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Governo
"Por
favor, me
deixem trabalhar"
Irritado
com auxiliares e com a lentidão
da burocracia, Lula enfrenta a confluência
da crise política com as pressões por
mudanças na economia
Ana Araujo
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O presidente
Luiz Inácio Lula da Silva está impaciente. Nos últimos
dias, engolfado pela crise política deflagrada com o caso
Waldomiro Diniz e agora às voltas com pressões multilaterais
contra a política econômica, Lula encontra-se num momento
especial de sua gestão: nunca foi tão cobrado. Anda
irritado e resolveu até fazer despachos técnicos,
tarefa que antes ficava integralmente a cargo do ministro José
Dirceu, da Casa Civil. O presidente começou a sentir na pele
a lentidão da máquina burocrática e
está exasperado com isso. Na terça-feira passada,
durante reunião de cúpula no Palácio do Planalto,
os nervos do presidente explodiram. Estavam presentes os principais
ministros do governo. Além de José Dirceu, Antonio
Palocci e Luiz Gushiken, participaram do encontro Luiz Dulci, secretário-geral
do Planalto, Aldo Rebelo, coordenador político do governo,
e o ministro Jaques Wagner, que coordena o Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social (CDES). Foram quase cinco horas de reunião,
o dobro do habitual. E o tempo fechou. Ouviram-se socos na mesa,
e o presidente Lula derramou uma cachoeira de críticas abertas
e cobranças duras.
Lula
reclamou da "paralisia" da Secretaria de Comunicação,
comandada por seu velho chapa Luiz Gushiken, e criticou a capacidade
analítica do órgão no escândalo Waldomiro
Diniz. Também fez críticas a José Genoíno
pela divulgação de uma nota assinada pela cúpula
do PT em que se pedem mudanças na política econômica.
Para o presidente, a divulgação da nota contrária
ao governo é o símbolo da "falta de firmeza" de Genoíno
sobre o partido e só contribuiu para incensar ainda mais
as críticas à economia numa hora especialmente inadequada.
Além disso, Lula exigiu o fim da "guerra fria" entre os ministros
José Dirceu e Antonio Palocci, que costumam trocar amabilidades
em público, mas, em privado, vivem alfinetando-se. Entre
membros da equipe econômica, existe até quem acredite
que por trás da crítica à política de
Palocci na nota do PT haja o dedo mágico da Casa Civil de
José Dirceu. Ainda na longa reunião, o presidente
pediu o fim das pressões e contrapressões em torno
da política econômica e encerrou seu sermão
com uma frase emblemática da etapa que o governo está
atravessando: "Deixem o Palocci em paz. E, por favor, me deixem
trabalhar".
Celso Junior/AE
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CRUZANDO
OS BRAÇOS
Protesto de policiais em greve: além deles, outras
três categorias de servidores resolveram parar |
No
entanto, o que Palocci menos teve na semana passada foi paz. No
mesmo dia, na mesma terça-feira, o ministro Jaques Wagner
empinou a trombeta contra seu colega. Disse que a nota do PT estava
correta e acabou por defender o direito do partido de desqualificar
as políticas governamentais. "Se Palocci acha que opera melhor
sem que ninguém fale, isso é um desejo dele, mas a
vida não é só desejo", disse o ministro Wagner,
como se o pedido de Lula não passasse de um "desejo presidencial"
que cada ministro pode decidir a seu bel-prazer se cumpre ou não.
A pressão por mudanças na política econômica,
ou talvez apenas a ansiedade para que os bons resultados comecem
a aparecer de uma vez, espraiou-se por todos os lados da
esquerda à direita. O presidente da CUT, Luiz Marinho, acha
que o governo precisa dar ao mercado interno a mesma atenção
que dedicou ao aumento das exportações neste início
de governo. O deputado Delfim Netto, célebre czar da economia
no regime militar, diz que "tem qualquer coisa errada" com a atual
política econômica. Delfim acha que o preço
de insistir no atual caminho já custou caro demais ao país.
Na quinta-feira, quando se reuniu o Conselho de Desenvolvimento
Econômico e Social, em Brasília, as caravanas de empresários
e industriais que desembarcaram na capital engrossaram as críticas.
O
jogo está ficando tão pesado que, dentro do Palácio
do Planalto, já se ouvem sugestões explícitas
de que a política econômica teria prazo para mostrar
resultados julho deste ano. Se, até lá, os
bons números não tiverem aparecido, o governo daria
uma guinada. Até o momento, porém, essa hipótese
parece não encontrar respaldo fora do círculo dos
adversários da política econômica. Na semana
passada, em discurso no CDES, o presidente fez questão de
enterrar as especulações em torno de um "plano B"
ou de que a política econômica teria um prazo para
funcionar. "Tomei uma decisão", disse Lula. "Não é
justo que nós inventemos o 'Plano Palocci' ou o 'Plano Lula'
ou um plano qualquer para ter sucesso de meio dia ou meia hora.
Estamos apostando na credibilidade e na seriedade para não
fazer nenhuma coisa apressada", completou.
