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Home  »  Revistas  »  Edição 2152 / 17 de fevereiro de 2010


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Esporte

Só falta eles falarem português

O Brasil participa dos Jogos de Inverno com cinco atletas,
dois deles brasileiros que deixaram o país ainda bebês


Alexandre Salvador

AlessandroTrovati/AP
Não esqueceu as raízes
O esquiador Jhonatan Longhi,
fora do país desde os 3 anos: ele torceu
pelo Brasil na final contra a Itália em 1994

Como é natural para um país sem estações de esqui ou montanhas nevadas, o Brasil tem presença discreta nos Jogos Olímpicos de Inverno, cuja 21ª edição começou na sexta-feira da semana passada, em Vancouver, no Canadá. A delegação nacional é composta de cinco atletas, que disputam três modalidades, todas praticadas na neve. Espanta saber que não se deve tentar falar português com dois de nossos esquiadores. Eles têm passaporte brasileiro, mas conhecem poucas palavras do idioma nacional. O italiano Jhonatan Longhi e a suíça Maya Harrisson nasceram no Brasil e foram adotados ainda pequenos por famílias estrangeiras. Ambos vivem em regiões da Europa onde esquiar é tão ou até mais comum que ir à praia. Em contrapartida, conhecem pouquíssimo do país que representam.

Maya, 17 anos, vive na cidade suíça de Genebra. Ela pratica o esqui desde pequena e aos 8 anos ganhou as primeiras medalhas em campeonatos regionais. O talento para o esporte chamou a atenção dos dirigentes suíços, que a convocaram para treinar com a equipe nacional. A experiência foi traumática, e ela até cogitou abandonar o esporte. Sua mãe, a italiana Letizia Toscani, contou a VEJA o que aconteceu: "Ela foi insultada com comentários racistas devido à cor da pele. Foi o Stefano (Arnhold, presidente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve) que nos ajudou a encontrar um lugar para Maya treinar na França, onde ela não sofre preconceito". Nascida em Nova Friburgo, região serrana do Rio, e adotada com 1 ano, a atleta retornou ao Brasil pela primeira vez em 2009. Ela só lamenta a dificuldade com a língua. "No começo era como se falassem chinês. Mas estou tendo aulas e entendendo bem. Falar é que é um pouquinho mais difícil", disse Maya a VEJA.

Apesar de não dominar o idioma, Jhonatan, paulista de Americana, se considera desde pequeno um brasileiro. Jhonny, como ele gosta de ser chamado, foi adotado por um casal de italianos aos 3 anos de idade junto com a irmã mais nova, Carina, que também esquia. "Na Copa do Mundo de 1994, Jhonny torceu pelo Brasil. Seu plano, depois da aposentadoria como atleta, é ser professor de esqui no Rio de Janeiro", contou seu pai, Lorenzo Longhi. O atleta de 22 anos diz nunca ter sido vítima de preconceitos, mas considerou que teria melhores chances no esqui se disputasse pelo Brasil. Foi seu pai quem procurou a Confederação Brasileira de Desportos na Neve e o ofereceu como atleta. Aos 15 anos, os esquiadores são considerados adultos pela Federação Internacional de Esqui e precisam escolher qual país vão defender nas competições.

Fotos: Clive Rose/AFP e Jacques Demarthon/AFP
Alvo de racismo
A esquiadora Maya Harrisson
treina na França para competir
pelo Brasil: "No começo, era
como se falassem chinês"

Os outros três representantes brasileiros nos Jogos de Vancouver foram criados no Brasil, mas têm estreitos vínculos com o exterior. Os esquiadores Leandro Ribela e Jaqueline Mourão e a snowboarder Isabel Clark passam a maior parte do ano fora do país, disputando competições ou em treinamentos. As duas atletas são casadas com um canadense e um chileno, respectivamente. As próprias competições brasileiras são realizadas em estações de esqui no Chile e na Argentina. Apesar da falta de neve, os brasileiros ocupam posição de destaque no esporte sul-americano de inverno. Os cinco brasileiros em Vancouver são líderes ou vice-líderes de suas categorias. "Ainda é cedo para falar em medalhas olímpicas, mas esta geração de atletas já conseguiu melhorar os resultados de sua antecessora", diz Stefano Arnhold, presidente da Confederação Brasileira de Desportos na Neve. Isabel Clark, nossa porta-bandeira na abertura da Olimpíada em Vancouver, é a detentora do melhor resultado brasileiro em Jogos de Inverno – o nono lugar em Turim, em 2006. O Brasil participa de todas as Olimpíadas de Inverno desde 1992.

