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Edição 1991 . 17 de janeiro de 2007

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Cinema
Ninguém se entende

Nem o diretor Alejandro Iñárritu
e seu roteirista, que fazem de Babel
um festival de descompassos


Isabela Boscov

 

AFP
MARROCOS
Pitt, como o marido que tenta salvar a vida da mulher, ferida por uma bala perdida: uma história que, sozinha, sem as fatalidades que desencadeia no Japão e no México, renderia um bom filme


DA INTERNET
Trailer do filme

Um pastor marroquino vende seu rifle para um vizinho; os filhos do vizinho, encarregados de alvejar chacais, em vez disso miram de brincadeira num ônibus de turistas; uma bala atinge uma americana que viaja com o marido, deixando-a à morte no meio do deserto e ensejando uma crise internacional. Num acúmulo improvável de coincidências, esse episódio repercutirá na fronteira do México, onde uma babá perde duas crianças também no meio de um deserto, e em Tóquio, onde uma adolescente surda-muda mergulha no isolamento. "Acúmulo" e "improvável" são as duas palavras que realmente importam em Babel (Estados Unidos/México, 2006), o filme do mexicano Alejandro González Iñárritu que estréia nesta sexta-feira no país. Como em seus trabalhos anteriores, Amores Brutos e 21 Gramas, o diretor lida aqui com acontecimentos fortuitos que disparam tragédias e interligam vidas distantes. Mas em Babel o arranjo soa particularmente arbitrário e forçado. "Meu amigo Herbert foi grosseiro com a sua mãe, e algum tempo depois o Monte Santa Helena entrou em erupção", escreveu o crítico David Denby numa resenha atiladíssima na revista The New Yorker, ironizando o sem-pé-nem-cabeça das inter-relações fatalistas de Babel.

 

Divulgação
JAPÃO
A adolescente surda-muda: vítima, também, do tiro no deserto

O curioso é quanto as partes de Babel valem mais do que sua soma. O entrecho do marido (Brad Pitt, numa boa atuação) que tenta salvar a mulher ferida (Cate Blanchett) num vilarejo marroquino, enquanto a algumas centenas de metros dali o pastor dono do rifle tenta salvar seus filhos da perseguição, poderia render um filme inteiro, e melhor do que este. O mesmo se pode dizer da história da babá (a soberba Adriana Barraza) que, ao levar um cano dos patrões, carrega consigo da Califórnia para o México as duas crianças das quais cuida, a fim de festejar o casamento do filho, e avalia mal o senso de responsabilidade de seu sobrinho e motorista (Gael García Bernal). Ou da trama sobre a japonesa surda-muda (Rinko Kikuchi) que perdeu a mãe, não consegue se comunicar com o pai e busca algum contato íntimo masculino de forma desesperada, e desastrosa. Conectadas, porém, essas histórias passam a ser simples peças no grande plano de Iñárritu: demonstrar que ninguém no mundo se entende, e por isso todos erram uns contra os outros – exceto pelo próprio diretor, que compreende a todos e assim pode iluminar a platéia. Cheira a arrogância. (E, como no caso de Crash, ganhador do ano passado, cheira também a Oscar.)

 

Divulgação
MÉXICO
Bernal, com as crianças das quais deveria cuidar: todos erram uns contra os outros

É uma decepção que um filme repleto de excelentes interpretações e tão bem-feito estacione nesse saldo. Parte da razão pode estar numa briga que vem se arrastando entre Iñárritu e seu até aqui colaborador inseparável, o roteirista Guillermo Arriaga. O jornal Los Angeles Times apurou que o diretor proibiu Arriaga de acompanhá-lo ao Festival de Cannes deste ano, porque este reclamara para si parte (boa parte, aliás) dos louros pelos filmes feitos com o parceiro. É nesse contexto que se deve entender, por exemplo, a declaração de Iñárritu a VEJA, durante uma visita recente ao Rio de Janeiro: "Não fiz nenhuma concessão nesse filme. Tenho a sorte, desde Amores Brutos, de não ter de mudar nenhuma palavra de meus filmes. A responsabilidade é minha, desde a idéia até o último quadro", disse ele. Essa rivalidade entre o diretor e o roteirista pelo posto de autor verdadeiro ajuda a explicar os descompassos de Babel – e cria uma ironia quase que poética. De fato, este é um mundo em que ninguém se entende.

Com reportagem de Marcelo Bortoloti

 
 
 
 
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