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Internacional
11
de março de 2004
O século marcado
pelo signo do terror
O
século foi inaugurado pelo ataque às torres
gêmeas de Nova York. Desde então, o mundo vive sob
a ameaça de terroristas sem rosto,
com bandeiras difusas, empenhados
na matança de inocentes

Jaime
Klintowitz
Reuters
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MANHÃ
DE TERROR
Cenas de destruição e desespero na Estação Atocha, no centro
de Madri: sete bombas detonadas no horário de maior movimento
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Onze
de março de 2004 terá na memória dos espanhóis
o mesmo peso que o 11 de setembro de 2001 tem para os americanos
o dia da infâmia terrorista. A série de bombas
que matou 200 pessoas e deixou quase 1.500 feridos em quatro trens
metropolitanos em Madri, na quinta-feira passada, foi a maior carnificina
numa grande capital européia desde a II Guerra. O crime monstruoso,
perpetrado contra vítimas inocentes a caminho do trabalho,
deixou uma dúvida: o autor. Inicialmente, o governo espanhol
acusou o grupo separatista basco ETA, que já matou mais de
800 pessoas nos últimos 35 anos. Mais tarde surgiram indícios
de que se poderia tratar de nova investida dos fanáticos
da Al Qaeda, a organização muçulmana responsável
pela derrubada das torres gêmeas de Nova York. Tenha sido
um ou outro, o veneno derramado em Madri vem do mesmo subterrâneo
moral que mantém o mundo em suspense, o terrorismo. Salta
aos olhos a semelhança de objetivo e escala entre o 11 de
março e o 11 de setembro: fazer a maior quantidade possível
de vítimas civis com espetaculares ataques múltiplos.
Há
momentos na trajetória da humanidade que representam viradas
históricas. São eventos cuja repercussão obscurece
acontecimentos menores e servem para definir toda uma era. Estamos
apenas no quarto ano de um período de 100. Mas, pela complexidade
dos ataques terroristas, pela ousadia dos atacantes, pela facilidade
com que cometem suas ações e pelo crescente poderio
das armas utilizadas, já podemos dizer que o terror é
o pecado original do século XXI. A ascensão dessa
modalidade de violência ao centro do cenário se deve,
na definição do americano Walter Laqueur, um dos mais
respeitados estudiosos do fenômeno, à combinação
de fanatismo e armas eficientes num quadro de crescente vulnerabilidade
das sociedades dos países desenvolvidos. "Nunca antes, na
história humana, pequenos grupos tiveram tal poder de destruição",
escreveu Laqueur.
AP
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GRITO
DE REVOLTA
Manifestantes levantam as mãos e pedem paz em Madri: adesão
maciça ao protesto que parou a Espanha por quinze minutos na
sexta-feira |
A
pedra inaugural do século foram os ataques aos Estados Unidos
em 11 de setembro. O massacre de Madri, na semana passada, marcou
um ponto de virada. Confirma a percepção dos especialistas
de que terroristas de todos os matizes abraçaram o modus
operandi islâmico. A lógica consagrada pela turma
de Osama bin Laden consiste em derramar o sangue de inocentes de
modo tão espetacular que não possa ser ignorado pelos
governos, pela mídia ou pelo homem comum nas ruas. Apesar
de o terrorismo ser o mal do século XXI, suas origens se
perdem na Antiguidade. A vertente contemporânea tem raízes
nos anarquistas do século XIX. Eles acreditavam que a melhor
forma de promover mudanças sociais e políticas era
assassinar os poderosos. No século passado, por ideologia
e oportunismo, muitos países passaram a financiar e organizar
o terrorismo internacional, freqüentemente sob o argumento
de apoiar movimentos de libertação nacional. Esse
pretexto está no cerne de um debate em aberto: como estabelecer
a diferença entre terrorismo e outras formas de violência
política. A resposta encontrada por cientistas sociais é
um conceito que não se preocupa com a criminalidade do ato,
e sim com o fato de a vítima da violência terrorista
ser quase sempre o civil. Em outras palavras, o terrorismo não
é uma doutrina, uma plataforma política ou uma religião.
