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Internacional
O velho que finge ser novo
O socialismo do século XXI anunciado por Chávez nada mais é
que a volta do velho caudilhismo populista da América Latina
 Denise
Dweck Leslie
Mazoch/AP
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desfila na posse do terceiro mandato: reedição tardia do caudilhismo latino-americano
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Ao tomar posse no terceiro mandato
sucessivo, o presidente venezuelano Hugo Chávez anunciou, sem meias palavras,
que chegou a hora de avançar para a etapa final da corrida, aquela em que
ele vai governar por decreto, numa Presidência virtualmente vitalícia,
sem dar satisfações a nenhum outro poder republicano. Como todos
os deputados venezuelanos são chavistas a oposição
boicotou as eleições de cartas marcadas , é dado como
certo que o presidente vai conseguir o que deseja e, com seu socialismo improvisado,
matar o que resta de democracia. "A transição acabou", discursou
o presidente. "Uma nova era" começou, a do "socialismo do século
XXI". Ele pretende estatizar o setor de telecomunicações, o de energia
elétrica e, para não deixar dúvidas sobre o tratamento previsto
para a oposição daqui em diante, vai tirar do ar uma rede de televisão
crítica a seu governo. Feito tudo isso, sobra pouca coisa de valor na pequena
economia venezuelana, já fortemente estatizada mas ficou no ar a
suspeita de que o governo pretende avançar sobre as propriedades rurais
e outros negócios privados.
Como ele não tinha adiantado esses planos na campanha eleitoral, muitos
de seus eleitores se declaram surpresos, e alguns até decepcionados. Não
há razões para tal engano. Chávez foi eleito em 1998, num
momento de crise econômica e social, e usou sistematicamente as regras democráticas
para destruir a democracia. Com plebiscitos sucessivos, reescreveu a Constituição,
estendeu o próprio mandato e agora vai se dar o direito de ser reeleito
quantas vezes puder. Se o discurso ideológico de Chávez for descascado
como uma banana, o que sobra é uma retórica vazia e antiquada. Seu
socialismo do século XXI tem pouco a ver com Marx (o que é bom)
e praticamente tudo a ver com o velho populismo nacionalista dos caudilhos latino-americanos
de décadas passadas (o que é péssimo). O ex-chanceler mexicano
Jorge Castañeda escreveu que Chávez não é um novo
Fidel Castro. Ele é um Juan Domingo Perón com petróleo.
Não existe um caudilho populista em versão moderna. Todos seguem
um modelo de triste memória, responsável pelo atraso e pela pobreza
da América Latina. Chávez junta conceitos comunistas, um cristianismo
de tons messiânicos e o culto ao herói libertador da Venezuela, Simon
Bolívar, numa salada mista de gosto duvidoso. Chávez alcança
a proeza de juntar o pior da tradição caudilhesca. No aspecto populista,
ele se aproxima bastante de Juan Velasco Alvarado, o general esquerdista que governou
o Peru de 1968 a 1975, e que, como Chávez, inchou o papel do Estado na
economia, calcado no uso populista dos recursos naturais. Velasco é lembrado
sobretudo como o presidente que fez uma das reformas agrárias mais malsucedidas
da região, criando milhares de pequenas propriedades ineficientes. No aspecto
personalista, parece a reencarnação de Rafael Trujillo, folclórico
ditador da República Dominicana duas vezes entre 1930 e 1961. Trujillo
levou ao extremo o conceito de que o caudilho tudo pode. Para legitimar seu poder,
modificou a Constituição sucessivas vezes, tal como faz Chávez.
Ele transformou o merengue na música nacional e, todos os dias, as crianças
repetiam nas escolas uma prece para Deus, a pátria e Trujillo. Chávez
proibiu a árvore de Natal como símbolo do americanismo.
Por fim, no aspecto militarista, o argentino Juan Domingo Perón é
um bom paralelo. Perón, como Chávez, era coronel quando entrou para
a vida política ao participar de um golpe militar em 1943. Posteriormente,
ganhou popularidade graças à aliança com sindicatos. Perón
também tinha sempre algumas palavras duras dedicadas ao que ele chamava
de oligarquia nacional. O evidente perfil de farsante não torna Chávez
menos perigoso. Com o dinheiro do petróleo e planos de exportar sua revolução,
o caudilho venezuelano não pode ser visto como uma personagem folclórica.
Sua mania de financiar insurreições nos países vizinhos,
a forma agressiva com que patrocinou os avanços do boliviano Evo Morales
sobre o patrimônio da Petrobras fazem dele um inimigo do Brasil. Um regime
totalitário num país produtor de petróleo, como a Venezuela,
tem repercussão negativa para todo o continente. A América Latina
fica com a fama de ser uma região de populistas. A verdade é outra.
Na seqüência de eleições presidenciais do ano passado,
os latino-americanos optaram, em sua maioria, por governos que trabalham pela
estabilidade e pela abertura econômicas. Chávez é o cão
que ladra sozinho. Quem sofre com
tudo isso é a Venezuela. Apesar do falatório, as medidas de Hugo
Chávez são irrelevantes para os vizinhos, exceto para Estados fracassados,
como a Bolívia, onde Chávez financia um clone ainda mais primitivo,
Evo Morales. O atual pacote de reformas de Chávez é contra a modernidade
e a integração econômica porque, quando um país começa
a implementar medidas hostis aos negócios, como ocorre na Venezuela, acaba
por se isolar no cenário mundial e perde os benefícios do intercâmbio
de informação e produtos da economia global.
Os efeitos disso já podem ser vistos na Venezuela: nos últimos oito
anos de governo Chávez, os investimentos estrangeiros diretos caíram
pela metade. O mundo vive um momento de intenso fluxo de pessoas, mercadorias,
capital e conhecimento. As propostas de estatização de Chávez
destroem as condições para que a Venezuela acompanhe o constante
avanço tecnológico mundial uma bênção
da concorrência. Dificilmente esse modelo terá atrativos para outros
países sul-americanos, onde reina um clima de otimismo com o crescimento
econômico e com a democracia.
A ironia é que nada do que Chávez propõe é novo. Ele
disse que pretende nacionalizar a empresa Cantv, a maior companhia telefônica
do país. Ela já foi estatizada nos anos 50 e novamente privatizada
em 1991. Como no Brasil, a privatização da telefonia venezuelana
levou a um salto na qualidade nos serviços de comunicação.
O número de telefones fixos por habitante entre 1990 e 2001 aumentou em
60%. "Se a empresa for nacionalizada, é praticamente certo que vai perder
eficiência, como ocorreu com a PDVSA sob o controle de Chávez", diz
Luis Giusti, ex-presidente da estatal petrolífera venezuelana. Na década
de 70, o presidente Carlos Andrés Pérez também nacionalizou
as indústrias de petróleo e de ferro. Por um tempo, a economia seguiu
bem em virtude das altas no valor do produto fóssil. Quando os preços
caíram, veio à tona a fragilidade da economia venezuelana, e o país
dobrou-se sob o peso do Estado, que sustentava a sociedade com os petrodólares.
Qualquer semelhança com a Venezuela de Chávez não é
mera coincidência. O país cresceu 10,3% no ano passado, graças
à receita do petróleo e ao aumento dos gastos públicos, de
124%. Se o preço do petróleo cair, não haverá outro
setor produtivo forte o suficiente para sustentar a economia. Como os outros caudilhos,
Chávez será apenas uma lembrança ruim. |