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Entrevista:
Boris
Fausto
"Falta
visão estratégica"
O
historiador e analista político
diz
que a crise
política detonada pelo
escândalo Waldomiro deixa evidentes
as limitações do governo Lula

Carlos
Graieb
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Claudio Rossi

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"Lula
dá cada vez mais a impressão de ser uma figura simbólica,
com larga popularidade e prestígio no exterior, mas sem
capacidade de ação" |
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O
historiador Boris Fausto, de 73 anos, não esconde sua amizade
pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nem se furta a expressar
de maneira clara sua opinião, quando lhe pedem para comparar
o governo atual e o anterior. "O passado era melhor", diz ele. Mas
isso não significa que Fausto tenha aberto mão da
isenção e do espírito crítico que o
qualificam como um dos mais preparados analistas políticos
da atualidade. Autor de estudos clássicos como A Revolução
de 30 e Crime e Cotidiano e, mais recentemente, de um
estudo histórico comparativo entre Brasil e Argentina que
será lançado pela editora 34, ele também colabora
freqüentemente com a imprensa e manteve até dezembro
uma coluna semanal de opinião no jornal Folha de S.Paulo.
Nesta entrevista, Fausto afirma que a adoção de uma
política econômica de prudência continua sendo
o maior mérito de Lula e discute as limitações
do governo e as conseqüências da grave crise política
deflagrada pelo escândalo Waldomiro.
Veja
O governo já enfrentou o seu primeiro ano e
a sua primeira crise. O que se pode dizer de Lula como presidente?
Fausto
Lula usou sua autoridade de maneira acertada no primeiro
momento, ao decidir que manteria o rumo da política econômica
estabelecida por Fernando Henrique Cardoso. Ele abraçou as
causas da estabilidade, do respeito aos contratos, do gradualismo,
e tudo isso foi positivo. Mas a firmeza exibida inicialmente não
se repetiu depois. A paralisia no campo das ações
sociais é surpreendente, visto que a política social
sempre foi a menina-dos-olhos do PT. Agora, com o escândalo
Waldomiro, as limitações de Lula no plano da articulação
política começam a ficar evidentes. O enfraquecimento
de José Dirceu não deu apenas armas à oposição,
mas bagunçou o arranjo de forças que se havia obtido
com os aliados e no interior do próprio PT. Lula parece não
saber como neutralizar esse turbilhão. Ele dá cada
vez mais a impressão de ser uma figura simbólica,
com larga popularidade interna e prestígio no exterior, mas
sem visão estratégica nem capacidade de ação.
Veja
Compara-se o papel que José Dirceu vinha exercendo
no governo Lula até o escândalo Waldomiro ao papel
de Sergio Motta no governo Fernando Henrique. A comparação
é adequada?
Fausto
Creio que o poder de Motta sob Fernando Henrique era
menor do que o poder de Dirceu sob Lula. Fernando Henrique intervinha
mais na vida política, não digo na costura miúda,
que não cabe ao presidente, mas na definição
da agenda governamental. Ele tinha gosto e talento para isso e uma
percepção refinada das questões políticas,
quer nacionais, quer estrangeiras, que eu acho que Lula não
tem.
Veja
Falta refinamento a Lula?
Fausto
Sob pena de soar elitista, direi que falta. Não
é questão de ter diploma ou não, essa é
uma formulação infeliz. É questão de
ter um cabedal de conhecimentos que lhe permita, primeiro, tomar
decisões que não dependam somente da boa intuição
e, segundo, propor idéias que não sejam vazias
como aquela de uma CPMF mundial para combater a fome, que só
se explica pela ignorância, pela demagogia, ou por uma combinação
das duas coisas.
Veja
O PT sempre insistiu na imagem de "partido ético".
O que lhe custa o escândalo Waldomiro?
Fausto
Não acho que seja o momento de tocar apito para dizer, de
maneira cínica, que todos os partidos são iguais em
sentido negativo. Melhor lembrar que a violação da
ética é um risco que incide sobre qualquer governo,
em qualquer âmbito partidário. Penso que o governo
e o PT agiram com muita leviandade, primeiro por não levar
a sério os sintomas de irregularidade que despontavam antes
de o escândalo explodir e, depois da explosão, por
tentar desqualificar a voz da mídia e da oposição
com argumentos inconsistentes. Eles também estão pagando
pela arrogância, já que durante muitos anos pretenderam
ter o monopólio da ética política no cenário
brasileiro. Espero, contudo, que o PT não saia desta situação
em frangalhos. É claro que não se trata de uma organização
de corruptos, seria um exagero afirmar isso. O PT representa uma
tendência ponderável, corresponde a uma militância
política que não é comum nos nossos dias. Mas
a desmoralização do partido mais sólido do
Brasil pode levar a atitudes ainda mais desesperançadas por
parte do eleitor e a uma radicalização de certos movimentos.
