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Home  »  Revistas  »  Edição 2152 / 17 de fevereiro de 2010


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Ciência

Como a corrida termina

Descoberto o mecanismo que dá ao espermatozoide
o impulso extra para penetrar no óvulo. Isso facilita
o desenvolvimento do anticoncepcional masculino


Paula Neiva

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Os espermatozoides, as células reprodutivas masculinas, são depositados pela ejaculação no colo do útero e dali partem numa acirrada corrida pelos 15 centímetros que os separam da trompa de Falópio, onde se encontra o óvulo. Só um deles, mais rápido e forte, conseguirá penetrar no óvulo e dar início a uma nova vida. Pensava-se que os espermatozoides, assim como os aviões e os carros de corrida, dispunham de uma reserva de combustível para ser gasta nessa viagem. Sabe-se agora que não é bem assim. Um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e publicado na edição deste mês da revista Cell, revelou elementos até agora desconhecidos no processo de fecundação. O trabalho identifica e explica, pela primeira vez, o mecanismo que faz com que os espermatozoides liguem uma espécie de motor turbo na fase final de aproximação do óvulo. Esse motor não só aumenta a velocidade do espermatozoide como lhe dá vigor extra para romper a membrana celular do óvulo.

As implicações para a ciência médica são enormes. "É um passo importante para a criação de um anticoncepcional masculino e para o tratamento da infertilidade", diz o urologista Sidney Glina, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Um dos fatores cruciais para determinar a velocidade dos espermatozoides é o pH do meio onde eles se encontram. Quanto mais ácido o pH, mais lentamente eles se movimentam. Isso explica por que os gametas masculinos permanecem imóveis dentro do trato reprodutivo masculino, que é ácido, começam a mover-se quando estão no líquido seminal, que é alcalino, e se tornam agitados em contato com o aparelho reprodutor feminino, onde o pH é mais alcalino. Os pesquisadores foram além dessa constatação e descobriram que a aproximação do óvulo ativa estruturas localizadas na cauda do espermatozoide, as Hv1. Uma vez abertas, elas funcionam como comportas, pelas quais são expulsos íons de hidrogênio do interior do gameta masculino (veja o quadro). Esse curso aumenta imediatamente o pH interno do espermatozoide, facilitando sua mobilidade. "O mecanismo que descobrimos é como uma mudança de marcha para que o carro ultrapasse uma barreira. Ele fornece o impulso extra que permite romper a proteção externa do óvulo", disse a VEJA a pesquisadora Polina Lishko, coautora do estudo.

O gatilho que põe a corrente de íons em funcionamento fica nos arredores do óvulo. Nessa região, há dois fatores extremamente favoráveis à mobilidade das células masculinas. O primeiro é a baixa oferta de zinco, que em quantidade mais alta inibe a movimentação dos espermatozoides. A outra é a alta concentração de moléculas de anandamida, substância secretada pelos neurônios e presente também nas células de proteção dos óvulos. Inibir essa chave, teoricamente, inviabilizaria a concepção. "Há um potencial enorme para o desenvolvimento de anticoncepcionais sem efeitos colaterais, já que sua ação se daria exclusivamente nos espermatozoides, sem nenhuma repercussão em outros tecidos do corpo", diz Polina Lishko. Outra possível aplicação da descoberta está no campo da fertilidade, em casos em que a infertilidade masculina se deve a problemas de mobilidade dos espermatozoides.

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