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Livros
Um Tolkien esculhambado
Terry Pratchett bagunça a ficção fantástica com
uma série que já vendeu 40 milhões de livros

Jerônimo Teixeira
O escritor inglês
Terry Pratchett, de 58 anos, já foi comparado a muita gente. Do romancista
vitoriano Charles Dickens a Douglas Adams, o criador do Mochileiro das Galáxias,
do mestre da literatura de fantasia J.R.R. Tolkien ao grupo humorístico
inglês Monty Python, toda sorte de influência ou afinidade já
foi apontada em sua obra. Modestamente, o próprio Pratchett menciona o
menos conhecido Jerome K. Jerome, humorista inglês do fim do século
XIX, como um antecessor. O curioso é que, num ponto ou outro, todas essas
aproximações fazem sentido. Com veia satírica, Pratchett
cozinhou uma série de influências díspares em Discworld,
sua série de aventuras em um planeta em forma de disco que vaga pelo
multiverso (não confundir com o prosaico universo que abriga a Terra) sobre
as costas de quatro elefantes, que por sua vez pisam o casco de uma gigantesca
tartaruga estelar. Com 34 livros onze deles lançados no Brasil,
pela editora Conrad , a série já foi traduzida em 33 idiomas,
vendeu 40 milhões de exemplares e acaba de ganhar sua primeira versão
cinematográfica (Hogfather, uma produção britânica
de baixo orçamento). Na Inglaterra, em especial, o mundo amalucado de Pratchett
é objeto de culto. Existem até mesmo convenções Discworld,
às quais o autor orgulhosamente comparece. Pratchett diz que deseja dar
a seus fãs o mesmo incentivo e a mesma inspiração que encontrou
nas convenções de ficção científica que freqüentou
quando garoto. "Lá eu encontrava escritores que eram deuses para mim, gente
como Arthur C. Clarke. E eles se sentavam e conversavam com os leitores", disse
Pratchett a VEJA. Sua presença assídua em festivais literários,
sessões de autógrafos e eventos já gerou uma piada: dizem
que seus livros não autografados são mais raros e valiosos do que
os autografados. A
Inglaterra produz uma vasta literatura sobre mundos fantásticos habitados
por fadas, magos, duendes e toda uma fauna mágica. "Os americanos são
bons em ficção científica. Nós somos os melhores na
fantasia", afirma Pratchett. Ele arrisca duas explicações alternativas
(e irônicas, como não poderia deixar de ser) para o fenômeno.
Uma é meteorológica: chove muito na Inglaterra, o que induz seus
habitantes a sonhar com mundos menos úmidos. A outra remete à história
colonial do império britânico: "Nós não nos contentamos
em colonizar o mundo real e partimos para conquistar universos imaginários".
Pratchett embarcou nessa tradição para bagunçá-la
na linha do que seu contemporâneo Douglas Adams fez com a ficção
científica. A série Discworld começou nos anos 80,
com A Cor da Magia. O escritor recorda que nessa época se produzia,
na Inglaterra, muita "ficção derivativa" (palavra elegante para
a cópia) de Tolkien. Foi quando ele teve a idéia de parodiar esses
mundos mágicos. Em Discworld, estão lá os magos, os
trolls, os vampiros. Mas não são para levar a sério.
O Senhor da Foice (tradução
de Ludimila Hashimoto; 288 páginas; 38 reais), o mais recente livro da
série lançado no Brasil, é uma boa amostra da imaginação
esculhambada de Pratchett. A história começa com a Morte (personagem
curiosamente simpático) sendo demitida, o que gera caos em Discworld. A
galeria dos personagens inclui Reg Shoe, o zumbi ativista que luta pelos direitos
dos mortos, e Lupino, um lobo que vira homem quando a Lua está cheia. Seguindo
as convenções do gênero, o Disco é um mundo medieval,
no qual a carroça é o principal meio de transporte e ferreiro é
a profissão mais tecnológica que existe. Mas Pratchett cultiva anacronismos
engraçados, plantando uma série de alusões ao mundo moderno
caso, neste livro, de um shopping center monstruoso que surge junto à
atrasada cidade de Ankh-Morpork. Não é de estranhar que Pratchett
se tenha convertido em autor cult. O universo anárquico que ele criou é
ao mesmo tempo profundamente organizado: tem aqueles personagens e características
recorrentes que fazem a festa dos fãs do gênero. O autor, aliás,
faz questão de distinguir os fãs dos leitores: "O fã é
aquele que compra a camiseta e vai ver o filme. O leitor pode até conhecer
todos os livros, mas não compra a camiseta". Discworld consegue
divertir fãs e leitores.
| O
futuro no mingau de aveia | | "A
senhora Evadne Bolinho era médium, além de pequena. Seu trabalho
não lhe exigia muito. Poucas pessoas que morriam em Ankh-Morpork demonstravam
algum interesse em bater papo com os parentes vivos. Coloque o maior número
possível de dimensões místicas entre você e eles, esse
era o seu lema. Ela preenchia o tempo entre a costura e o trabalho da igreja
qualquer igreja. A senhora Bolinho conseguia ler o futuro numa tigela de mingau
de aveia. Ela poderia receber uma revelação numa frigideira cheia
de bacon. Passara a vida inteira mexendo com o mundo espiritual, embora, no caso
da senhora Bolinho, mexer não seja a palavra adequada. Era mais o caso
de bater o pé no mundo espiritual e mandar chamarem o gerente."
Trecho de O Senhor da Foice | |
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