Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Governo
"Por favor, me
deixem trabalhar"

Irritado com auxiliares e com a lentidão
da burocracia, Lula enfrenta a confluência
da crise política com as pressões por
mudanças na economia


Ana Araujo

Notícias diárias sobre o governo Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está impaciente. Nos últimos dias, engolfado pela crise política deflagrada com o caso Waldomiro Diniz e agora às voltas com pressões multilaterais contra a política econômica, Lula encontra-se num momento especial de sua gestão: nunca foi tão cobrado. Anda irritado e resolveu até fazer despachos técnicos, tarefa que antes ficava integralmente a cargo do ministro José Dirceu, da Casa Civil. O presidente começou a sentir na pele a lentidão da máquina burocrática – e está exasperado com isso. Na terça-feira passada, durante reunião de cúpula no Palácio do Planalto, os nervos do presidente explodiram. Estavam presentes os principais ministros do governo. Além de José Dirceu, Antonio Palocci e Luiz Gushiken, participaram do encontro Luiz Dulci, secretário-geral do Planalto, Aldo Rebelo, coordenador político do governo, e o ministro Jaques Wagner, que coordena o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES). Foram quase cinco horas de reunião, o dobro do habitual. E o tempo fechou. Ouviram-se socos na mesa, e o presidente Lula derramou uma cachoeira de críticas abertas e cobranças duras.

Lula reclamou da "paralisia" da Secretaria de Comunicação, comandada por seu velho chapa Luiz Gushiken, e criticou a capacidade analítica do órgão no escândalo Waldomiro Diniz. Também fez críticas a José Genoíno pela divulgação de uma nota assinada pela cúpula do PT em que se pedem mudanças na política econômica. Para o presidente, a divulgação da nota contrária ao governo é o símbolo da "falta de firmeza" de Genoíno sobre o partido e só contribuiu para incensar ainda mais as críticas à economia numa hora especialmente inadequada. Além disso, Lula exigiu o fim da "guerra fria" entre os ministros José Dirceu e Antonio Palocci, que costumam trocar amabilidades em público, mas, em privado, vivem alfinetando-se. Entre membros da equipe econômica, existe até quem acredite que por trás da crítica à política de Palocci na nota do PT haja o dedo mágico da Casa Civil de José Dirceu. Ainda na longa reunião, o presidente pediu o fim das pressões e contrapressões em torno da política econômica e encerrou seu sermão com uma frase emblemática da etapa que o governo está atravessando: "Deixem o Palocci em paz. E, por favor, me deixem trabalhar".


Celso Junior/AE
CRUZANDO OS BRAÇOS
Protesto de policiais em greve: além deles, outras três categorias de servidores resolveram parar

No entanto, o que Palocci menos teve na semana passada foi paz. No mesmo dia, na mesma terça-feira, o ministro Jaques Wagner empinou a trombeta contra seu colega. Disse que a nota do PT estava correta e acabou por defender o direito do partido de desqualificar as políticas governamentais. "Se Palocci acha que opera melhor sem que ninguém fale, isso é um desejo dele, mas a vida não é só desejo", disse o ministro Wagner, como se o pedido de Lula não passasse de um "desejo presidencial" que cada ministro pode decidir a seu bel-prazer se cumpre ou não. A pressão por mudanças na política econômica, ou talvez apenas a ansiedade para que os bons resultados comecem a aparecer de uma vez, espraiou-se por todos os lados – da esquerda à direita. O presidente da CUT, Luiz Marinho, acha que o governo precisa dar ao mercado interno a mesma atenção que dedicou ao aumento das exportações neste início de governo. O deputado Delfim Netto, célebre czar da economia no regime militar, diz que "tem qualquer coisa errada" com a atual política econômica. Delfim acha que o preço de insistir no atual caminho já custou caro demais ao país. Na quinta-feira, quando se reuniu o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, em Brasília, as caravanas de empresários e industriais que desembarcaram na capital engrossaram as críticas.

O jogo está ficando tão pesado que, dentro do Palácio do Planalto, já se ouvem sugestões explícitas de que a política econômica teria prazo para mostrar resultados – julho deste ano. Se, até lá, os bons números não tiverem aparecido, o governo daria uma guinada. Até o momento, porém, essa hipótese parece não encontrar respaldo fora do círculo dos adversários da política econômica. Na semana passada, em discurso no CDES, o presidente fez questão de enterrar as especulações em torno de um "plano B" ou de que a política econômica teria um prazo para funcionar. "Tomei uma decisão", disse Lula. "Não é justo que nós inventemos o 'Plano Palocci' ou o 'Plano Lula' ou um plano qualquer para ter sucesso de meio dia ou meia hora. Estamos apostando na credibilidade e na seriedade para não fazer nenhuma coisa apressada", completou.


