Edição 1845 . 17 de março de 2004

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Entrevista: Boris Fausto
"Falta visão estratégica"

O historiador e analista político diz
que a
crise política detonada pelo
escândalo Waldomiro deixa evidentes
as limitações do governo Lula


Carlos Graieb

 

Claudio Rossi

"Lula dá cada vez mais a impressão de ser uma figura simbólica, com larga popularidade e prestígio no exterior, mas sem capacidade de ação"

O historiador Boris Fausto, de 73 anos, não esconde sua amizade pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nem se furta a expressar de maneira clara sua opinião, quando lhe pedem para comparar o governo atual e o anterior. "O passado era melhor", diz ele. Mas isso não significa que Fausto tenha aberto mão da isenção e do espírito crítico que o qualificam como um dos mais preparados analistas políticos da atualidade. Autor de estudos clássicos como A Revolução de 30 e Crime e Cotidiano e, mais recentemente, de um estudo histórico comparativo entre Brasil e Argentina que será lançado pela editora 34, ele também colabora freqüentemente com a imprensa e manteve até dezembro uma coluna semanal de opinião no jornal Folha de S.Paulo. Nesta entrevista, Fausto afirma que a adoção de uma política econômica de prudência continua sendo o maior mérito de Lula e discute as limitações do governo e as conseqüências da grave crise política deflagrada pelo escândalo Waldomiro.

Veja – O governo já enfrentou o seu primeiro ano e a sua primeira crise. O que se pode dizer de Lula como presidente?
Fausto – Lula usou sua autoridade de maneira acertada no primeiro momento, ao decidir que manteria o rumo da política econômica estabelecida por Fernando Henrique Cardoso. Ele abraçou as causas da estabilidade, do respeito aos contratos, do gradualismo, e tudo isso foi positivo. Mas a firmeza exibida inicialmente não se repetiu depois. A paralisia no campo das ações sociais é surpreendente, visto que a política social sempre foi a menina-dos-olhos do PT. Agora, com o escândalo Waldomiro, as limitações de Lula no plano da articulação política começam a ficar evidentes. O enfraquecimento de José Dirceu não deu apenas armas à oposição, mas bagunçou o arranjo de forças que se havia obtido com os aliados e no interior do próprio PT. Lula parece não saber como neutralizar esse turbilhão. Ele dá cada vez mais a impressão de ser uma figura simbólica, com larga popularidade interna e prestígio no exterior, mas sem visão estratégica nem capacidade de ação.

Veja – Compara-se o papel que José Dirceu vinha exercendo no governo Lula até o escândalo Waldomiro ao papel de Sergio Motta no governo Fernando Henrique. A comparação é adequada?
Fausto – Creio que o poder de Motta sob Fernando Henrique era menor do que o poder de Dirceu sob Lula. Fernando Henrique intervinha mais na vida política, não digo na costura miúda, que não cabe ao presidente, mas na definição da agenda governamental. Ele tinha gosto e talento para isso e uma percepção refinada das questões políticas, quer nacionais, quer estrangeiras, que eu acho que Lula não tem.  

Veja – Falta refinamento a Lula?
Fausto – Sob pena de soar elitista, direi que falta. Não é questão de ter diploma ou não, essa é uma formulação infeliz. É questão de ter um cabedal de conhecimentos que lhe permita, primeiro, tomar decisões que não dependam somente da boa intuição e, segundo, propor idéias que não sejam vazias – como aquela de uma CPMF mundial para combater a fome, que só se explica pela ignorância, pela demagogia, ou por uma combinação das duas coisas.  

Veja – O PT sempre insistiu na imagem de "partido ético". O que lhe custa o escândalo Waldomiro?
Fausto – Não acho que seja o momento de tocar apito para dizer, de maneira cínica, que todos os partidos são iguais em sentido negativo. Melhor lembrar que a violação da ética é um risco que incide sobre qualquer governo, em qualquer âmbito partidário. Penso que o governo e o PT agiram com muita leviandade, primeiro por não levar a sério os sintomas de irregularidade que despontavam antes de o escândalo explodir e, depois da explosão, por tentar desqualificar a voz da mídia e da oposição com argumentos inconsistentes. Eles também estão pagando pela arrogância, já que durante muitos anos pretenderam ter o monopólio da ética política no cenário brasileiro. Espero, contudo, que o PT não saia desta situação em frangalhos. É claro que não se trata de uma organização de corruptos, seria um exagero afirmar isso. O PT representa uma tendência ponderável, corresponde a uma militância política que não é comum nos nossos dias. Mas a desmoralização do partido mais sólido do Brasil pode levar a atitudes ainda mais desesperançadas por parte do eleitor e a uma radicalização de certos movimentos. Pense num MST com um PT em frangalhos. Podemos vê-lo encorpado por gente que se desiludiu com o reformismo.  

