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Edição 1991 . 17 de janeiro de 2007

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Livros
Um Tolkien esculhambado

Terry Pratchett bagunça a ficção
fantástica com uma série que já
vendeu 40 milhões de livros


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho de O Senhor da Foice

O escritor inglês Terry Pratchett, de 58 anos, já foi comparado a muita gente. Do romancista vitoriano Charles Dickens a Douglas Adams, o criador do Mochileiro das Galáxias, do mestre da literatura de fantasia J.R.R. Tolkien ao grupo humorístico inglês Monty Python, toda sorte de influência ou afinidade já foi apontada em sua obra. Modestamente, o próprio Pratchett menciona o menos conhecido Jerome K. Jerome, humorista inglês do fim do século XIX, como um antecessor. O curioso é que, num ponto ou outro, todas essas aproximações fazem sentido. Com veia satírica, Pratchett cozinhou uma série de influências díspares em Discworld, sua série de aventuras em um planeta em forma de disco que vaga pelo multiverso (não confundir com o prosaico universo que abriga a Terra) sobre as costas de quatro elefantes, que por sua vez pisam o casco de uma gigantesca tartaruga estelar. Com 34 livros – onze deles lançados no Brasil, pela editora Conrad –, a série já foi traduzida em 33 idiomas, vendeu 40 milhões de exemplares e acaba de ganhar sua primeira versão cinematográfica (Hogfather, uma produção britânica de baixo orçamento). Na Inglaterra, em especial, o mundo amalucado de Pratchett é objeto de culto. Existem até mesmo convenções Discworld, às quais o autor orgulhosamente comparece. Pratchett diz que deseja dar a seus fãs o mesmo incentivo e a mesma inspiração que encontrou nas convenções de ficção científica que freqüentou quando garoto. "Lá eu encontrava escritores que eram deuses para mim, gente como Arthur C. Clarke. E eles se sentavam e conversavam com os leitores", disse Pratchett a VEJA. Sua presença assídua em festivais literários, sessões de autógrafos e eventos já gerou uma piada: dizem que seus livros não autografados são mais raros e valiosos do que os autografados.

A Inglaterra produz uma vasta literatura sobre mundos fantásticos habitados por fadas, magos, duendes e toda uma fauna mágica. "Os americanos são bons em ficção científica. Nós somos os melhores na fantasia", afirma Pratchett. Ele arrisca duas explicações alternativas (e irônicas, como não poderia deixar de ser) para o fenômeno. Uma é meteorológica: chove muito na Inglaterra, o que induz seus habitantes a sonhar com mundos menos úmidos. A outra remete à história colonial do império britânico: "Nós não nos contentamos em colonizar o mundo real e partimos para conquistar universos imaginários". Pratchett embarcou nessa tradição para bagunçá-la – na linha do que seu contemporâneo Douglas Adams fez com a ficção científica. A série Discworld começou nos anos 80, com A Cor da Magia. O escritor recorda que nessa época se produzia, na Inglaterra, muita "ficção derivativa" (palavra elegante para a cópia) de Tolkien. Foi quando ele teve a idéia de parodiar esses mundos mágicos. Em Discworld, estão lá os magos, os trolls, os vampiros. Mas não são para levar a sério.

O Senhor da Foice (tradução de Ludimila Hashimoto; 288 páginas; 38 reais), o mais recente livro da série lançado no Brasil, é uma boa amostra da imaginação esculhambada de Pratchett. A história começa com a Morte (personagem curiosamente simpático) sendo demitida, o que gera caos em Discworld. A galeria dos personagens inclui Reg Shoe, o zumbi ativista que luta pelos direitos dos mortos, e Lupino, um lobo que vira homem quando a Lua está cheia. Seguindo as convenções do gênero, o Disco é um mundo medieval, no qual a carroça é o principal meio de transporte e ferreiro é a profissão mais tecnológica que existe. Mas Pratchett cultiva anacronismos engraçados, plantando uma série de alusões ao mundo moderno – caso, neste livro, de um shopping center monstruoso que surge junto à atrasada cidade de Ankh-Morpork. Não é de estranhar que Pratchett se tenha convertido em autor cult. O universo anárquico que ele criou é ao mesmo tempo profundamente organizado: tem aqueles personagens e características recorrentes que fazem a festa dos fãs do gênero. O autor, aliás, faz questão de distinguir os fãs dos leitores: "O fã é aquele que compra a camiseta e vai ver o filme. O leitor pode até conhecer todos os livros, mas não compra a camiseta". Discworld consegue divertir fãs e leitores.

 
O futuro no mingau de aveia

"A senhora Evadne Bolinho era médium, além de pequena. Seu trabalho não lhe exigia muito. Poucas pessoas que morriam em Ankh-Morpork demonstravam algum interesse em bater papo com os parentes vivos. Coloque o maior número possível de dimensões místicas entre você e eles, esse era o seu lema. Ela preenchia o tempo entre a costura e o trabalho da igreja – qualquer igreja. A senhora Bolinho conseguia ler o futuro numa tigela de mingau de aveia. Ela poderia receber uma revelação numa frigideira cheia de bacon. Passara a vida inteira mexendo com o mundo espiritual, embora, no caso da senhora Bolinho, mexer não seja a palavra adequada. Era mais o caso de bater o pé no mundo espiritual e mandar chamarem o gerente."

Trecho de O Senhor da Foice

 

 
 
 
 
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