Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Cinema
Um Jesus nada cristão

Com o sangrento A Paixão de Cristo,
Mel Gibson reaviva discórdias e se

esquece de falar de união ou redenção


Isabela Boscov


Divulgação
Caviezel, como Jesus: martírio exibido com a máxima crueza de detalhes

Trailer
Fotos do filme

Quando o suíço Jean-Luc Godard fez Je Vous Salue, Marie, em 1985, vários países baniram o filme de seus cinemas – inclusive o Brasil, que exercitou a prerrogativa da censura pelo Estado. Como o recurso já não era aplicável em 1988, quando o americano Martin Scorsese lançou A Última Tentação de Cristo, o então prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, valeu-se de artimanhas administrativas para interditar as salas que o exibiam, com apoio de setores religiosos. Agora A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, provoca reações semelhantes. Na semana passada, o advogado paulista Jacob Pinheiro Goldberg pediu ao Ministério da Justiça a proibição, ou ao menos a restrição a maiores de 18 anos, do filme. O presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, Henry Sobel, criticou a violência do filme e seu potencial para alimentar o anti-semitismo. Dom Geraldo Majella, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, também classificou a violência que se vê na tela como chocante.

Filmes de conteúdo religioso são sempre um convite à controvérsia. Tanto no caso de Godard como no de Scorsese, ela surgiu das liberdades que os cineastas tomaram com as Escrituras – por exemplo, uma Nossa Senhora mostrada nua em Je Vous Salue, Marie. O que há de novidade na polêmica em torno de A Paixão de Cristo é que ela caminha em sentido contrário. O filme dirigido por Mel Gibson choca não por questionar os Evangelhos, mas por tomá-los ao pé da letra, e a ferro e fogo. Gibson encena as doze últimas horas da vida de Jesus com a máxima crueza de detalhes. Não há Pulp Fiction que se compare no teor de violência. Jesus, interpretado por Jim Caviezel, é chicoteado, chutado, espancado e perfurado, até quase perder suas feições humanas. É difícil entender o propósito dessas cenas. Segundo Gibson, o objetivo é dar à platéia a dimensão do martírio a que Cristo se submeteu para redimir a humanidade de seus pecados.

Há problemas de toda ordem nesse percurso. Alguns são puramente cinematográficos. Na seqüência inicial o diretor ainda parece buscar uma linguagem que se adapte ao seu tema, reproduzindo nos enquadramentos e nas atitudes dos atores a pintura da Renascença. No momento em que parte para as suas duas infindáveis horas de tortura, porém, Gibson ajusta seu registro a uma fonte bem menos nobre. Quanto mais avança, mais A Paixão lembra um daqueles péssimos filmes bíblicos que os italianos rodavam nos anos 50. Não há um clichê do gênero a que Gibson não apele, do Cristo fotografado de baixo para cima, com os olhos voltados para o céu, às mulheres de mãos estendidas em súplica.

Os outros problemas de A Paixão se situam num terreno mais subjetivo, mas bem mais relevante. A fixação com a Paixão de Cristo é, em termos literais, medieval. Nos séculos mais recentes, a produção teológica cristã em geral e a católica em particular têm procurado voltar a atenção dos fiéis mais para a pregação de Jesus do que para o seu calvário. O sacrifício de Jesus deve ser entendido à luz de seus ensinamentos, e não o contrário. A Paixão e a Ressurreição seriam a confirmação da divindade de Cristo. Mas sua pregação e a revolução ética que ela instaurou é que são os verdadeiros pontos de união entre os cristãos e, possivelmente, entre cristãos, membros de outras religiões e mesmo ateus.

Mel Gibson, que é membro de uma seita tradicionalista ferrenha, restaura os parâmetros medievais. A julgar pelo fenômeno em que o filme se converteu nos Estados Unidos, ele não está sozinho: até hoje, só Homem-Aranha e O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei chegaram à marca dos 200 milhões de dólares mais rápido do que ele. O pouco que Jesus tem a dizer em A Paixão é retirado dos Discursos Escatológicos – seus vaticínios sobre sua morte e a chegada do reino de Deus. E esse pouco é dito em latim e aramaico. Gibson demorou a ser convencido de que seria preciso legendar os diálogos: as imagens deveriam falar por si, argumentava. O que elas têm a dizer, porém, é perturbador. Esse martírio mostrado de forma quase pornográfica tira da Paixão os seus significados simbólicos – por exemplo, o de ser uma ocasião para refletir sobre o sofrimento imposto a Jesus, e que cada homem impõe ao outro, em razão da intolerância, da conveniência, da soberba e da omissão. Gibson trata exclusivamente de pavor, culpa e atribuição da culpa – em especial, e de forma ostensiva, aos judeus. Nas suas mãos, Jesus não passa de um fetiche. E o que ele expressa não é união ou redenção, mas truculência, discórdia, ódios reavivados e execração.

 
VIOLÊNCIA SEM PRECEDENTES

Reprodução
O Cristo de Grünewald: dor em toda parte

A representação sangrenta da Paixão de Cristo no filme de Mel Gibson não tem precedentes na arte religiosa. Nos primórdios do cristianismo, as imagens da crucificação ostentavam um Jesus altivo e triunfante sobre a morte, sem nenhum sofrimento. Só no século XIV essa visão intrinsecamente mística deu lugar a um certo naturalismo – e daí a representações que enfatizavam a carga dramática da cena. Em certos momentos, a exacerbação da dor de Cristo foi uma forma de arrebatar o coração dos fiéis pela emoção e pelo êxtase religioso. Os artistas do barroco e da tradição germânica dos séculos XV e XVI foram os que mais exploraram esse lado. "Em matéria de dramaticidade, talvez ninguém supere os trabalhos do alemão Matthias Grünewald (1480-1528)", diz o historiador da arte Renato Brolezzi. Nas pinturas de Grünewald, Cristo surge coberto de ulcerações. Tudo a seu redor – das plantas ressequidas às pedras pontiagudas – remete à dor. São imagens impressionantes, mas nem de longe repulsivas como as cenas de A Paixão de Cristo. Artistas modernos e contemporâneos também fizeram leituras chocantes do tema, é verdade. O objetivo deles, no entanto, era a dessacralização dos ícones religiosos – o oposto do que faz Mel Gibson.

 

 
 
 
 
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