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Especial
VEJA
o acompanhou
por 16 meses
Em
visitas regulares ao longo de um ano e
quatro meses, repórter de VEJA acompanhou
a saga do empresário William Adas, que atingiu
163 quilos, operou o estômago e agora pesa
quase a metade

Monica
Weinberg
Fotos Antonio Milena e Pedro Rubens
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| Adas,
com 98 quilos (à dir.): livre de uma carga equivalente
a treze sacos de arroz |
Quando
reflete a respeito do processo de engorda que o fez dobrar de peso,
o empresário paulista William Adas tem a sensação
de que inchou de uma hora para outra. "É como se eu fosse
o mocinho de um filme de ficção científica
e uma força maligna tivesse me sugado para um mundo paralelo
onde fui transformado num monstro. Fiquei deformado. Meu pescoço
desapareceu, passei a não enxergar meus pés sem ajuda
de espelhos, parei de alcançar as costas no banho e meu órgão
sexual ficou encoberto", conta. A maior parte das pessoas obesas
vê a gordura dessa forma, como um alien que se apossa subitamente
de seus corpos. Na verdade, Adas, hoje com 35 anos, levou exatos
treze anos para assumir a forma física que ele não
deseja nem para seu pior inimigo. Nesse período, o empresário
engordou, em média,
6 quilos por ano, ou 500 gramas por mês. Na faculdade de administração,
formava entre os alunos de perfil atlético. Com 1,78 metro,
mantinha-se com 85 quilos, resultado de até três horas
de remo por dia. Convivia com algumas variações de
peso próprias da idade, mas nada que o incomodasse, que provocasse
comentário dos amigos ou olhares de estranhos. Nada que uma
dieta rápida não resolvesse. Em 2002, aos 33 anos,
quando procurou um médico para se candidatar a uma cirurgia
de redução do estômago, a balança do
consultório marcava 163 quilos. "Entrei em pânico,
percebi que acabaria morrendo de tanto comer", conta.
Depois
de escutar que seu quadro clínico inspirava cuidados, que
corria o risco real de morrer em decorrência de doenças
ligadas ao excesso de peso, Adas se apavorou. Todos os anos 3.000
pessoas têm o estômago operado no Brasil, e outras 150.000
mundo afora. Do ponto de vista jornalístico, o que torna
o caso de Adas único é que, pela primeira vez no país,
um paciente foi acompanhado regularmente por uma equipe de reportagem.
VEJA monitorou o programa de emagrecimento do empresário
por um ano e quatro meses, desde os preparativos para a cirurgia,
em novembro de 2002, até a semana passada. A reportagem passou
dias inteiros observando seus hábitos, acompanhou-o em consultas
médicas, viu de perto seu drama para tentar emagrecer em
um spa antes da cirurgia e assistiu à operação.
Nesse período, Adas foi entrevistado 25 vezes pessoalmente,
sua mulher, Carolina, outras dez, sem contar as conversas semanais
com a revista por telefone. A pedido de VEJA, o empresário
fez anotações regulares, que se transformaram num
diário, cujos trechos podem ser conferidos na pág.
78. De acordo com o médico Arthur Garrido, presidente da
Federação Internacional para a Cirurgia da Obesidade
e responsável pelo tratamento, Adas vem se comportando como
um paciente exemplar. Perdeu 65 quilos, e demonstra estar adaptado
à rotina de restrições em que se transformou
sua vida alimentar. "William venceu a batalha inicial contra a obesidade",
afirma Garrido. "Agora, ingressou na fase de se acostumar ao novo
corpo, de se amoldar a um organismo com o qual já não
tinha intimidade", diz o médico.
Fotos Antonio Milena
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As
dificuldades da vida de gordo...
