida (num sentido "auto-ajuda"). O Linkin Park é menos carola. Surgido em 1996 na cidade de Los Angeles, o grupo tem no cantor Chester Bennington o seu principal letrista. O sujeito – que admite ter sérios problemas com drogas e álcool – já foi descrito como um fio de alta-tensão desencapado. "Chester tem problemas de aceitação e faz canções para lidar com eles", diz um dos integrantes da banda.

Sonoramente, tanto Evanescence quanto Linkin Park fazem uma mistura de heavy metal e rap que não chega a ser alternativa, mas tem barulho suficiente para que não possa ser considerada "careta". Em países como o Brasil, onde pouquíssima gente é capaz de desvendar as letras de primeira, o som forte das bandas ajuda bastante a conquistar fãs. No caso do Evanescence, um outro fator importante explica a popularidade: a presença de uma garota nos vocais. As meninas são as maiores admiradoras do grupo. "Não estamos acostumadas a ver uma garota cantando rock. Além do mais, Amy é bonita e carismática", diz Michele Tyszler, a presidente do maior fã-clube do Evanescence no Brasil. Amy Lee tem coruscantes olhos azuis, usa maquiagem pesada para ficar com a aparência ultrapálida e porta adereços góticos, como correntes e crucifixos. Fica combinado que, se fosse menina e vivesse nos dias de hoje, Holden Caulfield seria assim.

 
 
 
 
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