Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Terror
Um espectro ronda a Europa

É o do terrorismo que mata e mutila
homens e mulheres, para matar
e mutilar valores e princípios


Mario Sabino

 
Reuters
AFP
BARREIRA HUMANA E HUMANISTA
O presidente francês Jacques Chirac, na comemoração do bicentenário do Código Civil, e uma manifestação em Madri: em favor da civilização

O terrorismo é um espectro que ronda a Europa. Ou melhor, uma idéia de Europa. A melhor idéia já surgida nos últimos cinqüenta anos, e que leva um nome cuja singeleza esconde uma trama de complicações seculares: União Européia. A organização, que hoje se estende da Escandinávia ao Mediterrâneo, do Atlântico Norte até as portas da Rússia, costuma estar mais presente no noticiário econômico. Há a União Européia dos escandalosos subsídios agrícolas e existe aquela das folclóricas discussões sobre a legislação sanitária dos queijos. Não muito longe, nas páginas dedicadas aos acontecimentos internacionais, apresenta-se, vez por outra, uma União Européia que hesita na hora de mostrar os músculos em cenários conflagrados. A idéia de Europa, contudo, não deve ser reduzida às mesquinhas dimensões do dia-a-dia. Ela é, antes de mais nada, uma delicada obra-prima da política – acalentada, projetada e executada pacientemente por países que, não faz tanto tempo assim, se enfrentavam em guerras cruentas, movidas pelo combustível do nacionalismo, do racismo e da intolerância religiosa.

Tais são os pesadelos que a idéia de Europa vem procurando enterrar e que o terrorismo, não importa se o autor é basco ou muçulmano, tenta ressuscitar a todo custo, como demonstram os quase 200 mortos em Madri. O terror mata e mutila homens e mulheres, para matar e mutilar valores e princípios humanistas. O seu objetivo é o que filósofos modernos chamam de retribalização, a volta à tribo. Re-tribalizar é excluir o diferente, impedir a mistura, engessar as instituições. O dado perverso é que, para combater o terrorismo, um dos caminhos é o da própria retribalização. Os Estados Unidos de George W. Bush enveredaram por ele. As entranhas policialescas da sociedade americana, quase invisíveis antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, agora estão expostas de maneira despudorada. A pretexto de deter facínoras como os que derrubaram as torres gêmeas, o aparato de controle governamental limita as liberdades civis e faz descer uma cortina de ferro sobre as fronteiras. Ganharam força a xenofobia e o isolamento, tentações que assombram os Estados Unidos desde sempre e que – também desde sempre – se contrapõem às melhores virtudes do liberalismo americano. Não é um exagero dizer que, nesse sentido, o terror alcançou uma vitória.

A retribalização da Europa, no entanto, acarretaria um prejuízo bem maior. Levada às últimas conseqüências, implodiria uma experiência que pode servir de exemplo ao mundo. Fechar fronteiras, limitar o trânsito entre os países, espionar e controlar os passos dos milhões de imigrantes africanos e asiáticos que compõem uma porcentagem significativa das populações da França, Inglaterra, Alemanha e Espanha – como levar a cabo essas medidas sem destruir o frágil esqueleto de um possível Estado supranacional? Sem reavivar as hostilidades de cunho nacionalista e racista que tanto mancharam a história européia e que ainda permanecem enquistadas?

Foi na Europa do século XVIII que nasceu o conceito de nação tal como o conhecemos. É na Europa do século XXI que esse conceito poderá deixar de ser visto como verdade natural e, portanto, imutável. Foi na Europa de 200 anos atrás que emergiram as noções de liberdade individual, de igualdade perante a lei e de fraternidade entre os povos (coincidentemente, o presidente Jacques Chirac comemorava o bicentenário do Código Civil francês, a melhor tradução desses valores, quando foi avisado dos atentados na Espanha). Não pode ser na Europa do século XXI que essas noções se perderão.

É contra a civilização, enfim, que o terrorismo atenta. Foi em favor da civilização que multidões tomaram espontaneamente as ruas das maiores cidades espanholas. Nos gritos de "basta", nas mãos pintadas de branco, nos braços entrelaçados, nas faixas com frases de espanto e repúdio, nas velas acesas pelas vítimas do atentado, a barreira contra o terror não era só humana. Era também humanista. A do humanismo europeu que precisa sobreviver, a despeito de todas as ameaças.

 
 
 
 
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