A seqüência de fotos mostra William em algumas
atividades rotineiras, quando pesava 163 quilos. Sair do carro
ou da piscina e amarrar os sapatos eram tarefas extremamente
difíceis. Para piorar, a vergonha do corpo não
o animava a sair de casa. Seu sono era ruim e sua saúde
já estava comprometida por causa da gordura |
Adas
consumiu mais de uma década acostumando-se a um corpo obeso
e perdeu esse excesso todo em pouco mais de um ano. Este foi um
de seus grandes desafios: disciplinar-se física e mentalmente
para viver de novo como um homem magro, e rapidamente. É
como se o empresário precisasse ser domesticado. Nos primeiros
meses após a operação, ele ainda encolhia a
barriga para entrar no boxe do banheiro e, para sair do carro, se
agarrava à porta da mesma maneira como fazia antes. "Eu estava
condicionado. De vez em quando, minha mulher notava que meus movimentos
não combinavam mais comigo", conta. A redução
no consumo de proteínas o fez perder cabelos e agora ele
precisa consumir algumas vitaminas para equilibrar a dieta. Para
Adas, o aprendizado tem sido prazeroso. A grande dificuldade consiste
em aprender a pensar como magro. Ele lembra que sua primeira visita
à churrascaria com o novo estômago foi uma experiência
traumática. "Descobri que eu me sentia poderoso devorando
toda aquela comida. Eu adorava a comilança. Quando precisei
parar em dois pedacinhos de picanha me senti impotente, um derrotado",
diz. Ainda hoje, apesar do sucesso na balança, Adas sente
falta de comida, da sensação de estar mastigando,
dos sabores e dos rituais. Pode parecer fácil para quem não
liga muito para comer. Mas é difícil para quem faz
disso sua maior fonte de alegria. Nos primeiros dias, Adas perdia
o sono pensando em comida. Uma vez, atacou a geladeira e sacou de
lá meio hambúrguer, devorado de forma furiosa. Passou
mal durante horas. Até hoje, a idéia de que a mesa
se tornou um lugar repleto de restrições o assusta.
Fotos Claudio Rossi
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ossi
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...e
as alegrias da vida de magro
Em seu novo corpo de magro, ele voltou a praticar remo
(à dir.), esporte que abandonou quando começou
a engordar. Além disso, recuperou a saúde, a vaidade
e a alegria de viver. Agora, está aprendendo a apreciar
comidas mais leves e refeições balanceadas |
Para
entender a complexidade do desafio de quem emagrece de forma rápida
e radical, é preciso conhecer um pouco da etapa anterior,
do caminho rumo ao "mundo paralelo" para o qual o empresário
se disse sugado. Ao longo dos anos, Adas recebeu diversos recados
de que as coisas não iam bem. Ao completar 21 anos, pesava
mais de 100 quilos. A marca não o abalou. Parecia simples
queimar o excesso com mais uma dieta e mais dedicação
aos exercícios. Vieram o casamento, novas obrigações
no trabalho e três filhos. Seus hábitos alimentares
mudaram, os esportes ficaram em segundo plano e ele continuou ganhando
peso. Na correria, não sobrava tempo para esportes nem ânimo
para dietas. Seu peso continuou subindo sem parar. Numa primeira
fase, perdeu o fôlego para caminhadas, depois passou a sofrer
para subir até mesmo um lance de escada. Alguns minutos de
conversa o deixavam sem ar, como se tivesse uma crise asmática.
Suas costas começaram a doer constantemente, e seus joelhos
fraquejavam sob o excesso de peso. Entrar e sair do carro, amarrar
os sapatos, entrar no boxe do banheiro, esfregar as costas se tornaram
tarefas difíceis ou impossíveis. Seu corpo sofria
com assaduras freqüentes provocadas pelo atrito entre as pernas.
A pressão arterial subiu, o sono ficou difícil, pois
acordava durante a noite com falta de ar. Sua mulher, Carolina,
tinha crises de choro constantes, assustada com a idéia de
que o marido pudesse ser vítima de um ataque fulminante provocado
pela gordura.
Insatisfeito
com o corpo, Adas deixou de ser um tipo alegre e extrovertido e
tornou-se um personagem recluso. "Eu tinha vergonha de me expor.
