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Terror
Um espectro ronda a Europa
É
o do terrorismo que mata e mutila
homens e mulheres, para matar
e mutilar valores e princípios

Mario
Sabino
Reuters
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AFP
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BARREIRA
HUMANA E
HUMANISTA
O presidente francês Jacques Chirac, na comemoração
do bicentenário do Código Civil, e uma manifestação
em Madri: em favor da civilização |
O
terrorismo é um espectro que ronda a Europa. Ou melhor, uma
idéia de Europa. A melhor idéia já surgida
nos últimos cinqüenta anos, e que leva um nome cuja
singeleza esconde uma trama de complicações seculares:
União Européia. A organização, que hoje
se estende da Escandinávia ao Mediterrâneo, do Atlântico
Norte até as portas da Rússia, costuma estar mais
presente no noticiário econômico. Há a União
Européia dos escandalosos subsídios agrícolas
e existe aquela das folclóricas discussões sobre a
legislação sanitária dos queijos. Não
muito longe, nas páginas dedicadas aos acontecimentos internacionais,
apresenta-se, vez por outra, uma União Européia que
hesita na hora de mostrar os músculos em cenários
conflagrados. A idéia de Europa, contudo, não deve
ser reduzida às mesquinhas dimensões do dia-a-dia.
Ela é, antes de mais nada, uma delicada obra-prima da política
acalentada, projetada e executada pacientemente por países
que, não faz tanto tempo assim, se enfrentavam em guerras
cruentas, movidas pelo combustível do nacionalismo, do racismo
e da intolerância religiosa.
Tais
são os pesadelos que a idéia de Europa vem procurando
enterrar e que o terrorismo, não importa se o autor é
basco ou muçulmano, tenta ressuscitar a todo custo, como
demonstram os quase 200 mortos em Madri. O terror mata e mutila
homens e mulheres, para matar e mutilar valores e princípios
humanistas. O seu objetivo é o que filósofos modernos
chamam de retribalização, a volta à tribo.
Re-tribalizar é excluir o diferente, impedir a mistura, engessar
as instituições. O dado perverso é que, para
combater o terrorismo, um dos caminhos é o da própria
retribalização. Os Estados Unidos de George W. Bush
enveredaram por ele. As entranhas policialescas da sociedade americana,
quase invisíveis antes dos atentados de 11 de setembro de
2001, agora estão expostas de maneira despudorada. A pretexto
de deter facínoras como os que derrubaram as torres gêmeas,
o aparato de controle governamental limita as liberdades civis e
faz descer uma cortina de ferro sobre as fronteiras. Ganharam força
a xenofobia e o isolamento, tentações que assombram
os Estados Unidos desde sempre e que também desde
sempre se contrapõem às melhores virtudes do
liberalismo americano. Não é um exagero dizer que,
nesse sentido, o terror alcançou uma vitória.
A
retribalização da Europa, no entanto, acarretaria
um prejuízo bem maior. Levada às últimas conseqüências,
implodiria uma experiência que pode servir de exemplo ao mundo.
Fechar fronteiras, limitar o trânsito entre os países,
espionar e controlar os passos dos milhões de imigrantes
africanos e asiáticos que compõem uma porcentagem
significativa das populações da França, Inglaterra,
Alemanha e Espanha como levar a cabo essas medidas sem destruir
o frágil esqueleto de um possível Estado supranacional?
Sem reavivar as hostilidades de cunho nacionalista e racista que
tanto mancharam a história européia e que ainda permanecem
enquistadas?
Foi
na Europa do século XVIII que nasceu o conceito de nação
tal como o conhecemos. É na Europa do século XXI que
esse conceito poderá deixar de ser visto como verdade natural
e, portanto, imutável. Foi na Europa de 200 anos atrás
que emergiram as noções de liberdade individual, de
igualdade perante a lei e de fraternidade entre os povos (coincidentemente,
o presidente Jacques Chirac comemorava o bicentenário do
Código Civil francês, a melhor tradução
desses valores, quando foi avisado dos atentados na Espanha). Não
pode ser na Europa do século XXI que essas noções
se perderão.
É
contra a civilização, enfim, que o terrorismo atenta.
Foi em favor da civilização que multidões tomaram
espontaneamente as ruas das maiores cidades espanholas. Nos gritos
de "basta", nas mãos pintadas de branco, nos braços
entrelaçados, nas faixas com frases de espanto e repúdio,
nas velas acesas pelas vítimas do atentado, a barreira contra
o terror não era só humana. Era também humanista.
A do humanismo europeu que precisa sobreviver, a despeito de todas
as ameaças.
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