Helvio Romero/AE
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ELE
É DO CONTRA
Mantega, do Planejamento: uma voz contra a política
de Palocci |
Na
mesma oportunidade, Lula reafirmou a política econômica
e defendeu o ministro Palocci. Garantiu que a meta de inflação
anual continuará em 5,5%, o superávit nas contas públicas
será mantido em 4,25% neste ano e os juros só cairão
quando os preços não estiverem mais subindo. Lula
não deixou dúvidas de seu apoio a Palocci, mas também
não escondeu sua ansiedade com a demora nos resultados. "Não
há como a economia brasileira não crescer neste ano",
disse aos empresários. A convicção de Lula
repousa no fato de que, neste primeiro trimestre, a economia deve
crescer quase 1%, o que ajuda a manter a previsão de um crescimento
de 3,5% até o fim do ano. Nas pranchetas da equipe econômica,
consta que um sinal positivo foi a leve alta em janeiro, de 0,8%,
da produção industrial, pois o governo estava preparado
para que o resultado fosse negativo. Consta, também, a taxa
de inflação de fevereiro, de 0,6%, que ficou abaixo
do esperado.
Joedson Alves/AE
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E
ELE TAMBÉM
Jaques Wagner, que criticou Palocci, ignorando pedido
do presidente da República |
Além
de convencer platéias externas, o presidente Lula também
tem de acalmar os ânimos de seu público interno. Dentro
do governo, há uma tropa adversária da política
econômica que, aparentemente, está aproveitando este
momento de fragilidade política do governo, com a eclosão
do caso Waldomiro Diniz, para retomar seu discurso por juro baixo
já, crescimento rápido e um pouquinho de irresponsabilidade
fiscal. O ministro José Dirceu, que publicamente defende
as medidas econômicas, acha que Palocci deveria adotar uma
política com viés "progressista dentro da linha conservadora",
em vez de ser "conservador dentro do conservadorismo", como tem
dito a auxiliares próximos. Além de Dirceu, os ministros
Guido Mantega (Planejamento) e Ciro Gomes (Integração
Nacional) têm reparos a fazer na condução da
economia, além do vice-presidente José Alencar, que,
ainda no leito onde se recupera de uma cirurgia, fez questão
de repetir seu mantra contra a taxa de juros. Para complicar ainda
mais o quadro, começam a surgir rusgas entre o Banco Central
e o Ministério da Fazenda. Na equipe da Fazenda, é
possível perceber uma névoa de crítica à
lentidão na queda dos juros. É só uma névoa,
mas já é visível. O pronunciamento feito em
Nova York pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles,
que disse que a taxa de juros é "consistente" com a atual
fase da economia, serviu para turvar um pouco mais o ambiente. A
declaração de Meirelles sugeriu ao mercado que os
juros não serão reduzidos na próxima reunião
do Banco Central, nesta semana. Resultado: a bolsa caiu, o dólar
e o risco-país subiram.
Entre
alguns membros do governo e certa casta de petistas, parece faltar
a clareza de que o PT tem 30% dos eleitores do país, 50%
do eleitorado votou em Lula, mas ele foi eleito para governar 100%
dos brasileiros. O presidente não pode, portanto, ficar às
voltas com idiossincrasias partidárias, disputas miúdas
por nacos de poder ou preso a velhos laços de lealdade quando
esses laços viram nós. Até agora, Lula tem
dado sinais de que percebe essa situação, mas ainda
não encontrou o modo mais eficaz de superá-la. Nas
últimas semanas, o presidente tem avocado para si um enorme
volume de tarefas e compromissos, o que o tem deixado com aparência
cansada e abatida nas aparições públicas. Além
disso, os problemas não param de se avolumar, como se nota
nos protestos realizados na semana passada. Os policiais federais
entraram em greve, tumultuando os aeroportos com imensas filas de
passageiros, convidados a mostrar documentos. Os funcionários
da Receita Federal, aproveitando esta época de entrega das
declarações de imposto de renda, também resolveram
parar. Por fim, os procuradores da Fazenda Nacional e os servidores
da Advocacia-Geral da União também pararam. Talvez
a concentração de trabalho nas mãos do presidente
não seja o melhor caminho, mas, por enquanto, isso pelo menos
lhe tem dado a oportunidade de formar uma visão mais nítida
da máquina burocrática e, também, das debilidades
de sua equipe de auxiliares.
O
grosso de seu trabalho atual resulta da retirada de algumas tarefas
da alçada do ministro José Dirceu. Antes do escândalo
Waldomiro Diniz, se o ministro da Saúde, por exemplo, tinha
um projeto sobre farmácias populares, seu primeiro movimento
seria procurar o ministro José Dirceu. Na Casa Civil, o assunto
seria analisado, discutido, rediscutido e, só quando estivesse
devidamente amarrado, seria então levado ao presidente, que
bateria o martelo. Isso, agora, mudou. Lula tem recebido seus ministros
com mais freqüência e também vem fazendo questão
de participar de algumas discussões técnicas, como
a da abertura de linhas de crédito para a compra de caminhões
de transporte de carga. O projeto vinha sendo tocado pela Casa Civil.
Lula achou que não estava andando na velocidade adequada
e simplesmente resolveu tomá-lo para si. Com a desidratação
dos poderes de José Dirceu, há dois personagens que
parecem estar ganhando cada vez mais espaço junto ao presidente.
Um deles é o presidente da Câmara, o petista João
Paulo Cunha, ex-metalúrgico como o presidente. O outro é
o ministro do PC do B, Aldo Rebelo, que assumiu a coordenação
política do governo na reforma ministerial. O chamado núcleo
duro do governo está mais enfraquecido do que jamais esteve
e, no centro da debilidade, está José Dirceu,
que contratou um funcionário corrupto, alfineta-se com Antonio
Palocci, desentendeu-se com Luiz Gushiken e aborreceu o presidente.
Com
reportagem de
Leandra Peres,
Malu Gaspar e Thaís Oyama
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