Cheguei a ponto de evitar me mexer com medo de a roupa rasgar. Passei
dez anos sendo chamado de bolão, rolha de poço, gordão
e coisas parecidas. Isso acaba com a auto-estima de qualquer um",
diz. Adas se sentia tão deslocado em ambientes públicos
que desenvolveu uma espécie de fobia social e até
alguns pensamentos paranóicos. A idéia de freqüentar
cinemas e lugares fechados o assombrava. "'Tinha medo do que poderia
acontecer se o lugar pegasse fogo. Com meu peso, seria o último
a sair e acabaria pisoteado", conta. "Eu achava que estava sempre
atrapalhando, como um carro quebrado numa avenida movimentada."
Claudio Rossi
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| A
mulher, Carolina, e os filhos, Pedro, Ana Luiza e Gabriel: família
unida |
A harmonia familiar acabou atingida pelos efeitos da gordura. Como
ele evitava sair, afastou-se dos filhos pequenos. Nos fins de semana,
sua mulher passeava com as crianças e ele permanecia em casa,
diante da TV. Quando concordava em se reunir à família,
sugeria que fossem a um restaurante, de preferência uma churrascaria.
À mesa, não conversava com ninguém. "Eu só
queria comer. Abria a boca apenas para mastigar e fazia isso rapidamente
para ingerir ainda mais comida." A vida sexual do casal também
foi afetada. Perdeu a agilidade, a freqüência e a qualidade
do início do relacionamento. Carolina conta que tomava calmantes
para pegar no sono antes de o marido chegar. Isso porque durante
o sono ele respirava mal e roncava alto por causa da gordura. Nos
Estados Unidos, onde foram realizadas pesquisas a respeito do efeito
da gordura sobre o casamento, verificou-se que é bastante
alta a taxa de divórcio entre os obesos: quatro de cada dez
casamentos terminam em separação. "Acho que só
ficamos juntos porque nosso casamento está construído
sobre bases muito sólidas", conta ela.
De
acordo com dados da Organização Mundial de Saúde,
o número de obesos no mundo vem aumentando em alta velocidade.
Nos Estados Unidos, mais de 60% das pessoas estão acima do
peso e, entre elas, 30% são diagnosticadas como obesas. Na
Europa, a doença também está se espalhando
e já atinge 25% da população de alguns países.
Na Inglaterra, o grupo de doentes triplicou de tamanho nas duas
últimas décadas. Segundo a OMS, a doença atingiu
dimensão epidêmica. Uma projeção desalentadora
mostra que, caso nada seja feito, os obesos serão a maioria
da população em vários países nas próximas
décadas. Outro fato assinalado pela OMS é que a obesidade
deixou de ser uma típica doença dos países
ricos. Em países da América Latina, o total de obesos
supera o de desnutridos. No Brasil, o número de pessoas acima
do peso dobrou nas últimas três décadas e já
afeta 70 milhões, contingente que inclui todos os que têm
alguns quilinhos a mais. Cerca de 18 milhões são considerados
obesos, ou seja, estão até 45 quilos acima do peso
ideal. A partir desse patamar, os médicos diagnosticam a
obesidade mórbida. Ou seja, a gordura que mata. Na semana
passada, um relatório divulgado pelo Centro para Controle
e Prevenção de Doenças, nos Estados Unidos,
trouxe à tona dados assustadores sobre a obesidade. De acordo
com o estudo, as mortes decorrentes da doença já são
quase tão freqüentes quanto os óbitos provocados
pelo fumo, que há uma década disparavam na frente.
Os últimos dados referentes ao assunto mostram que, em 2000,
18% das mortes nos EUA se deveram aos efeitos do cigarro enquanto
quase 17% foram atribuídas a doenças associadas à
obesidade. O trabalho destaca que a maioria dos obesos tem alimentação
inadequada e é sedentária. Em 2020, se a epidemia
de obesidade continuar nesse ritmo, 1 de cada 5 dólares gastos
com saúde será destinado ao tratamento de pessoas
com excesso de peso. Gente como William Adas antes da cirurgia tem
doze vezes mais probabilidade de morrer devido a complicações
de saúde do que indivíduos com peso normal.