Veja – A popularidade de Lula continua muito alta. Como se explica isso?
Fausto – Lula conseguiu transpor uma barreira na cultura política nacional. Ele venceu a idéia, que o vencera em tantas eleições anteriores, de que um homem de origem humilde não é capaz de mudar um país operado "pelos grandes". Superada essa barreira, as raízes populares tornaram-se um enorme trunfo que Lula explora muito bem. Ele tem razão de explorar isso e, em geral, o faz de maneira legítima. Mas nem sempre. Às vezes Lula cede à tentação da demagogia. Lembro novamente o lero-lero da CPMF mundial.  

Veja – Lula inspira uma forma de sebastianismo entre certas camadas da população?
Fausto – Em sua origem, o termo sebastianismo se referia à crença de que uma figura heróica desaparecida, dom Sebastião, retornaria para reconduzir Portugal à grandeza de seu império. Mais tarde, o conceito deixou de incluir a idéia de um retorno sobrenatural e passou a expressar somente o anseio pela recuperação de tempos gloriosos. Seja como for, a volta a um passado de conquistas está no núcleo do sebastianismo. Por isso nunca achei que o termo se aplicasse bem ao Brasil. Nós estamos sempre olhando para a frente. Quem olha para o passado, muito mais do que nós, é a Argentina. Eles têm uma idade de ouro à qual fazer referência, o período que se estendeu do fim do século XIX até a II Guerra Mundial. Lá, a idéia do passado perdido é mais forte. O que eu diria é que muita gente trata Lula como um herói salvador. O mito do herói salvador é comum na política. Há muitos textos de cientistas sociais franceses que usam esse conceito para discutir, por exemplo, a figura de Charles de Gaulle. Um país como o nosso, com tantas carências, é solo fértil para esse tipo de mito. Substituir a idéia de que uma mão milagrosa nos arrancará da miséria pela idéia do gradualismo, da disputa parlamentar, da lide política, não é fácil. Esse é o caminho da realidade, e o caminho da realidade quase sempre é desconfortável.  

Veja – Que tipo de personagem é o presidente na imaginação do brasileiro?
Fausto – A projeção da imagem presidencial no Brasil me parece ambígua. De um lado, temos a idéia de que o presidente pode muito, ou pode tudo. De outro lado, existe a suspeita de que ele está sempre acossado por forças terríveis ou forças ocultas, para usar a linguagem de Jânio Quadros. Digamos que Lula está na posição de fazer a balança pender para um desses lados. Se as coisas não derem certo em seu governo, será muito ruim para a idéia que o brasileiro faz do papel presidencial. Creio que a crença da população de que é possível mudar coisas no país pelo processo democrático se desgastará. Chegaremos a um alto grau de desconcerto e apatia.  

Veja – Um conceito freqüentemente usado para descrever os governos latino-americanos é o de populismo. Há traços de populismo no governo Lula?
Fausto – Traços, talvez, mas não se pode dizer que é um governo populista na essência. Em seu auge, em meados do século XX, o populismo latino-americano foi uma aliança entre Estado, burguesia nacional e setores organizados dos trabalhadores. O cimento estrutural dessa aliança era um processo acelerado de industrialização que permitia, às vezes irresponsavelmente, a distribuição de ganhos entre todos. Esse é o populismo clássico de Getúlio Vargas e do argentino Juan Domingo Perón, que não existe mais em parte alguma, porque a conjuntura mudou. O que subsiste são práticas que os grandes governantes populistas puseram em circulação. O presidente Hugo Chávez, da Venezuela, por exemplo, dá continuidade à tradição com seu extremo personalismo, seu discurso antipolítico e o fato de não se apoiar em instituições sólidas, preferindo os apelos diretos às massas. O governo Lula não é assim. Seus traços populistas, bem mais leves, encontram-se na retórica exagerada – quando se fala, por exemplo, em "espetáculo do crescimento" –, em detalhes como a mania de enfiar o boné de qualquer entidade na cabeça ou na linguagem de seus discursos.  

Veja – Qual a pior característica desses discursos?
Fausto – Reclamam muito das metáforas futebolísticas, que são mesmo exageradas. Mas bem pior é a metáfora paternal, que ele também usa com freqüência ao falar com gente pobre. Essa linguagem sugere uma relação protetora e autoritária. Com isso ele acaba lembrando, sim, o populismo de Vargas.  

