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• Cinema: O Lobisomem, com Benicio Del ToroEntrevista: Nick Hornby
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Pal Hansen/Conturphoto.com/Getty Images |
"O rock agora é como a literatura. Os jovens ouvem
Jimi Hendrix como quem lê Flaubert" |
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| • Trecho: Educação |
Nick Hornby, 52 anos, é um dos principais nomes da ficção inglesa contemporânea. Com best-sellers como Alta Fidelidade e Um Grande Garoto no currículo (ambos transpostos com sucesso para o cinema), ele é às vezes descrito como alguém que se dedica a retratar um tipo muito específico: trintões e quarentões que se recusam a crescer. Seu tema, no entanto, é outro: a maneira como a cultura pop - e a música em especial - moldou a sua geração e as gerações seguintes. Seus personagens são um amálgama das canções que ouvem, do estilo de roupa que usam, do time para que torcem. Mas não são só superfície. Partindo desses adereços, Hornby sabe como dar densidade a cada um de seus heróis - sempre num estilo leve e mordaz. Seus trabalhos mais recentes, aliás, têm mulheres como protagonistas. O romance Juliet, Nua e Crua será lançado em maio no Brasil pela editora Rocco. Bem antes disso, nesta sexta-feira, estreia em circuito nacional Uma Educação, que narra o caso de uma adolescente com um homem mais velho, no início dos anos 60. O filme concorre ao Oscar nas categorias melhor filme, melhor atriz (Carey Mulligan) e roteiro adaptado - esse último assinado por Hornby e publicado no Brasil, nesta semana, também pela Rocco. "Uma produção independente inglesa não tem chance de ganhar, por isso nem escreverei um discurso de agradecimento", diz o autor, que falou a VEJA por telefone, da Inglaterra.
A música pop ainda é um canal para os jovens expressarem
suas diferenças em relação aos pais?
Isso não
funciona mais bem assim. O rock agora é como a literatura: existe uma
biblioteca estabelecida. Você ouve o que está sendo feito hoje,
e se dá conta de que algumas coisas se parecem com Jimi Hendrix ou Pink
Floyd, e volta a escutar esses músicos. Sei que os jovens fazem isso:
estão ouvindo Jimi Hendrix como quem lê Flaubert.
Então não há mais música para expressar
rebeldia?
Bem, fora do rock, ainda há algumas formas musicais
que os pais têm dificuldade para entender. O hip-hop é um exemplo,
não tanto pela música em si, mas pela atitude social que seus
artistas transmitem. É irônico: achamos que somos muito liberais
e que nada do que nossos filhos façam pode nos chocar. O que nos choca
no hip-hop são o machismo e o materialismo das letras. De certo modo,
ficamos incomodados com o conservadorismo dessa música.
Em um artigo do ano passado sobre música digital, o senhor
comenta que "uma música de três minutos não vai durar
a sua vida toda". É uma ideia um tanto diferente da noção
tradicional que temos de arte, como algo duradouro, que fala para apreciadores
de todas as gerações.
Na verdade, não acho que as duas
ideias sejam necessariamente incompatíveis. Uma boa canção
pop pode ter algo a dizer a sucessivas gerações. Mas, no meu consumo
diário de música, não quero ouvir algo que já ouvi
500 vezes antes. Ainda ouço Bob Dylan de vez em quando, mas não
sei se vou ouvir, por exemplo, Blonde on Blonde do começo ao fim.
Meus filhos ainda podem ter uma relação intensa com esse disco
de Dylan. Trata-se de uma obra de arte que resiste ao tempo.
Seu filho mais velho é autista. Qual é a relação
dele com a música?
Ele tem um iPod e ouve música no carro ou na
hora de dormir. Tem seu gosto musical, e a música ajuda em alguns momentos.
Mas ele não pede para ouvir música com frequência.
Seus livros costumam ter vários elementos autobiográficos.
O senhor cogita escrever um romance sobre a experiência de ter um filho
autista?
Não, no momento não. Como leitor, mesmo tendo
um filho autista, não creio que teria o desejo de ler um livro sobre
o tema. E, se um livro pode se tornar um peso para o leitor, não vale
a pena escrevê-lo.