Há
outros fatores que entram nessa conta. Ao longo do processo evolutivo,
o ser humano adaptou-se a ingerir toda comida disponível
e ainda fazer estoques em forma de gordura. Ocorre que nossos ancestrais
tinham uma enorme dificuldade de achar comida. Hoje, o alimento
é barato e extremamente acessível. Adas formava entre
aqueles que sentiam uma compulsão incontrolável por
comida. No auge da gordura, chegou a manter uma dieta diária
de quase 10.000 calorias, cerca de cinco
vezes mais do que se recomenda para um adulto saudável. Em
uma única refeição era capaz de engolir quatro
Big Mac, 600 gramas de batatas fritas, dois sundaes e 1 litro de
refrigerante.
Quem
está em paz com a balança não sente o peso
do próprio corpo. Para os obesos, mover o corpanzil é
um sacrifício. Cada braço de Adas pesava cerca de
15 quilos, cada perna tinha 30 quilos, outros 30 quilos de gordura
estavam depositados na barriga. O simples ato de levar um copo à
boca correspondia ao esforço de segurar nos braços
uma criança de 4 anos. Com 163 quilos, ele tinha um excesso
de bagagem de 60 quilos de gordura e 20 quilos de músculos,
que se desenvolveram pelo exercício diário de carregar
o próprio peso do corpo. Como o organismo não é
projetado para trabalhar com esses números, o risco de colapso
é grande. Em sua última bateria de exames antes da
operação de redução do estômago,
os médicos contabilizaram sete problemas graves, ou muito
incômodos. Um dos mais preocupantes era a apnéia do
sono. A gordura depositada em seu abdômen comprimia o diafragma
e o asfixiava. Certa noite, Adas acordou quatro vezes seguidas.
"Abri os olhos e vi minha mulher gritando, achando que eu tinha
morrido", lembra.
A
maioria dos obesos mórbidos passa por uma maratona de dietas
antes de partir para soluções tão radicais
como a cirurgia para redução de estômago. Nos
últimos vinte anos, Adas tentou quinze tipos de dieta e tomou
todos os remédios para emagrecer disponíveis no mercado.
O resultado era aquele que se sabe: ele perdia peso e acabava ganhando
tudo outra vez. Nesse vai-e-vem calcula-se que tenham sido "movimentados"
até 400 quilos entre gordura perdida e recuperada nos regimes.
De acordo com os médicos, para voltar a ter um peso normal
sem cirurgia, Adas precisaria enfrentar uma dieta de guerra. Primeiro
teria de reduzir seu consumo diário de calorias a um sexto
do que consumia, ou cerca de 1.500 calorias.
Além disso, precisaria fazer uma hora de caminhada por dia
e tomar inibidores de apetite. Pouca gente consegue vencer o desafio
nessas bases. As estatísticas apontam que apenas 5% dos obesos
cumprem a prescrição. Nove de cada dez gordos voltam
ao peso original depois de quatro anos.
Criada
para atender essas pessoas, a cirurgia é uma saída
radical e arriscada. Só se justifica mesmo quando o risco
de permanecer gordo é um atalho para a morte. A Associação
Médica Brasileira classifica os procedimentos em sete níveis
de complexidade. Cirurgias cardíacas e operações
de câncer estão no topo. A redução do
estômago vem logo abaixo. O objetivo dos procedimentos cirúrgicos
é restaurar o funcionamento de órgãos do corpo.
A redução do estômago mutila. Segundo dados
de pesquisas realizadas nos Estados Unidos, cerca de 5% dos pacientes
apresentam complicações graves durante a operação
ou no pós-operatório. Na cirurgia, os médicos
separam o órgão em dois compartimentos. Um deles fica
com capacidade para apenas 20 mililitros, equivalente a uma mísera
meia xícara de café. Ligada ao intestino por meio
de um anel de silicone, essa câmara funcionará como
o novo estômago. O outro compartimento fica sem função.
Perde-se peso por duas razões. Primeiro, com a redução
do estômago, a produção de hormônios associados
à sensação de fome é reduzida. Além
disso, a nova máquina é incapaz de processar grande
quantidade de alimentos.
