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Cinema
Um
Jesus nada cristão
Com
o sangrento A Paixão de Cristo,
Mel Gibson reaviva discórdias e se
esquece de falar de união ou redenção

Isabela
Boscov
Divulgação
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| Caviezel,
como Jesus: martírio exibido com a máxima crueza de detalhes
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Quando
o suíço Jean-Luc Godard fez Je Vous Salue, Marie,
em 1985, vários países baniram o filme de seus cinemas
inclusive o Brasil, que exercitou a prerrogativa da censura
pelo Estado. Como o recurso já não era aplicável
em 1988, quando o americano Martin Scorsese lançou A Última
Tentação de Cristo, o então prefeito de
São Paulo, Jânio Quadros, valeu-se de artimanhas administrativas
para interditar as salas que o exibiam, com apoio de setores religiosos.
Agora A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ,
Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país,
provoca reações semelhantes. Na semana passada, o
advogado paulista Jacob Pinheiro Goldberg pediu ao Ministério
da Justiça a proibição, ou ao menos a restrição
a maiores de 18 anos, do filme. O presidente do Rabinato da Congregação
Israelita Paulista, Henry Sobel, criticou a violência do filme
e seu potencial para alimentar o anti-semitismo. Dom Geraldo Majella,
presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, também
classificou a violência que se vê na tela como chocante.
Filmes
de conteúdo religioso são sempre um convite à
controvérsia. Tanto no caso de Godard como no de Scorsese,
ela surgiu das liberdades que os cineastas tomaram com as Escrituras
por exemplo, uma Nossa Senhora mostrada nua em Je Vous
Salue, Marie. O que há de novidade na polêmica
em torno de A Paixão de Cristo é que ela caminha
em sentido contrário. O filme dirigido por Mel Gibson choca
não por questionar os Evangelhos, mas por tomá-los
ao pé da letra, e a ferro e fogo. Gibson encena as doze últimas
horas da vida de Jesus com a máxima crueza de detalhes. Não
há Pulp Fiction que se compare no teor de violência.
Jesus, interpretado por Jim Caviezel, é chicoteado, chutado,
espancado e perfurado, até quase perder suas feições
humanas. É difícil entender o propósito dessas
cenas. Segundo Gibson, o objetivo é dar à platéia
a dimensão do martírio a que Cristo se submeteu para
redimir a humanidade de seus pecados.
Há
problemas de toda ordem nesse percurso. Alguns são puramente
cinematográficos. Na seqüência inicial o diretor
ainda parece buscar uma linguagem que se adapte ao seu tema, reproduzindo
nos enquadramentos e nas atitudes dos atores a pintura da Renascença.
No momento em que parte para as suas duas infindáveis horas
de tortura, porém, Gibson ajusta seu registro a uma fonte
bem menos nobre. Quanto mais avança, mais A Paixão
lembra um daqueles péssimos filmes bíblicos que os
italianos rodavam nos anos 50. Não há um clichê
do gênero a que Gibson não apele, do Cristo fotografado
de baixo para cima, com os olhos voltados para o céu, às
mulheres de mãos estendidas em súplica.
Os
outros problemas de A Paixão se situam num terreno
mais subjetivo, mas bem mais relevante. A fixação
com a Paixão de Cristo é, em termos literais, medieval.
Nos séculos mais recentes, a produção teológica
cristã em geral e a católica em particular têm
procurado voltar a atenção dos fiéis mais para
a pregação de Jesus do que para o seu calvário.
O sacrifício de Jesus deve ser entendido à luz de
seus ensinamentos, e não o contrário. A Paixão
e a Ressurreição seriam a confirmação
da divindade de Cristo. Mas sua pregação e a revolução
ética que ela instaurou é que são os verdadeiros
pontos de união entre os cristãos e, possivelmente,
entre cristãos, membros de outras religiões e mesmo
ateus.
Mel
Gibson, que é membro de uma seita tradicionalista ferrenha,
restaura os parâmetros medievais. A julgar pelo fenômeno
em que o filme se converteu nos Estados Unidos, ele não está
sozinho: até hoje, só Homem-Aranha e O Senhor
dos Anéis O Retorno do Rei chegaram à marca
dos 200 milhões de dólares mais rápido do que
ele. O pouco que Jesus tem a dizer em A Paixão é
retirado dos Discursos Escatológicos seus vaticínios
sobre sua morte e a chegada do reino de Deus. E esse pouco é
dito em latim e aramaico. Gibson demorou a ser convencido de que
seria preciso legendar os diálogos: as imagens deveriam falar
por si, argumentava. O que elas têm a dizer, porém,
é perturbador. Esse martírio mostrado de forma quase
pornográfica tira da Paixão os seus significados simbólicos
por exemplo, o de ser uma ocasião para refletir sobre
o sofrimento imposto a Jesus, e que cada homem impõe ao outro,
em razão da intolerância, da conveniência, da
soberba e da omissão. Gibson trata exclusivamente de pavor,
culpa e atribuição da culpa em especial, e
de forma ostensiva, aos judeus. Nas suas mãos, Jesus não
passa de um fetiche. E o que ele expressa não é união
ou redenção, mas truculência, discórdia,
ódios reavivados e execração.
| VIOLÊNCIA
SEM PRECEDENTES |
Reprodução
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| O
Cristo de Grünewald: dor em toda parte |
A representação sangrenta da Paixão
de Cristo no filme de Mel Gibson não tem precedentes
na arte religiosa. Nos primórdios do cristianismo,
as imagens da crucificação ostentavam um
Jesus altivo e triunfante sobre a morte, sem nenhum sofrimento.
Só no século XIV essa visão intrinsecamente
mística deu lugar a um certo naturalismo
e daí a representações que enfatizavam
a carga dramática da cena. Em certos momentos,
a exacerbação da dor de Cristo foi uma forma
de arrebatar o coração dos fiéis
pela emoção e pelo êxtase religioso.
Os artistas do barroco e da tradição germânica
dos séculos XV e XVI foram os que mais exploraram
esse lado. "Em matéria de dramaticidade, talvez
ninguém supere os trabalhos do alemão Matthias
Grünewald (1480-1528)", diz o historiador
da arte Renato Brolezzi. Nas pinturas de Grünewald,
Cristo surge coberto de ulcerações. Tudo
a seu redor das plantas ressequidas às pedras
pontiagudas remete à dor. São imagens
impressionantes, mas nem de longe repulsivas como as cenas
de A Paixão de Cristo. Artistas modernos
e contemporâneos também fizeram leituras
chocantes do tema, é verdade. O objetivo deles,
no entanto, era a dessacralização dos ícones
religiosos o oposto do que faz Mel Gibson. |
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