Não haveria um modo de escrever sobre o tema sem
que o livro se tornasse, como o senhor diz, um peso?
Não sei.
Não consigo pensar em um modo leve de escrever sobre isso.
O iPod e a música em formato digital mudaram o modo como
o ouvinte se relaciona com a música?
Sim. Foi uma mudança completa,
e não sei ainda se para o bem ou para o mal. Há inúmeras
comunidades organizadas em torno da música no mundo virtual, mas esse
intercâmbio não existe mais no mundo real. Em Londres, pelo menos,
não dá mais para ir a uma loja de discos para se encontrar com
pessoas que tenham gosto musical similar ao seu. Esse tipo de loja, que eu retratei
em Alta Fidelidade, não existe mais - aliás, seria impossível
escrever esse livro ambientado nos dias de hoje. Ao mesmo tempo, cresceu demais
o volume de músicas disponíveis.
Como assim?
Na adolescência, minha relação
com a música era muito íntima e intensa, porque eu não
tinha dinheiro para comprar muitos discos. Comecei minha coleção
com o primeiro disco- solo do Paul McCartney, que eu ouvi bastante. Comprei
outros discos, mas não foram muitos. Hoje é bem diferente. Outro
dia, uma sobrinha minha me pediu algumas indicações de música.
Dez minutos depois, eu havia carregado perto de 200 álbuns no iPod dela.
Uma quantidade dessas seria um sonho inalcançável quando eu tinha
15 ou 16 anos. Não sei como os jovens se relacionam hoje com a música,
que importância lhe dão, com esse acesso tão fácil
a uma quantidade tão grande.
O senhor sente falta das lojas de discos que fecharam?
Não
sou um nostálgico. Não temos mais esses lugares de encontro para
falar pessoalmente com outros fãs de música. Mas a internet oferece
compensações. Eu vejo muitos blogs de MP3, que funcionam mais
ou menos como lojas de discos - mas dando algumas canções de graça.
Como consumidor, não estou preocupado com os formatos digitais. É
como profissional de uma área criativa que eles me preocupam.
Por causa da dificuldade de cobrar por produtos digitais que caem
na rede?
Sim. Daqui a dez anos, poderá ser difícil fazer dinheiro
com livros, com música ou com filmes. Será um obstáculo
para a profissionalização do artista. Pode afetar a qualidade
das obras e até mesmo a idade das pessoas que fazem música. A
única maneira de ganhar dinheiro com música será fazendo
turnês a todo momento, o que, com exceções, não é
uma atividade tão comum entre músicos mais velhos. Se você
está na faixa dos 40 ou 50 anos e tem família, filhos para cuidar,
a estrada não é necessariamente compatível com seu estilo
de vida. A música pode acabar sendo como o serviço militar: algo
que você faz por pouco tempo quando é jovem - e depois parte para
outras coisas.
O senhor ainda compra CDs ou já aderiu completamente à
música digital?
Não sou inteiramente digital. Compro CDs de vez
em quando. Tenho a sensação de que, se não tenho a música
fisicamente, ela se perde. Quando faço o download de alguns discos, uma
semana depois não lembro mais quais eram. Já não sei mais
o que tenho no meu iPod. É por isso que gosto de comprar os CDs mais
importantes: é mais fácil lembrar deles quando estão visíveis
em uma pilha na minha casa.
O ensaio autobiográfico da jornalista Lynn Barber em que
se baseia Uma Educação está muito distante do seu território
pop habitual. A protagonista é uma menina de 16 anos, no início
dos anos 60, que gosta de música clássica e chanson francesa.
O que o motivou a escrever o roteiro do filme?
No seu tom, entre engraçado
e doloroso, o ensaio de Lynn Barber não é tão diferente
do que eu tento fazer na ficção. A protagonista do filme é
uma menina do subúrbio que receia estar perdendo as coisas legais que
acontecem na cidade. Esse também já foi um tema dos meus livros,
especialmente Febre de Bola. Penso em Uma Educação como
uma espécie de versão feminina - e sem futebol - de Febre de
Bola.
O senhor foi esse adolescente que temia estar perdendo as coisas?
Eu me reconheço nesses personagens, sim. Vivia a uns 50 quilômetros
de Londres e não gostava de ficar em casa. Na minha adolescência,
eu passava muito tempo em Londres, atrás não só do futebol,
mas também de música e de livros.