Pense num MST com um PT em frangalhos. Podemos vê-lo encorpado
por gente que se desiludiu com o reformismo.
Veja
A popularidade de Lula continua muito alta. Como se
explica isso?
Fausto
Lula
conseguiu transpor uma barreira na cultura política nacional.
Ele venceu a idéia, que o vencera em tantas eleições
anteriores, de que um homem de origem humilde não é
capaz de mudar um país operado "pelos grandes". Superada
essa barreira, as raízes populares tornaram-se um enorme
trunfo que Lula explora muito bem. Ele tem razão de explorar
isso e, em geral, o faz de maneira legítima. Mas nem sempre.
Às vezes Lula cede à tentação da demagogia.
Lembro novamente o lero-lero da CPMF mundial.
Veja
Lula inspira uma forma de sebastianismo entre certas
camadas da população?
Fausto
Em sua origem, o termo sebastianismo se referia à crença
de que uma figura heróica desaparecida, dom Sebastião,
retornaria para reconduzir Portugal à grandeza de seu império.
Mais tarde, o conceito deixou de incluir a idéia de um retorno
sobrenatural e passou a expressar somente o anseio pela recuperação
de tempos gloriosos. Seja como for, a volta a um passado de conquistas
está no núcleo do sebastianismo. Por isso nunca achei
que o termo se aplicasse bem ao Brasil. Nós estamos sempre
olhando para a frente. Quem olha para o passado, muito mais do que
nós, é a Argentina. Eles têm uma idade de ouro
à qual fazer referência, o período que se estendeu
do fim do século XIX até a II Guerra Mundial. Lá,
a idéia do passado perdido é mais forte. O que eu
diria é que muita gente trata Lula como um herói salvador.
O mito do herói salvador é comum na política.
Há muitos textos de cientistas sociais franceses que usam
esse conceito para discutir, por exemplo, a figura de Charles de
Gaulle. Um país como o nosso, com tantas carências,
é solo fértil para esse tipo de mito. Substituir a
idéia de que uma mão milagrosa nos arrancará
da miséria pela idéia do gradualismo, da disputa parlamentar,
da lide política, não é fácil. Esse
é o caminho da realidade, e o caminho da realidade quase
sempre é desconfortável.
Veja
Que tipo de personagem é o presidente na imaginação
do brasileiro?
Fausto
A
projeção da imagem presidencial no Brasil me parece
ambígua. De um lado, temos a idéia de que o presidente
pode muito, ou pode tudo. De outro lado, existe a suspeita de que
ele está sempre acossado por forças terríveis
ou forças ocultas, para usar a linguagem de Jânio Quadros.
Digamos que Lula está na posição de fazer a
balança pender para um desses lados. Se as coisas não
derem certo em seu governo, será muito ruim para a idéia
que o brasileiro faz do papel presidencial. Creio que a crença
da população de que é possível mudar
coisas no país pelo processo democrático se desgastará.
Chegaremos a um alto grau de desconcerto e apatia.
Veja
Um conceito freqüentemente usado para descrever
os governos latino-americanos é o de populismo. Há
traços de populismo no governo Lula?
Fausto
Traços,
talvez, mas não se pode dizer que é um governo populista
na essência. Em seu auge, em meados do século XX, o
populismo latino-americano foi uma aliança entre Estado,
burguesia nacional e setores organizados dos trabalhadores. O cimento
estrutural dessa aliança era um processo acelerado de industrialização
que permitia, às vezes irresponsavelmente, a distribuição
de ganhos entre todos. Esse é o populismo clássico
de Getúlio Vargas e do argentino Juan Domingo Perón,
que não existe mais em parte alguma, porque a conjuntura
mudou. O que subsiste são práticas que os grandes
governantes populistas puseram em circulação. O presidente
Hugo Chávez, da Venezuela, por exemplo, dá continuidade
à tradição com seu extremo personalismo, seu
discurso antipolítico e o fato de não se apoiar em
instituições sólidas, preferindo os apelos
diretos às massas. O governo Lula não é assim.
Seus traços populistas, bem mais leves, encontram-se na retórica
exagerada quando se fala, por exemplo, em "espetáculo
do crescimento" , em detalhes como a mania de enfiar o boné
de qualquer entidade na cabeça ou na linguagem de seus discursos.
Veja
Qual a pior característica desses discursos?
Fausto
Reclamam muito das metáforas futebolísticas,
que são mesmo exageradas. Mas bem pior é a metáfora
paternal, que ele também usa com freqüência ao
falar com gente pobre. Essa linguagem sugere uma relação
protetora e autoritária. Com isso ele acaba lembrando, sim,
o populismo de Vargas.
Veja
O governo Lula assumiu um tom mais altivo no campo
da política externa. Isso não é positivo?