Veja – O governo Lula assumiu um tom mais altivo no campo da política externa. Isso não é positivo?
Fausto – Dizem que Fernando Henrique era subserviente no campo internacional. Não creio nisso. Seu governo lutou contra os poderosos na Organização Mundial do Comércio, foi contra o protecionismo americano, utilizou na medida do possível o espaço que tinha para a afirmação brasileira. Mas não soube comunicar os seus feitos – e falha de comunicação, em política, é erro grave. Lula mistura alguma ousadia com muita ingenuidade no plano das relações internacionais. A idéia de fazer uma frente de países emergentes ao lado de Índia e África do Sul revela, por exemplo, uma enorme incompreensão da realidade geopolítica. Enganos flagrantes foram as viagens ao Oriente Médio, as manifestações exageradas de grandeza sobre a posição hegemônica do Brasil na América Latina, as ilusões a respeito de Hugo Chávez (que felizmente parecem ter sido ultrapassadas) e a leniência diante dos problemas de Cuba com os direitos humanos. Diante de violações dos direitos humanos, sobretudo na América Latina, o governo não pode calar.  

Veja – Há quem diga que um governo que abriga o PT não precisa de oposição. O senhor concorda?
Fausto – Há algo de bom e algo de ruim na maneira como o governo Lula convive com o Partido dos Trabalhadores. Essa convivência traz algo que é relativamente novo para nossa cultura política absorver – a idéia de que há uma distinção natural entre governo e partido. Nós não estamos acostumados com essa idéia porque nunca tivemos partidos fortes elegendo presidentes. O PTB não tinha força diante de Getúlio Vargas. O PSDB não tinha muita força diante de Fernando Henrique Cardoso. Mas pegue o exemplo da Inglaterra. Existem diferenças grandes entre o governo Blair e o Partido Trabalhista. É natural que isso ocorra, se a organização partidária tiver raízes pujantes. O que não faz bem é uma certa esquizofrenia. Você não pode querer instituir uma simbiose entre partido e governo no plano da administração, que foi o que o PT realizou, e ao mesmo tempo manter a militância partidária livre para dar declarações como as do senador Mercadante dias atrás, sobre os supostos erros da política econômica. Se o governo e o partido estão fortemente imbricados no plano administrativo, você tem de afinar o discurso e manter, ao menos para fora, a homogeneidade. Senão, não dá.

Veja – Recentemente, ao falar sobre reforma política, Lula imaginou um Brasil com apenas dois partidos políticos e disse que PT e PSDB seriam a base de uma grande organização de centro-esquerda. Isso lhe parece viável em algum futuro próximo?
Fausto – Eu tenho a impressão curiosa de que nos últimos tempos houve realmente uma aproximação ideológica entre PT e PSDB, sobretudo o PSDB não-desenvolvimentista. Mas a convergência é tão-somente ideológica. Embora de tempos em tempos os partidos façam alianças táticas, sobretudo quando se trata de derrotar um inimigo comum, como Paulo Maluf em São Paulo, estrategicamente eles são fortes adversários na disputa por espaço político. É irreal pensar que uma ligação entre PT e PSDB esteja na ordem do dia. Assim como me parece irreal o modelo do bipartidarismo para o Brasil.  

Veja – O PT já virou um partido de centro?
Fausto – Eu diria que sim, ressalvando apenas uma hipótese. Se as coisas começarem a sair do controle, acho que existe o risco de que o governo, e Lula especificamente, se sinta tentado a dar um cavalo-de-pau à esquerda, uma guinada perigosa que abandone a política gradualista e responsável até agora adotada. Mas isso é apenas uma possibilidade latente. Na prática, hoje, o PT está no centro.  

Veja – O PT é um partido sem projeto?
Fausto – O PT tinha um discurso, mas não um projeto. Esse discurso, que era de ruptura, começou a ser abandonado, ainda na disputa eleitoral, por setores do partido que hoje compõem o núcleo do governo. Isso feito, nada surgiu para ocupar o espaço da retórica descartada.  

Veja – O senhor elogia Lula por ter dado continuidade à política econômica do governo Fernando Henrique. Essas políticas em prol da estabilidade formam hoje uma moldura inescapável para a ação de qualquer governo?
Fausto – Se eu fosse político, diria que não é esse o caso, porque o papel dos políticos é vender esperanças. Mas não sou político e, quanto mais leio e reflito sobre esse assunto, mais fico convencido de que existem condicionamentos estruturais que fazem com que as políticas de desenvolvimento gradual sejam as únicas factíveis. Você pode fugir a essa moldura, mas o crescimento imediato e acelerado de agora vai se traduzir em prejuízo logo ali na frente. Infelizmente, não parece existir equação que combine crescimento e estabilidade a curto prazo. Lula demonstrou saber disso. Estou entre aqueles que acham que esse é o seu maior mérito.

 
 
 
 
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