Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Internacional
11 de março de 2004
O século marcado
pelo signo do terror

O século foi inaugurado pelo ataque às torres
gêmeas de Nova York. Desde então, o mundo vive sob a ameaça de terroristas sem rosto,
com bandeiras difusas, empenhados
na matança de inocentes


Jaime Klintowitz

 
Reuters
MANHÃ DE TERROR
Cenas de destruição e desespero na Estação Atocha, no centro de Madri: sete bombas detonadas no horário de maior movimento


Carnificina na hora do rush
NA INTERNET
Em Profundidade: Terror Internacional
Galeria de foto: luto na Espanha

Onze de março de 2004 terá na memória dos espanhóis o mesmo peso que o 11 de setembro de 2001 tem para os americanos – o dia da infâmia terrorista. A série de bombas que matou 200 pessoas e deixou quase 1.500 feridos em quatro trens metropolitanos em Madri, na quinta-feira passada, foi a maior carnificina numa grande capital européia desde a II Guerra. O crime monstruoso, perpetrado contra vítimas inocentes a caminho do trabalho, deixou uma dúvida: o autor. Inicialmente, o governo espanhol acusou o grupo separatista basco ETA, que já matou mais de 800 pessoas nos últimos 35 anos. Mais tarde surgiram indícios de que se poderia tratar de nova investida dos fanáticos da Al Qaeda, a organização muçulmana responsável pela derrubada das torres gêmeas de Nova York. Tenha sido um ou outro, o veneno derramado em Madri vem do mesmo subterrâneo moral que mantém o mundo em suspense, o terrorismo. Salta aos olhos a semelhança de objetivo e escala entre o 11 de março e o 11 de setembro: fazer a maior quantidade possível de vítimas civis com espetaculares ataques múltiplos.

Há momentos na trajetória da humanidade que representam viradas históricas. São eventos cuja repercussão obscurece acontecimentos menores e servem para definir toda uma era. Estamos apenas no quarto ano de um período de 100. Mas, pela complexidade dos ataques terroristas, pela ousadia dos atacantes, pela facilidade com que cometem suas ações e pelo crescente poderio das armas utilizadas, já podemos dizer que o terror é o pecado original do século XXI. A ascensão dessa modalidade de violência ao centro do cenário se deve, na definição do americano Walter Laqueur, um dos mais respeitados estudiosos do fenômeno, à combinação de fanatismo e armas eficientes num quadro de crescente vulnerabilidade das sociedades dos países desenvolvidos. "Nunca antes, na história humana, pequenos grupos tiveram tal poder de destruição", escreveu Laqueur.

 
AP
GRITO DE REVOLTA
Manifestantes levantam as mãos e pedem paz em Madri: adesão maciça ao protesto que parou a Espanha por quinze minutos na sexta-feira

A pedra inaugural do século foram os ataques aos Estados Unidos em 11 de setembro. O massacre de Madri, na semana passada, marcou um ponto de virada. Confirma a percepção dos especialistas de que terroristas de todos os matizes abraçaram o modus operandi islâmico. A lógica consagrada pela turma de Osama bin Laden consiste em derramar o sangue de inocentes de modo tão espetacular que não possa ser ignorado pelos governos, pela mídia ou pelo homem comum nas ruas. Apesar de o terrorismo ser o mal do século XXI, suas origens se perdem na Antiguidade. A vertente contemporânea tem raízes nos anarquistas do século XIX. Eles acreditavam que a melhor forma de promover mudanças sociais e políticas era assassinar os poderosos. No século passado, por ideologia e oportunismo, muitos países passaram a financiar e organizar o terrorismo internacional, freqüentemente sob o argumento de apoiar movimentos de libertação nacional. Esse pretexto está no cerne de um debate em aberto: como estabelecer a diferença entre terrorismo e outras formas de violência política. A resposta encontrada por cientistas sociais é um conceito que não se preocupa com a criminalidade do ato, e sim com o fato de a vítima da violência terrorista ser quase sempre o civil. Em outras palavras, o terrorismo não é uma doutrina, uma plataforma política ou uma religião. É uma forma de violência que pode ser usada tanto à esquerda como à direita, por seitas religiosas ou por qualquer outro grupo. Caracteriza-se pela atrocidade cometida contra civis indefesos.

Os movimentos de independência do Terceiro Mundo criaram a ilusão de que o terrorismo é uma forma cruel e extremada de defender uma causa que, no final das contas, se revelou justa. É verdade que a luta armada não tira a legitimidade de um movimento de libertação nacional. Por outro lado, nenhuma causa, por mais justa que pareça, justifica a matança indiscriminada de pessoas indefesas. Há confusão, inclusive na imprensa e na universidade, entre guerrilha e terrorismo. A primeira, uma modalidade de luta armada conduzida por forças irregulares, foi bem-sucedida nas lutas anticolonialistas logo após a II Guerra. Nos anos 70, quando praticamente não havia mais guerras de guerrilha, o terrorismo ressurgiu na Europa, no Oriente Médio e na América Latina, quase todo de extrema esquerda. Essa associação alimentou a idéia de que ele decorria da pobreza e da opressão e que sumiria tão logo deixasse de existir a injustiça social e política. Essa visão com foco na existência de uma "causa justa" ajudou a impedir que o terrorismo fosse enfrentado com toda a força que sua virulência exige.

