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Edição 1991 . 17 de janeiro de 2007

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Televisão
Novela mal-assombrada

Manoel Carlos deixa o realismo para lá e
abraça o ectoplasma em Páginas da Vida


Marcelo Marthe

 
Nanda assusta Marta no espelho: ciúme da "dublê de fantasma"

Na semana passada, a novela Páginas da Vida teve uma cena digna de filme trash de terror. Tendo ao fundo o uivo do vento e uma musiquinha dissonante, coisas muito estranhas aconteceram na casa da médica Helena (Regina Duarte). As janelas começaram a bater. Objetos caíram ao chão. As chamas do fogão se acenderam subitamente. O relógio girou de forma enlouquecida. Um guardanapo pegou fogo sozinho. Enquanto isso, um vulto corria pelos aposentos. A imagem de Helena com os olhos arregalados completava o quadro de horror. Era, enfim, mais uma manifestação do fantasma de Nanda (Fernanda Vasconcellos), a mãe dos gêmeos que estão no centro da trama das 8 da Globo. Ela fez isso para impedir que a megera Marta (Lilia Cabral) descobrisse que sua filha Clara foi adotada por Helena. A seqüência não causaria espanto num folhetim de Walcyr Carrasco ou Glória Perez, para citar dois noveleiros cuja imaginação costuma não ter limites. Mas assinala uma novidade no estilo de Manoel Carlos. O autor de Páginas da Vida sempre foi tido como o mais realista dentre seus pares. Seus dois folhetins anteriores já tinham alguma pitada de sobrenatural, é verdade. Só que nem de longe de forma tão escancarada. Com o show de assombração na casa de Helena, ele abraçou o fantástico de vez. "Faço novela para todo mundo, inclusive os que acreditam na comunicação entre vivos e mortos", diz.

O estudioso das telenovelas Mauro Alencar, doutor pela Universidade de São Paulo, diz que os espectros rondam a televisão brasileira há mais de quarenta anos. "Os fantasmas povoam os folhetins desde 1966, quando Suzana Vieira encarnou um deles em A Pequena Karen, na TV Excelsior", afirma Alencar. Conhecida por suas tramas espíritas, Ivani Ribeiro explorou esse tipo de personagem em obras como O Profeta (1977) – que atualmente ganha nova versão no horário das 6 da Globo. Ao justificar as primeiras aparições de Nanda depois de morta em Páginas da Vida, o noveleiro Manoel Carlos se referiu a ela como uma espécie de consciência dos personagens. Ela seria uma força pairando acima de mocinhos e vilões e interferindo nos rumos da ação. Mas ela logo se revelou um espírito em sua representação mais cabal. O vestido branco e os cabelos de Nanda emulam o visual da fantasma do filme japonês O Chamado. Ela já surgiu no espelho diante de Marta com uma expressão que faria inveja a Chucky, o brinquedo assassino. E também assustou a megera ao se jogar na frente de seu carro.

Quando Nanda morreu no parto, no começo da história, Fernanda Vasconcellos achou que sua participação na novela estava encerrada. Quando, convertida em ectoplasma, a personagem voltou a aparecer de relance em algumas cenas, a produção da Globo nem se dava ao trabalho de chamar a atriz para todas as gravações – o serviço cabia a uma dublê. Mas isso mudou com o destaque crescente. "Fiquei com ciúme. Agora quero gravar eu mesma", brinca a atriz. Na semana passada, contudo, sua dublê-fantasma voltou à ativa. Fernanda estava de cama com uma virose. A carne é fraca.

 
 
 
 
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