Helvio Romero/AE
ELE É DO CONTRA
Mantega, do Planejamento: uma voz contra a política de Palocci

Na mesma oportunidade, Lula reafirmou a política econômica e defendeu o ministro Palocci. Garantiu que a meta de inflação anual continuará em 5,5%, o superávit nas contas públicas será mantido em 4,25% neste ano e os juros só cairão quando os preços não estiverem mais subindo. Lula não deixou dúvidas de seu apoio a Palocci, mas também não escondeu sua ansiedade com a demora nos resultados. "Não há como a economia brasileira não crescer neste ano", disse aos empresários. A convicção de Lula repousa no fato de que, neste primeiro trimestre, a economia deve crescer quase 1%, o que ajuda a manter a previsão de um crescimento de 3,5% até o fim do ano. Nas pranchetas da equipe econômica, consta que um sinal positivo foi a leve alta em janeiro, de 0,8%, da produção industrial, pois o governo estava preparado para que o resultado fosse negativo. Consta, também, a taxa de inflação de fevereiro, de 0,6%, que ficou abaixo do esperado.


Joedson Alves/AE
E ELE TAMBÉM
Jaques Wagner, que criticou Palocci, ignorando pedido do presidente da República

Além de convencer platéias externas, o presidente Lula também tem de acalmar os ânimos de seu público interno. Dentro do governo, há uma tropa adversária da política econômica que, aparentemente, está aproveitando este momento de fragilidade política do governo, com a eclosão do caso Waldomiro Diniz, para retomar seu discurso por juro baixo já, crescimento rápido e um pouquinho de irresponsabilidade fiscal. O ministro José Dirceu, que publicamente defende as medidas econômicas, acha que Palocci deveria adotar uma política com viés "progressista dentro da linha conservadora", em vez de ser "conservador dentro do conservadorismo", como tem dito a auxiliares próximos. Além de Dirceu, os ministros Guido Mantega (Planejamento) e Ciro Gomes (Integração Nacional) têm reparos a fazer na condução da economia, além do vice-presidente José Alencar, que, ainda no leito onde se recupera de uma cirurgia, fez questão de repetir seu mantra contra a taxa de juros. Para complicar ainda mais o quadro, começam a surgir rusgas entre o Banco Central e o Ministério da Fazenda. Na equipe da Fazenda, é possível perceber uma névoa de crítica à lentidão na queda dos juros. É só uma névoa, mas já é visível. O pronunciamento feito em Nova York pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que disse que a taxa de juros é "consistente" com a atual fase da economia, serviu para turvar um pouco mais o ambiente. A declaração de Meirelles sugeriu ao mercado que os juros não serão reduzidos na próxima reunião do Banco Central, nesta semana. Resultado: a bolsa caiu, o dólar e o risco-país subiram.

Entre alguns membros do governo e certa casta de petistas, parece faltar a clareza de que o PT tem 30% dos eleitores do país, 50% do eleitorado votou em Lula, mas ele foi eleito para governar 100% dos brasileiros. O presidente não pode, portanto, ficar às voltas com idiossincrasias partidárias, disputas miúdas por nacos de poder ou preso a velhos laços de lealdade quando esses laços viram nós. Até agora, Lula tem dado sinais de que percebe essa situação, mas ainda não encontrou o modo mais eficaz de superá-la. Nas últimas semanas, o presidente tem avocado para si um enorme volume de tarefas e compromissos, o que o tem deixado com aparência cansada e abatida nas aparições públicas. Além disso, os problemas não param de se avolumar, como se nota nos protestos realizados na semana passada. Os policiais federais entraram em greve, tumultuando os aeroportos com imensas filas de passageiros, convidados a mostrar documentos. Os funcionários da Receita Federal, aproveitando esta época de entrega das declarações de imposto de renda, também resolveram parar. Por fim, os procuradores da Fazenda Nacional e os servidores da Advocacia-Geral da União também pararam. Talvez a concentração de trabalho nas mãos do presidente não seja o melhor caminho, mas, por enquanto, isso pelo menos lhe tem dado a oportunidade de formar uma visão mais nítida da máquina burocrática e, também, das debilidades de sua equipe de auxiliares.

O grosso de seu trabalho atual resulta da retirada de algumas tarefas da alçada do ministro José Dirceu. Antes do escândalo Waldomiro Diniz, se o ministro da Saúde, por exemplo, tinha um projeto sobre farmácias populares, seu primeiro movimento seria procurar o ministro José Dirceu. Na Casa Civil, o assunto seria analisado, discutido, rediscutido e, só quando estivesse devidamente amarrado, seria então levado ao presidente, que bateria o martelo. Isso, agora, mudou. Lula tem recebido seus ministros com mais freqüência e também vem fazendo questão de participar de algumas discussões técnicas, como a da abertura de linhas de crédito para a compra de caminhões de transporte de carga. O projeto vinha sendo tocado pela Casa Civil. Lula achou que não estava andando na velocidade adequada e simplesmente resolveu tomá-lo para si. Com a desidratação dos poderes de José Dirceu, há dois personagens que parecem estar ganhando cada vez mais espaço junto ao presidente. Um deles é o presidente da Câmara, o petista João Paulo Cunha, ex-metalúrgico como o presidente. O outro é o ministro do PC do B, Aldo Rebelo, que assumiu a coordenação política do governo na reforma ministerial. O chamado núcleo duro do governo está mais enfraquecido do que jamais esteve – e, no centro da debilidade, está José Dirceu, que contratou um funcionário corrupto, alfineta-se com Antonio Palocci, desentendeu-se com Luiz Gushiken e aborreceu o presidente.

Com reportagem de Leandra Peres,
Malu Gaspar e Thaís Oyama

 
 
 
 
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