Fausto
Dizem que Fernando Henrique era subserviente no campo
internacional. Não creio nisso. Seu governo lutou contra
os poderosos na Organização Mundial do Comércio,
foi contra o protecionismo americano, utilizou na medida do possível
o espaço que tinha para a afirmação brasileira.
Mas não soube comunicar os seus feitos e falha de
comunicação, em política, é erro grave.
Lula mistura alguma ousadia com muita ingenuidade no plano das relações
internacionais. A idéia de fazer uma frente de países
emergentes ao lado de Índia e África do Sul revela,
por exemplo, uma enorme incompreensão da realidade geopolítica.
Enganos flagrantes foram as viagens ao Oriente Médio, as
manifestações exageradas de grandeza sobre a posição
hegemônica do Brasil na América Latina, as ilusões
a respeito de Hugo Chávez (que felizmente parecem ter sido
ultrapassadas) e a leniência diante dos problemas de Cuba
com os direitos humanos. Diante de violações dos direitos
humanos, sobretudo na América Latina, o governo não
pode calar.
Veja
Há quem diga que um governo que abriga o PT
não precisa de oposição. O senhor concorda?
Fausto
Há algo de bom e algo de ruim na maneira como
o governo Lula convive com o Partido dos Trabalhadores. Essa convivência
traz algo que é relativamente novo para nossa cultura política
absorver a idéia de que há uma distinção
natural entre governo e partido. Nós não estamos acostumados
com essa idéia porque nunca tivemos partidos fortes elegendo
presidentes. O PTB não tinha força diante de Getúlio
Vargas. O PSDB não tinha muita força diante de Fernando
Henrique Cardoso. Mas pegue o exemplo da Inglaterra. Existem diferenças
grandes entre o governo Blair e o Partido Trabalhista. É
natural que isso ocorra, se a organização partidária
tiver raízes pujantes. O que não faz bem é
uma certa esquizofrenia. Você não pode querer instituir
uma simbiose entre partido e governo no plano da administração,
que foi o que o PT realizou, e ao mesmo tempo manter a militância
partidária livre para dar declarações como
as do senador Mercadante dias atrás, sobre os supostos erros
da política econômica. Se o governo e o partido estão
fortemente imbricados no plano administrativo, você tem de
afinar o discurso e manter, ao menos para fora, a homogeneidade.
Senão, não dá.
Veja
Recentemente, ao falar sobre reforma política,
Lula imaginou um Brasil com apenas dois partidos políticos
e disse que PT e PSDB seriam a base de uma grande organização
de centro-esquerda. Isso lhe parece viável em algum futuro
próximo?
Fausto
Eu tenho a impressão curiosa de que nos últimos
tempos houve realmente uma aproximação ideológica
entre PT e PSDB, sobretudo o PSDB não-desenvolvimentista.
Mas a convergência é tão-somente ideológica.
Embora de tempos em tempos os partidos façam alianças
táticas, sobretudo quando se trata de derrotar um inimigo
comum, como Paulo Maluf em São Paulo, estrategicamente eles
são fortes adversários na disputa por espaço
político. É irreal pensar que uma ligação
entre PT e PSDB esteja na ordem do dia. Assim como me parece irreal
o modelo do bipartidarismo para o Brasil.
Veja
O PT já virou um partido de centro?
Fausto
Eu diria que sim, ressalvando apenas uma hipótese.
Se as coisas começarem a sair do controle, acho que existe
o risco de que o governo, e Lula especificamente, se sinta tentado
a dar um cavalo-de-pau à esquerda, uma guinada perigosa que
abandone a política gradualista e responsável até
agora adotada. Mas isso é apenas uma possibilidade latente.
Na prática, hoje, o PT está no centro.
Veja
O PT é um partido sem projeto?
Fausto
O PT tinha um discurso, mas não um projeto. Esse
discurso, que era de ruptura, começou a ser abandonado, ainda
na disputa eleitoral, por setores do partido que hoje compõem
o núcleo do governo. Isso feito, nada surgiu para ocupar
o espaço da retórica descartada.
Veja
O senhor elogia Lula por ter dado continuidade à
política econômica do governo Fernando Henrique. Essas
políticas em prol da estabilidade formam hoje uma moldura
inescapável para a ação de qualquer governo?
Fausto
Se eu fosse político, diria que não é
esse o caso, porque o papel dos políticos é vender
esperanças. Mas não sou político e, quanto
mais leio e reflito sobre esse assunto, mais fico convencido de
que existem condicionamentos estruturais que fazem com que as políticas
de desenvolvimento gradual sejam as únicas factíveis.
Você pode fugir a essa moldura, mas o crescimento imediato
e acelerado de agora vai se traduzir em prejuízo logo ali
na frente. Infelizmente, não parece existir equação
que combine crescimento e estabilidade a curto prazo. Lula demonstrou
saber disso. Estou entre aqueles que acham que esse é o seu
maior mérito.
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