|
|
Televisão
Novela mal-assombrada
Manoel Carlos deixa o realismo
para lá e
abraça o ectoplasma em Páginas da Vida

Marcelo Marthe
 |
| Nanda assusta Marta no espelho: ciúme
da "dublê de fantasma" |
Na semana passada,
a novela Páginas da Vida teve uma cena digna de filme
trash de terror. Tendo ao fundo o uivo do vento e uma musiquinha
dissonante, coisas muito estranhas aconteceram na casa da médica
Helena (Regina Duarte). As janelas começaram a bater. Objetos
caíram ao chão. As chamas do fogão se acenderam
subitamente. O relógio girou de forma enlouquecida. Um guardanapo
pegou fogo sozinho. Enquanto isso, um vulto corria pelos aposentos.
A imagem de Helena com os olhos arregalados completava o quadro
de horror. Era, enfim, mais uma manifestação do fantasma
de Nanda (Fernanda Vasconcellos), a mãe dos gêmeos
que estão no centro da trama das 8 da Globo. Ela fez isso
para impedir que a megera Marta (Lilia Cabral) descobrisse que sua
filha Clara foi adotada por Helena. A seqüência não
causaria espanto num folhetim de Walcyr Carrasco ou Glória
Perez, para citar dois noveleiros cuja imaginação
costuma não ter limites. Mas assinala uma novidade no estilo
de Manoel Carlos. O autor de Páginas da Vida sempre
foi tido como o mais realista dentre seus pares. Seus dois folhetins
anteriores já tinham alguma pitada de sobrenatural, é
verdade. Só que nem de longe de forma tão escancarada.
Com o show de assombração na casa de Helena, ele abraçou
o fantástico de vez. "Faço novela para todo mundo,
inclusive os que acreditam na comunicação entre vivos
e mortos", diz.
O estudioso das telenovelas Mauro
Alencar, doutor pela Universidade de São Paulo, diz que os
espectros rondam a televisão brasileira há mais de
quarenta anos. "Os fantasmas povoam os folhetins desde 1966, quando
Suzana Vieira encarnou um deles em A Pequena Karen, na TV
Excelsior", afirma Alencar. Conhecida por suas tramas espíritas,
Ivani Ribeiro explorou esse tipo de personagem em obras como O
Profeta (1977) que atualmente ganha nova versão
no horário das 6 da Globo. Ao justificar as primeiras aparições
de Nanda depois de morta em Páginas da Vida, o noveleiro
Manoel Carlos se referiu a ela como uma espécie de consciência
dos personagens. Ela seria uma força pairando acima de mocinhos
e vilões e interferindo nos rumos da ação.
Mas ela logo se revelou um espírito em sua representação
mais cabal. O vestido branco e os cabelos de Nanda emulam o visual
da fantasma do filme japonês O Chamado. Ela já
surgiu no espelho diante de Marta com uma expressão que faria
inveja a Chucky, o brinquedo assassino. E também assustou
a megera ao se jogar na frente de seu carro.
Quando Nanda morreu no parto,
no começo da história, Fernanda Vasconcellos achou
que sua participação na novela estava encerrada. Quando,
convertida em ectoplasma, a personagem voltou a aparecer de relance
em algumas cenas, a produção da Globo nem se dava
ao trabalho de chamar a atriz para todas as gravações
o serviço cabia a uma dublê. Mas isso mudou
com o destaque crescente. "Fiquei com ciúme. Agora quero
gravar eu mesma", brinca a atriz. Na semana passada, contudo, sua
dublê-fantasma voltou à ativa. Fernanda estava de cama
com uma virose. A carne é fraca.
|