O que a trilha sonora do filme diz sobre o início dos anos
60 na Inglaterra?
Queria uma trilha que se afastasse do rocknroll
- uma trilha que parecesse mais velha do que Jenny (a personagem principal,
que tem 16 anos). É o tipo de música que ela ouviria para
parecer sofisticada e adulta - Ravel, Juliette Gréco. Uma garota como
Jenny não poderia gostar de música pop, que só começou
a ser levada a sério alguns anos depois, quando os Beatles e os Rolling
Stones conquistaram reconhecimento artístico. Nos anos retratados no
filme, os jovens ingleses educados não se interessavam pela cultura americana,
mas pela francesa. Queriam comer comida francesa, ouvir música francesa,
ler romances franceses e ver filmes franceses da nouvelle vague.
O que aconteceu com a França para perder essa influência
cultural?
Não sei explicar - você teria de perguntar aos
franceses. Acho que é difícil manter a autoconfiança quando
as pessoas não se interessam mais por você (risos). E, claro,
quando os americanos começaram a levar sua cultura pop mais a sério,
o resto do mundo também se interessou por ela.
O crítico musical Jon Savage, autor de A Criação
da Juventude, diz que seus livros só fazem exaltar o quarentão
que tenta parecer jovem ouvindo música pop. Como o senhor responde a
esse tipo de crítica?
Jon Savage não é um escritor
muito bem-sucedido - e, quando alguém faz sucesso, isso o deixa furioso.
De certo modo, somos inimigos ideológicos. Acho que a crítica
musical que ele faz é pretensiosa e tediosa. Minha obra não glamouriza
o quarentão imaturo - mas não acredito que críticos como
Savage tenham lido meus livros. Eles se atêm a uma ideia feita sobre a
minha literatura.
Seu primeiro livro, o autobiográfico Febre de Bola, era
sobre sua paixão pelo Arsenal, time de Londres. Nunca lhe ocorreu escrever
mais sobre futebol - sobre a seleção inglesa, talvez?
Sinto
que tudo o que eu tinha a dizer sobre futebol já foi dito em Febre
de Bola. Fazer outro livro sobre o tema seria barateá-lo. E eu torço
apenas pelo Arsenal, não pela seleção.
Por que não?
Não gosto muito dos jogadores ingleses.
Recentemente, houve um escândalo com John Terry, que deixou de ser o capitão
da seleção inglesa por causa de uma série de problemas
em sua vida privada - que envolvem infidelidade e bebida. A torcida inglesa
já teve, pelo menos no passado, seus problemas de violência e racismo.
Para um torcedor da minha idade, é um pouco difícil se identificar
com um time desses. De resto, as disputas interclubes andam mais interessantes
do que as Copas do Mundo. Costumava ser o contrário - mas, hoje, todos
os melhores jogadores do mundo estão em cinco ou seis times europeus.
Seus livros mostram uma compreensão aguda da psicologia
dos fãs - sejam de esporte, sejam de música. Nos seus romances,
esse fã obsessivo que idolatra um time ou um músico é sempre
um homem. A admiração fanática não existe entre
mulheres?
Logo que comecei a ir ao estádio para torcer pelo Arsenal,
eu olhava ao redor e via homens de todas as gerações - garotos,
adultos, velhos. Eu já imaginava então que o time seria uma paixão
para a minha vida toda. Não creio que o mesmo se dê com as mulheres.
Para elas, essas paixões são coisa da infância, que elas
abandonam quando chegam à idade adulta. Aos 13, 14 anos, elas podem idolatrar
uma boy band, mas depois se esquecem disso. E essa talvez seja uma atitude mais
saudável.
O senhor imagina que, como cantor de rock ou jogador de futebol,
seria mais feliz do que é como escritor?
Já senti isso, mas não
mais. Tenho 52 anos e um joelho ruim. Há uma vantagem fantástica
na escrita: é uma atividade à prova de idade. Também fico
satisfeito com o anonimato do escritor. Você pode ser tremendamente famoso
como autor e, mesmo assim, levar uma vida normal. Não costumam nos reconhecer
na rua. Um astro pop ou um jogador de futebol não contam com isso.