|
|
Ponto
de vista: Lya Luft
Pode ser melhor
"A gente começa mais
um ano tendo
de acreditar. Não em receitas milagrosas,
mas num povo inteiro enxergando melhor,
querendo o melhor, e fazendo o melhor
que pode"
Se eu ficasse amarga com tudo
o que acontece de negativo não é meu jeito
, contaminaria a casa onde moro, a família que me cerca,
o companheiro que está comigo, os amigos e o mundo.
Porque sou importante? Nada disso.
Porque cada um de nós é uma partícula mínima,
parte do grande oceano em que somos lançados ao nascer: cada
gota envenenada modifica o todo, por pouco que seja. Por essa razão,
todos, industriais e garis, mulheres milionárias e faveladas,
trabalhadores e doentes acamados, os que estão nascendo e
os moribundos, somos igualmente importantes. Essa é a grande,
real democracia, pois a outra anda mancando, confusa e parcialmente
mascarada de vale-tudo.
Ilustração Atômica
Studio
 |
E eu, apesar de tantas realidades que provocam medo, angústia
ou indignação, sou dos que ainda acreditam que a vida
vale a pena, que as pessoas querem ser boas e felizes, e mais: que
felicidade existe, na forma de harmonia consigo mesmo, com os outros,
com a mãe natureza, com seu grupo, cidade, país. Pelo
menos uma tentativa se pode fazer: a de existir em harmonia relativa.
Porque não sendo nem anjos nem porcos, estamos no meio-termo:
passíveis de cometer horrores ou mesquinharias, gestos comoventes,
grandiosos ou secretos.
É assim a vida. Um lençol
curto, diz uma amiga; uma escada rolante que a gente tenta subir
pelo lado que desce, dizia outro. "Você vai morrer enforcada
na echarpe do seu romantismo feito uma Isadora Duncan", sentencia
alguém. Pode até ser, mas eu preciso dela, dessa echarpe,
que não é alienação nem ignorância
dos nossos males: é a fonte, o suporte, o alimento de que
necessito para não me amargurar. Roubalheira de um lado?
De outro, há tentativas de realmente ajudar. Cinismo dessa
parte? Da outra parte, real honradez. Apatia ou frivolidade? Mas
também capacidade imortal de indignação. Desejo
de destruição e vingança em uma pessoa, mas
em muitas vemos esforço de transformação, vemos
devoção, carinho, vontade de entendimento. Por toda
parte dor, muita dor.
Mas nessa teia, nesse quebra-cabeça,
a gente começa mais um ano tendo de acreditar. Não
em receitas milagrosas, não em cartolas de mágico
das quais saltem pessoas mais amorosas, saúde, emprego e
educação em crescimento, um país vigoroso,
uma realidade tranqüila, menos violência e menos abandono,
menos coroamento da corrupção e da desonestidade.
Mas num povo inteiro enxergando melhor, querendo o melhor, e fazendo
o melhor que pode, com seus líderes, seja de bairro, de estado,
do país, fazendo o mesmo.
Acredito em famílias em
que até pais separados conseguem ser amigos e dar aos filhos
a segurança do seu amor, que nada deveria ter a ver com o
fim da relação marido/mulher. Famílias em que
filhos adultos, mesmo distantes, vêem pai e mãe com
camaradagem e respeito, e alegria, como seres humanos que são,
imperfeitos mas dignos de amor, com bagagem de experiência
a ser buscada e curtida.
Acredito que pessoas que perderam
alguém muito amado aos poucos, duramente, entendem que a
melhor homenagem a quem partiu é tentar voltar a viver na
possível plenitude; acredito em esquinas sem crianças
pedintes, calçadas sem mendigos, pontes sem famílias
morando embaixo, ruas sem assaltantes, noites sem assassinos, casas
sem gente temerosa protegida por grades, alarmes e cães ferozes.
Acredito em líderes com
boa vontade e humildade, querendo ajudar à sua gente, usando
para isso de seu preparo, informação, grandeza pessoal
e valor. Em empresas onde funcionários e operários
são tratados como gente, não apenas porque trabalhador
bem tratado produz mais, mas porque somos todos irmãos.
Talvez eu espere algo miraculoso.
Mas, se a gente der um passo real na direção disso,
terá valido a pena acreditar: em si mesmo, no outro, na família,
nos amigos e colegas, nos líderes, nos filhos e nos pais:
não como perfeição, mas como esperança,
grão de otimismo, vontade de algo melhor.
Se eu ficasse amarga, porém,
se nós fôssemos contaminados por esse vírus
maligno do pessimismo, de nada adiantariam crianças brincando,
ondas batendo, rios correndo, estrelas faiscando, gente se amando:
seríamos meros fantasmas. Então, o jeito é
acreditar que, com força, fé e boa vontade, 2007 nos
será benigno.
Lya Luft é escritora
|