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Em
foco: Gustavo Franco
O capitalismo envergonhado
"O
Brasil precisa sepultar de
vez sua
'porção
ex-comunista',
embriagada
de sentimento de
culpa
e avessa à economia de
mercado"
O
leitor já deve estar cansado de ouvir sobre o Consenso de
Washington, mas talvez não saiba que essa "cartilha" foi
o resultado de uma conferência em que o coordenador do painel
final, o professor John Williamson, listou um conjunto de regras
de bom senso, que ouviu em todas as apresentações
sobre países específicos, e declarou que essas "idéias
em comum" eram um consenso.
O
Consenso acabou sendo de Washington, como poderia ter sido de qualquer
outro lugar, pois foi ali que se deu a conferência. Foi um
erro histórico: é fácil acusar alguém
de "entreguismo", ou de "neoliberal", por defender políticas
de um consenso observado em Washington. Já foi observado
que se o consenso fosse de Aracaju, ou de Nova Déli, a conversa
seria outra.
Mas
o tempo passou, preconceitos foram ficando para trás, e as
reformas do Consenso foram acontecendo, pois, afinal, eram consenso
mesmo. Até as pedras atiradas por manifestantes antiglobalização
nos vidros do Banco Mundial sabiam que a cartilha do professor Williamson
não esgotava as agendas nacionais de desenvolvimento, apenas
alinhava o que pareciam ser as urgências macroeconômicas
de um dado momento.
Ilustração Ale Setti
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A experiência veio mostrar que as coisas eram muito mais difíceis,
pois tudo o que se sabia sobre economias emergentes teve de ser
repensado à luz da singularidade e abrangência do que
acontecia no Leste da Europa com os países que tentavam se
reinventar depois do pesadelo comunista. A reflexão sobre
reformas teve de descer vários andares para localizar-se
no terreno das fundações e, curiosamente, essa agenda
mais básica, institucional e regulatória, acabou conhecida
como "reformas de segunda geração", quando na verdade
deveria ter sido prévia, ou simultânea, às de
"primeira geração".
No
Leste da Europa, não existiam mercados nem preços,
prevaleciam o escambo, a informalidade, a inadimplência generalizada
e em cadeia, a apropriação de "bens públicos"
por quadrilhas, bem como dúvidas sobre quem é dono
do quê, e sobre a validade dos contratos e das leis (algumas
"não pegam", vejam só), para não falar em corrupção
endêmica. As reformas necessárias para reorganizar
essas economias seguramente iam bem além da cartilha macro
do professor Williamson, mas na mesma direção, contrariamente
ao que dizem os críticos do Consenso de Washington.
Não
deve haver dúvida de que, na América Latina, também
temos um flanco "ex-comunista". Sofremos ilusões e decepções
muito semelhantes. Nos quesitos informalidade e corrupção,
bem como em alguns "rankings" internacionais de "liberdade econômica",
"competitividade", ou "globalização", para não
falar do já consagrado "risco país", estamos no mesmo
barco, ou pior.
Temos
outros problemas mais caracteristicamente tropicais, como a "precariedade
tributária", conceito que também se estende às
relações trabalhistas e previdenciárias, segundo
o qual as regras são tão complexas que é difícil
encontrar alguma empresa, principalmente pequena, sem um "puxadinho"
em qualquer desses terrenos.
Na
edição de 28 de janeiro, VEJA publicou uma ampla reportagem
de capa "Por que o Brasil não é Primeiro Mundo"
baseada em um relatório do Banco Mundial sobre problemas
ditos "microeconômicos" enfrentados pelas nossas empresas,
que parecem viver com meio corpo dentro do mundo virtuoso da Bélgica
e outro tanto não propriamente dentro da Índia, mas
de uma outra realidade mais típica da Rússia, da Ucrânia
ou do Cazaquistão. Ou seja, evoluímos de Belíndia
para Belússia, ou pior, talvez, para um Belindistão.
O
Brasil precisa sepultar de vez essa sua "porção ex-comunista",
embriagada de sentimento de culpa, avessa à economia de mercado
por razões históricas, ou por pirraça mesmo.
A economia privada é nossa única salvação,
mas a esmagadora maioria das nossas empresas prefere viver na "informalidade",
ou como "excluídas", por se recusar a aceitar "regras" (tributárias,
trabalhistas etc.) tidas como proibitivas para seus negócios.
Um capitalismo pela metade, assombrado pelo "politicamente correto",
não pode deixar de ter um desempenho duvidoso.
Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente
do
Banco
Central (gfranco@palavra.com
www.gfranco.com.br)
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