É uma forma de violência que pode ser usada tanto à
esquerda como à direita, por seitas religiosas ou por qualquer
outro grupo. Caracteriza-se pela atrocidade cometida contra civis
indefesos.
Os
movimentos de independência do Terceiro Mundo criaram a ilusão
de que o terrorismo é uma forma cruel e extremada de defender
uma causa que, no final das contas, se revelou justa. É verdade
que a luta armada não tira a legitimidade de um movimento
de libertação nacional. Por outro lado, nenhuma causa,
por mais justa que pareça, justifica a matança indiscriminada
de pessoas indefesas. Há confusão, inclusive na imprensa
e na universidade, entre guerrilha e terrorismo. A primeira, uma
modalidade de luta armada conduzida por forças irregulares,
foi bem-sucedida nas lutas anticolonialistas logo após a
II Guerra. Nos anos 70, quando praticamente não havia mais
guerras de guerrilha, o terrorismo ressurgiu na Europa, no Oriente
Médio e na América Latina, quase todo de extrema esquerda.
Essa associação alimentou a idéia de que ele
decorria da pobreza e da opressão e que sumiria tão
logo deixasse de existir a injustiça social e política.
Essa visão com foco na existência de uma "causa justa"
ajudou a impedir que o terrorismo fosse enfrentado com toda a força
que sua virulência exige.
AFP
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MORTE
NO
TREM
Acima, equipes de resgate removem os escombros da marquise
da Estação Atocha para retirar o corpo do passageiro
de um dos trens destruídos pelo atentado a bomba; abaixo,
um urso de pelúcia e o cartaz "Para as crianças,
vítimas de um ataque injusto", durante a vigília
do lado de fora da Estação Santa Eugenia, outro
local devastado pela explosão de uma bomba
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AP
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A
comunidade internacional sempre empurrou a questão com a
barriga. Em 1972, quando onze atletas israelenses foram mortos num
atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, o então
secretário-geral das Nações Unidas, o austríaco
Kurt Waldheim, tentou levar a ONU a uma ação mais
decidida contra o terror. Foi derrotado pelo argumento apresentado
pelos países árabes de que os movimentos tachados
de terroristas apenas lutavam a favor de direitos fundamentais,
como liberdade e independência, e contra o racismo e o colonialismo.
Venceu então a tese de que um povo que luta pela própria
independência tem o direito de apelar para atos terroristas.
Engenhosa em sua formulação, a teoria abriu a porta
a abusos de toda ordem. A explosão dos trens espanhóis
pulveriza qualquer ilusão que possa ter restado a respeito
do terrorismo como arma de uma guerra justa.
"O
efeito que os militantes perseguem é o de apresentar o grupo
terrorista como um ator cruel, poderoso e carente de inibições
na hora de utilizar o terror", escreveu o espanhol Rogelio Alonso,
especialista nas relações entre o ETA e seu congênere
irlandês, o IRA. Em tese, publicou El País,
o principal jornal espanhol, a crueldade sem limites procura criar
uma situação insuportável para a população.
Dessa forma, na lógica do terror, os cidadãos acabam
exigindo do poder público que afaste o perigo mesmo que seja
obrigado a ceder às exigências dos terroristas. A imediata
e comovente reação dos espanhóis indo às
ruas para protestar contra o terrorismo mostrou que a lógica
do terror, felizmente, pode estar equivocada. Os cidadãos,
tanto ou mais do que o governo, querem que o terror seja combatido.
Até mesmo porque os terroristas desse começo de século
não têm exigências que possam ser atendidas.
Esse é seu truque mais diabólico.