Eric Gaillard/Reuters
Recorde na neve
Isabel Clark, do snowboard:
a carioca foi nona em 2006,
o melhor resultado brasileiro

Sem a visibilidade da Olimpíada propriamente dita, os Jogos de Inverno despertam entusiasmo no Hemisfério Norte. Em Vancouver são esperados 5.500 atletas, de oitenta países, que competem em quinze modalidades (na Olimpíada de Pequim, em 2008, compareceram 11.990 atletas de 204 países). Três bilhões de pessoas assistem à competição pela televisão. Nesta Olimpíada, a ordem natural dos esportes é invertida, e Noruega, Suécia, Áustria e Suíça – de pouca expressão no atletismo – são as grandes favoritas dos Jogos. Os brasileiros já disputaram duas vezes na modalidade bob-sled. Na última, em 2006, os recursos da equipe eram tão escassos que dois capacetes quebrados tiveram de ser substituídos por equipamento emprestado pelos alemães. Nesse esporte, quatro atletas se juntam para empurrar o trenó e, depois, descer por um enorme tobogã de gelo a mais de 100 quilômetros por hora. A equipe brasileira, que treina nos Estados Unidos, não conseguiu se classificar para Vancouver.

Fotos: Vincenzo Pinto/AFP e Fabrizio Bensch/Reuters
Paisagens espetaculares
Manobras do snowboard (à esq.) e a equipe brasileira de bobsled em 2006, com capacetes emprestados: fora de Vancouver


O Brasil não é o único estranho no ninho. Também estão em Vancouver atletas de Gana, Etiópia, África do Sul, Bermudas, México, Mar-rocos e Jamaica (veja o quadro abaixo), entre outros calorentos. Os brasileiros estão classificados em três modalidades: cross country (Leandro e Jaqueline), uma longa maratona sobre esquis, esqui alpino (Jhonatan e Maya), descida em zigue-zague pela montanha de neve, e snowboard (Isabel), muito parecido com o surfe ou o skate. O ponto em que a Olimpíada de Inverno é imbatível é a beleza dos cenários das provas. Para um morador dos trópicos, os Jogos são uma oportunidade para apreciar uma paisagem belíssima e esportes emocionantes que poucos brasileiros já viram de perto.


Jamaica abaixo de zero

Divulgação
Corrida legal
Cena de Jamaica Abaixo de Zero: a participação nos Jogos de Inverno virou comédia no cinema


A participação tropical mais divertida na história dos Jogos de Inverno foi a da Jamaica na edição de 1988, em Calgary, no Canadá. A ilha caribenha, ensolarada o ano todo, enviou quatro representantes para disputar a prova de bobsled – um esporte totalmente desconhecido no país de Usain Bolt, o homem mais veloz do mundo. A ideia de participar foi de um técnico americano chamado Pat Brown. Ocorreu a ele que o país teria alguma chance se soubesse combinar duas peculiaridades locais: a primeira era a qualidade de seus velocistas. A segunda era uma corrida com carrinhos e equipes de dois atletas, um na condução do veículo que é empurrado pelo outro. A semelhança com o bob-sled era notável, exceto pela diferença de ser praticado no asfalto, e não no gelo. Os atletas escolhidos eram militares, alguns deles velocistas profissionais fracassados. A estreia jamaicana nos Jogos foi um desastre e virou uma piada global. Na segunda, eles conseguiram o sétimo melhor tempo daqueles Jogos e a equipe ganhou a simpatia internacional. Na última descida, o bobsled capotou espetacularmente e os jamaicanos completaram a prova empurrando o trenó, sob os aplausos dos espectadores. A Jamaica continuou a competir nessa modalidade até 2002. A participação jamaicana (e o seu final épico) serviu de inspiração para o filme Jamaica Abaixo de Zero, lançado em 1993. As imagens do acidente usadas no filme foram recuperadas das transmissões oficiais. O capotamento foi tão sensacional que pareceu desnecessário simulá-lo com os recursos do cinema.

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