Com
seu novo estômago, Adas consegue ingerir apenas 300 gramas
de alimento por refeição e, ainda assim, muito lentamente.
Os alimentos são triturados na boca por cerca de meia hora
e engolidos em pequenas porções. Alguns pacientes
sentem indisposição até com a ingestão
de pouca quantidade de comida. Outros vomitam com freqüência,
mesmo passado mais de um ano da cirurgia. Depois de operado, o ex-obeso
precisa adaptar a cabeça de gordo ao novo corpo. Pessoas
com membros amputados continuam tendo as sensações
de antes, como se nada houvesse acontecido. Em certa medida, ocorre
o mesmo com os que fazem a operação de redução
do estômago. Após a cirurgia, a fissura pela comida
continua. Adas demorou sete meses para ajustar a fome a sua capacidade
de ingestão de alimentos.
A
fase de adaptação é tão desgastante
que uma parte dos pacientes operados pede que a cirurgia seja desfeita.
Outra parte sabota o tratamento, normalmente com a ingestão
de doces pastosos. Como resultado, volta a engordar. Ainda há
um grupo que cai em depressão. Certos obesos descontam suas
frustrações na comida. "Quando descobrem que perder
peso não as fez arrumar namorada nova nem mudar de emprego
da noite para o dia, algumas pessoas que passam pela cirurgia se
desmontam psicologicamente", diz o médico Arthur Garrido.
Finalmente, os candidatos à operação precisam
ter em mente que, provavelmente, não vão ganhar um
corpo de atleta. Em média, consegue-se uma redução
de 40% do peso. Ou seja, em muitos casos, a vantagem da cirurgia
é transformar obesos em gordos.
Para
Adas, a operação de estômago foi um sucesso.
Ele está com 98 quilos e sua taxa de gordura estabilizou-se
na casa dos 20%, índice ligeiramente elevado para a maioria
das pessoas, mas adequado para alguém com seu histórico.
Três meses após a cirurgia, o empresário havia
perdido quase 40 quilos e sua vida começou a mudar radicalmente.
Ele se lembra vivamente da alegria que sentiu na primeira vez em
que conseguiu dormir de barriga para cima sem se sentir sufocado.
Guarda a emoção das primeiras caminhadas pelo condomínio
onde mora e continua experimentando o gosto de pequenas conquistas.
Ele dispensou o banquinho que usava para amarrar os sapatos e, no
banho, foi capaz de observar "todas as partes" de seu corpo e alcançar
as costas com a esponja. Todo o seu guarda-roupa, comprado em lojas
especializadas em gordos, foi doado a uma instituição
de caridade. "Conheci alegrias até infantis, como um dia
me olhar no espelho e rever meu pescoço", conta. Um dos momentos
mais marcantes de sua nova vida foi quando levou seus filhos ao
clube. "Não que eu tenha ficado com a barriga do Paulo Zulu,
mas já tiro a camisa sem dar vexame", diverte-se. Seu casamento
também esquentou, e hoje, mais de um ano depois da cirurgia,
o casal recuperou a alegria dos primeiros anos. Diz Carolina: "Estamos
vivendo uma nova lua-de-mel".
Com
reportagem de Camila
Antunes
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Uma
epidemia mundial
A
China sempre teve uma das menores taxas de obesidade
do mundo. Até pouco tempo atrás, apenas
2% da população do país sofria
com o excesso de peso. Na França, na Itália,
na Inglaterra e no Japão a obesidade também
não era vista como um problema de saúde
relevante. Nos últimos anos, a população
de obesos nesses países começou a crescer
em ritmo preocupante. A questão é tão
grave que, recentemente, a Organização
Mundial de Saúde lançou um alerta no qual
a obesidade é apontada como epidemia mundial.
O problema aflige países ricos e pobres. Mesmo
na África e na América Latina, onde ainda
há muitas pessoas comendo aquém do necessário,
a proporção de obesos está aumentando.