 
AFP

MORTE NO TREM
Acima, equipes de resgate removem os escombros da marquise da Estação Atocha para retirar o corpo do passageiro de um dos trens destruídos pelo atentado a bomba; abaixo, um urso de pelúcia e o cartaz "Para as crianças, vítimas de um ataque injusto", durante a vigília do lado de fora da Estação Santa Eugenia, outro local devastado pela explosão de uma bomba

AP

A comunidade internacional sempre empurrou a questão com a barriga. Em 1972, quando onze atletas israelenses foram mortos num atentado terrorista nas Olimpíadas de Munique, o então secretário-geral das Nações Unidas, o austríaco Kurt Waldheim, tentou levar a ONU a uma ação mais decidida contra o terror. Foi derrotado pelo argumento apresentado pelos países árabes de que os movimentos tachados de terroristas apenas lutavam a favor de direitos fundamentais, como liberdade e independência, e contra o racismo e o colonialismo. Venceu então a tese de que um povo que luta pela própria independência tem o direito de apelar para atos terroristas. Engenhosa em sua formulação, a teoria abriu a porta a abusos de toda ordem. A explosão dos trens espanhóis pulveriza qualquer ilusão que possa ter restado a respeito do terrorismo como arma de uma guerra justa.

"O efeito que os militantes perseguem é o de apresentar o grupo terrorista como um ator cruel, poderoso e carente de inibições na hora de utilizar o terror", escreveu o espanhol Rogelio Alonso, especialista nas relações entre o ETA e seu congênere irlandês, o IRA. Em tese, publicou El País, o principal jornal espanhol, a crueldade sem limites procura criar uma situação insuportável para a população. Dessa forma, na lógica do terror, os cidadãos acabam exigindo do poder público que afaste o perigo mesmo que seja obrigado a ceder às exigências dos terroristas. A imediata e comovente reação dos espanhóis indo às ruas para protestar contra o terrorismo mostrou que a lógica do terror, felizmente, pode estar equivocada. Os cidadãos, tanto ou mais do que o governo, querem que o terror seja combatido. Até mesmo porque os terroristas desse começo de século não têm exigências que possam ser atendidas. Esse é seu truque mais diabólico.

A bandeira erguida pelos grupos terroristas árabes e islâmicos é tão difusa que não há possibilidade de conciliação. Uma carta atribuída a um grupo islâmico diz que os atentados em Madri foram a resposta ao apoio espanhol à invasão americana do Iraque. Trata-se de uma explicação oportunista. Os terroristas não precisaram de nenhum pretexto objetivo para destruir as torres gêmeas do World Trade Center, em 2001. O ETA, cujo nome completo, Euskadi Ta Askatasuna, significa Pátria Basca e Liberdade, mata desde os anos 60. A Espanha estava então sob uma ditadura fascista e a língua basca era proibida. Quatro décadas depois, o país é uma democracia invejável e próspera. A região basca tem autonomia e a educação é bilíngüe. Uma enquete recente mostrou que 32% dos bascos estão satisfeitos com a situação, 31% gostariam de um modelo federativo, com maior autonomia, e apenas 31% são favoráveis à independência. Significa que o ETA, cuja plataforma é o separatismo, distanciou-se totalmente da vontade do País Basco.

A opinião da maioria dos espanhóis – inclusive entre os bascos – foi manifestada de forma magnífica. Ao meio-dia de sexta-feira, 11 milhões de espanhóis cruzaram os braços por quinze minutos em protesto contra a matança. À noite, cerca de 2 milhões de pessoas enfrentaram a chuva forte em Madri e formaram uma maré humana de 2 quilômetros que participou de um protesto no centro da capital. "Todos estávamos naqueles trens" era o refrão da multidão. Em toda a Espanha, foram 11 milhões de manifestantes, 27% da população.

Nos últimos dois anos, a organização do ETA foi quase totalmente desmantelada pela polícia. A maioria dos dirigentes está na cadeia e estima-se que a quantidade de militantes não ultrapasse 250. O número diminuto serve para ressaltar o perigo. O terrorista desse início de século é o membro anônimo de um grupo com mentalidade de seita, cuja motivação é uma incógnita para o mundo exterior. O israelense Amós Oz escreveu: "O terrorismo atua como a heroína: as doses precisam ser cada vez mais fortes para que o efeito se mantenha".

Walter Laqueur diz que não é politicamente correto admitir, mas há em muitos terroristas um elemento de loucura. "Nem todos os paranóicos são terroristas", escreveu. "Mas a maioria dos terroristas acredita numa conspiração global gigantesca de um inimigo todo-poderoso, satânico, que tem de ser destruído." Esse componente de insanidade é uma das complicações do terrorismo contemporâneo. Osama bin Laden e os seus não querem destruir o mundo, é bom que se diga, mas apenas a civilização ocidental, seguindo pela conversão do restante da humanidade ao islamismo. Como deve a comunidade internacional lidar com um homem movido por tal objetivo?

A Europa está agora diante de um dilema ainda maior que o enfrentado pelos Estados Unidos depois de 11 de setembro (veja reportagem na pág. 50). Se o ataque foi obra dos separatistas bascos, sinaliza o fracasso dos Estados europeus em lidar com suas minorias nacionais. É um paradoxo. A União Européia diluiu as fronteiras econômicas e culturais do continente, mas persiste a pressão de populações regionais por autonomia ou até pela independência. Se o atentado foi obra de extremistas islâmicos, a situação é ainda mais complexa. Primeiro, torna ingênuas as restrições manifestadas pelos europeus – alemães e franceses principalmente – à guerra americana ao terror. O continente terá agora de ser mais compreensivo em relação aos países que enfrentam com medidas duras o terrorismo. Segundo, obriga os europeus a confrontar o perigo representado por parcelas radicais incrustadas em suas grandes populações de religião muçulmana. Como fazer isso sem arranhar a tolerância com as minorias, uma das qualidades do Ocidente que o fundamentalismo islâmico mais odeia? Terceiro, a Europa Ocidental nunca mais será a mesma. Cada viagem de metrô ou ônibus pode se tornar uma aventura mortal, como já é o caso em Moscou e Jerusalém.

 
 
 
 
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