A
bandeira erguida pelos grupos terroristas árabes e islâmicos
é tão difusa que não há possibilidade
de conciliação. Uma carta atribuída a um grupo
islâmico diz que os atentados em Madri foram a resposta ao
apoio espanhol à invasão americana do Iraque. Trata-se
de uma explicação oportunista. Os terroristas não
precisaram de nenhum pretexto objetivo para destruir as torres gêmeas
do World Trade Center, em 2001. O ETA, cujo nome completo, Euskadi
Ta Askatasuna, significa Pátria Basca e Liberdade, mata desde
os anos 60. A Espanha estava então sob uma ditadura fascista
e a língua basca era proibida. Quatro décadas depois,
o país é uma democracia invejável e próspera.
A região basca tem autonomia e a educação é
bilíngüe. Uma enquete recente mostrou que 32% dos bascos
estão satisfeitos com a situação, 31% gostariam
de um modelo federativo, com maior autonomia, e apenas 31% são
favoráveis à independência. Significa que o
ETA, cuja plataforma é o separatismo, distanciou-se totalmente
da vontade do País Basco.
A
opinião da maioria dos espanhóis inclusive
entre os bascos foi manifestada de forma magnífica.
Ao meio-dia de sexta-feira, 11 milhões de espanhóis
cruzaram os braços por quinze minutos em protesto contra
a matança. À noite, cerca de 2 milhões de pessoas
enfrentaram a chuva forte em Madri e formaram uma maré humana
de 2 quilômetros que participou de um protesto no centro da
capital. "Todos estávamos naqueles trens" era o refrão
da multidão. Em toda a Espanha, foram 11 milhões de
manifestantes, 27% da população.
Nos
últimos dois anos, a organização do ETA foi
quase totalmente desmantelada pela polícia. A maioria dos
dirigentes está na cadeia e estima-se que a quantidade de
militantes não ultrapasse 250. O número diminuto serve
para ressaltar o perigo. O terrorista desse início de século
é o membro anônimo de um grupo com mentalidade de seita,
cuja motivação é uma incógnita para
o mundo exterior. O israelense Amós Oz escreveu: "O terrorismo
atua como a heroína: as doses precisam ser cada vez mais
fortes para que o efeito se mantenha".
Walter
Laqueur diz que não é politicamente correto admitir,
mas há em muitos terroristas um elemento de loucura. "Nem
todos os paranóicos são terroristas", escreveu. "Mas
a maioria dos terroristas acredita numa conspiração
global gigantesca de um inimigo todo-poderoso, satânico, que
tem de ser destruído." Esse componente de insanidade é
uma das complicações do terrorismo contemporâneo.
Osama bin Laden e os seus não querem destruir o mundo, é
bom que se diga, mas apenas a civilização ocidental,
seguindo pela conversão do restante da humanidade ao islamismo.
Como deve a comunidade internacional lidar com um homem movido por
tal objetivo?
A
Europa está agora diante de um dilema ainda maior que o enfrentado
pelos Estados Unidos depois de 11 de setembro (veja
reportagem na pág. 50). Se o ataque foi obra
dos separatistas bascos, sinaliza o fracasso dos Estados europeus
em lidar com suas minorias nacionais. É um paradoxo. A União
Européia diluiu as fronteiras econômicas e culturais
do continente, mas persiste a pressão de populações
regionais por autonomia ou até pela independência.
Se o atentado foi obra de extremistas islâmicos, a situação
é ainda mais complexa. Primeiro, torna ingênuas as
restrições manifestadas pelos europeus alemães
e franceses principalmente à guerra americana ao terror.
O continente terá agora de ser mais compreensivo em relação
aos países que enfrentam com medidas duras o terrorismo.
Segundo, obriga os europeus a confrontar o perigo representado por
parcelas radicais incrustadas em suas grandes populações
de religião muçulmana. Como fazer isso sem arranhar
a tolerância com as minorias, uma das qualidades do Ocidente
que o fundamentalismo islâmico mais odeia? Terceiro, a Europa
Ocidental nunca mais será a mesma. Cada viagem de metrô
ou ônibus pode se tornar uma aventura mortal, como já
é o caso em Moscou e Jerusalém.
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