Pesquisas apontam que até em comunidades indígenas
cresce o número de obesos. Segundo as autoridades
médicas, caso essa tendência não
mude, uma das principais causas de mortalidade nos próximos
anos serão as doenças associadas ao excesso
de peso.
Os
estudos indicam que a obesidade se alastra em decorrência
de uma combinação de hábitos alimentares
pouco apropriados e quase nenhuma atividade física.
Inventores do fast food e amantes das dietas ricas em
açúcares e gorduras, os Estados Unidos
foram os primeiros a sentir o problema. Numa fase seguinte,
o mal atingiu o mundo todo. Há um outro detalhe
que pesa na balança. No passado, os alimentos
eram mais saudáveis e mais difíceis de
encontrar. Hoje, é possível achar comida
em qualquer esquina, a preços módicos.
Já se provou que as pessoas ingerem uma quantidade
significativamente maior de calorias. Para os médicos,
embora o mal seja coletivo, a solução
é individual. Eles sugerem às pessoas
que sigam dietas mais balanceadas e que se dediquem
às atividades físicas. Não há
mágica. Pesquisas já provaram que com
uma caminhada diária de apenas meia hora se reduz
em 30% o risco de uma pessoa tornar-se obesa. Outra
sugestão dos especialistas é observar
as crianças. Estatísticas internacionais
dão conta de que a doença chega cada vez
mais às faixas mais jovens. Nos Estados Unidos,
15% das crianças são obesas.
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O
diário de
William
Durante
dezesseis meses, William fez anotações
sobre sua luta para emagrecer. Confira alguns dos principais
trechos:
Antonio Milena
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| No
dia da operação de estômago: angústia de não voltar
a comer |
5
de novembro de 2002
Sinto medo de morrer. Fui atleta na juventude. Nos últimos
treze anos, só engordei e acabei com sérios
problemas de saúde. Decidi me submeter a uma
cirurgia de redução de estômago.
11
de novembro de 2002
Estou tão gordo que preciso perder peso em um
spa, antes da operação.
Álbum de família
 |
| Ainda
magro, em seu casamento: ganho de peso com a nova
rotina |
17 de novembro de 2002
Perdi 10 quilos no spa. Mas hoje não resisti
e devorei uma pizza de atum inteira. Foi a despedida.
A cirurgia está marcada para amanhã.
18
de novembro de 2002
A operação correu bem, mas sinto uma dor
lancinante na região do estômago. Passei
a noite à base de morfina.
19
de novembro de 2002
Em
minha primeira refeição depois da cirurgia,
tomei um copinho de 20 mililitros de chá em quatro
goles. Foi como se eu tivesse comido um churrasco de
picanha.
28
de novembro de 2002
Pela
primeira vez em muitos anos, consegui fazer uma caminhada
sem ficar exausto. Com 15 quilos a menos, começo
a sentir diferença.
3
de janeiro de 2003
Fui
ao clube com meus três filhos. Não sinto
mais vergonha da minha barriga.
15
de janeiro de 2003
Olhei
para o espelho e pensei: "Milagre, meu rosto desinchou".
Estou vendo meu pescoço de novo! Já consigo
amarrar o tênis sem usar um banquinho.
6
de março de 2003
Deixei
de ser cliente de loja de roupa para gordo. Pela primeira
vez em anos comprei roupas numa butique normal.
Álbum de família
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| Atleta
na juventude: três horas de esportes diariamente
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23 de julho de 2003
Estou
realizado. Voltei para o remo. Senti falta de fôlego,
mas o barco não virou. A sensação
foi tão plena quanto a de um beijo apaixonado.
30
de julho de 2003
O regime fez bem até para meu casamento. Eu e
minha mulher estamos vivendo uma nova lua-de-mel.
5
de agosto de 2003
Perdi
o controle e devorei a metade de um Big Mac. Senti um
dos piores enjôos da minha vida.
10
de setembro de 2003
A balança deu 100 quilos. Pulei de alegria feito
criança.
4
de março de 2004
Minha
vida está tão boa depois da cirurgia que,
quando encontro um obeso na rua, tomo a liberdade de
indicar a operação.
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