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Cinema Ninguém
se entende Nem o diretor Alejandro Iñárritu
e seu roteirista, que fazem de Babel um festival de descompassos  Isabela
Boscov
AFP
 | MARROCOS
Pitt, como o marido que tenta salvar a vida da mulher, ferida por uma bala perdida:
uma história que, sozinha, sem as fatalidades que desencadeia no Japão e no México,
renderia um bom filme |
Um pastor marroquino vende seu rifle
para um vizinho; os filhos do vizinho, encarregados de alvejar chacais, em vez
disso miram de brincadeira num ônibus de turistas; uma bala atinge uma americana
que viaja com o marido, deixando-a à morte no meio do deserto e ensejando
uma crise internacional. Num acúmulo improvável de coincidências,
esse episódio repercutirá na fronteira do México, onde uma
babá perde duas crianças também no meio de um deserto, e
em Tóquio, onde uma adolescente surda-muda mergulha no isolamento. "Acúmulo"
e "improvável" são as duas palavras que realmente importam em Babel
(Estados Unidos/México, 2006), o filme do mexicano Alejandro González
Iñárritu que estréia nesta sexta-feira no país. Como
em seus trabalhos anteriores, Amores Brutos e 21 Gramas, o diretor
lida aqui com acontecimentos fortuitos que disparam tragédias e interligam
vidas distantes. Mas em Babel o arranjo soa particularmente arbitrário
e forçado. "Meu amigo Herbert foi grosseiro com a sua mãe, e algum
tempo depois o Monte Santa Helena entrou em erupção", escreveu o
crítico David Denby numa resenha atiladíssima na revista The
New Yorker, ironizando o sem-pé-nem-cabeça das inter-relações
fatalistas de Babel. Divulgação
 | JAPÃO
A adolescente surda-muda: vítima, também, do tiro no deserto |
O curioso é quanto as partes de Babel valem mais do que sua soma.
O entrecho do marido (Brad Pitt, numa boa atuação) que tenta salvar
a mulher ferida (Cate Blanchett) num vilarejo marroquino, enquanto a algumas centenas
de metros dali o pastor dono do rifle tenta salvar seus filhos da perseguição,
poderia render um filme inteiro, e melhor do que este. O mesmo se pode dizer da
história da babá (a soberba Adriana Barraza) que, ao levar um cano
dos patrões, carrega consigo da Califórnia para o México
as duas crianças das quais cuida, a fim de festejar o casamento do filho,
e avalia mal o senso de responsabilidade de seu sobrinho e motorista (Gael García
Bernal). Ou da trama sobre a japonesa surda-muda (Rinko Kikuchi) que perdeu a
mãe, não consegue se comunicar com o pai e busca algum contato íntimo
masculino de forma desesperada, e desastrosa. Conectadas, porém, essas
histórias passam a ser simples peças no grande plano de Iñárritu:
demonstrar que ninguém no mundo se entende, e por isso todos erram uns
contra os outros exceto pelo próprio diretor, que compreende a todos
e assim pode iluminar a platéia. Cheira a arrogância. (E, como no
caso de Crash, ganhador do ano passado, cheira também a Oscar.)
Divulgação
 | MÉXICO
Bernal, com as crianças das quais deveria cuidar: todos erram uns contra os outros
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É uma decepção
que um filme repleto de excelentes interpretações e tão bem-feito
estacione nesse saldo. Parte da razão pode estar numa briga que vem se
arrastando entre Iñárritu e seu até aqui colaborador inseparável,
o roteirista Guillermo Arriaga. O jornal Los Angeles Times apurou que o
diretor proibiu Arriaga de acompanhá-lo ao Festival de Cannes deste ano,
porque este reclamara para si parte (boa parte, aliás) dos louros pelos
filmes feitos com o parceiro. É nesse contexto que se deve entender, por
exemplo, a declaração de Iñárritu a VEJA, durante
uma visita recente ao Rio de Janeiro: "Não fiz nenhuma concessão
nesse filme. Tenho a sorte, desde Amores Brutos, de não ter de mudar
nenhuma palavra de meus filmes. A responsabilidade é minha, desde a idéia
até o último quadro", disse ele. Essa rivalidade entre o diretor
e o roteirista pelo posto de autor verdadeiro ajuda a explicar os descompassos
de Babel e cria uma ironia quase que poética. De fato, este
é um mundo em que ninguém se entende. Com
reportagem de Marcelo Bortoloti |