Sem desejo

Estudo revela que é surpreendente o número
de americanos que não gostam de sexo

Um antigo ditado popular afirma que sexo, quando é bom, é ótimo. E que, quando é ruim, ainda assim é muito bom. É possível alguém não gostar de sexo? Na teoria, não. "É o maior prazer físico que o ser humano pode experimentar", diz a psicanalista carioca Regina Navarro Lins. Na prática, porém, muita gente só experimenta as delícias de uma noite de amor nas telas de cinema. As frustrações na cama são tema de um artigo publicado na última edição do The Journal of the American Medical Association, Jama, uma das mais importantes revistas médicas do mundo. Na maior pesquisa sobre comportamento sexual feita nos Estados Unidos desde 1948, ano da divulgação do famoso relatório Kinsey, pesquisadores da Universidade de Chicago entrevistaram 1.749 mulheres e 1.410 homens entre 18 e 59 anos. Chegaram a conclusões surpreendentes. Das mulheres americanas, 43% têm algum tipo de problema sexual. Dos homens, 31%. Os dois principais obstáculos apontados pelos entrevistados são a ausência de desejo e a falta de prazer durante a relação. Mais da metade das mulheres e quase um quarto dos homens não querem ou não gostam de sexo — pelo menos não do modo como o fazem atualmente.

Por que tanta angústia naquilo que deveria ser apenas desejo e satisfação? "A vida sexual é o melhor indicador de qualidade de vida", afirma a psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas, de São Paulo. E, ao que tudo indica, para muitos americanos a vida não anda nada boa. Culpa do stress, de doenças e traumas com experiências sexuais no passado. "No fundo, essas pessoas não rejeitam o ato sexual em si", aposta a psicóloga paulista Rosely Sayão. "O problema é a dificuldade de excitação, a ejaculação precoce, os orgasmos inatingíveis, a ansiedade." O estudo também revela surpresas numa seara sempre tida como a dos infelizes e entediados: a dos casados. Contrariando os clichês a respeito do casamento, os americanos compromissados são os que menos se afligem com sexo. A proporção de americanas que dizem chegar ao orgasmo é 1,5 vez maior entre as de aliança no dedo do que entre as solteiras. Há, no entanto, quem duvide desses números. "Há exceções, mas, na maioria das vezes, o pior sexo é aquele praticado no casamento", argumenta Regina Lins. "Com o tempo, o desejo desaparece."

Na pesquisa, os que mais admitem problemas na cama são as mulheres jovens e os homens mais velhos. Elas, geralmente, têm de enfrentar a ansiedade decorrente da pouca experiência. A tensão pode levar dor à relação sexual. Forma-se então um ciclo vicioso. O sexo não prazeroso acaba em inapetência. Os senhores entre 50 e 59 anos vivem uma angústia três vezes maior que rapazes de 18 a 29 anos, resultante da dificuldade de conseguir e manter uma ereção. Com o passar dos anos e a chegada de doenças típicas da velhice, aliada a hábitos pouco saudáveis, o vigor sexual diminui.

A pesquisa da Universidade de Chicago produziu uma grande polêmica no mesmo dia em que foi divulgada, quarta-feira passada. Menos pelo desinteresse dos americanos por sexo e mais pelo comportamento dos editores do Jama. Eles foram criticados por não revelar que dois autores do estudo, Edward Laumann e Raymond Rosen, são consultores da Pfizer, fabricante do Viagra, a pílula contra a impotência sexual masculina, sucesso de vendas em todo o mundo. A Associação Médica Americana, responsável pelo Jama, promete na próxima edição alertar sobre o vínculo entre os autores do trabalho e o laboratório. Adianta, contudo, que a Pfizer não patrocinou o estudo da Universidade de Chicago.

Fotos: Pedro Rubens

Fernando Luna




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