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Arqueologia O
horror do passado Múmias descobertas no Peru
permitem nova visão de uma civilização perdida
Mariana
Bazo/Reuters
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gesto de dor preservado para a eternidade: a posição fetal podia ser uma forma
de preparar para o renascimento |
As
múmias egípcias são as mais famosas e estudadas do mundo.
Mas, quando o assunto é impacto dramático, as andinas podem surpreender.
De doze múmias da cultura chachapoya encontradas há três meses
nas florestas do norte do Peru e exibidas pela primeira vez na semana passada,
uma em especial impressionou os arqueólogos por seu gesto e expressão.
Suas mãos sustentam a cabeça e, entre elas, uma boca escancarada
urra de dor, lembrando o quadro O Grito, do pintor norueguês Edvard
Munch. Sete anos atrás, exploradores encontraram três múmias
de crianças incas de aparência igualmente impressionante nas encostas
de um vulcão ao norte da Argentina. A 6.000 metros de altitude, a baixa
temperatura fez com que os corpos fossem preservados. Órgãos internos,
o sangue e até a pele permaneceram praticamente intactos, o que permitiu
uma visão perfeita da serena fisionomia dos pequenos, como se a morte deles
tivesse sido recente. Os corpos dos chachapoyas
permaneceram por 600 anos em uma caverna a 25 metros de profundidade até
ser descobertos por um fazendeiro. Os chachapoyas se instalaram na região
por volta do ano 800. Criavam lhamas e construíram cidades e fortalezas
em áreas montanhosas de difícil acesso. A cidade mais bem preservada
é Cuelap, a 3.000 metros acima do nível do mar, onde ruínas
de 400 edifícios e torres de defesa, com paredes e frisos decorados, se
escondem na mata. Apesar de sua elevada estatura e da fama de aguerridos lutadores,
não conseguiram impedir, no século XV, a conquista pelos incas,
que os chamavam de "povo das nuvens" (chachapoyas, na língua quíchua).
A civilização então entrou em decadência. Como parte
da política inca de subjugação de outros povos, adultos foram
deportados para diversas regiões do império, que ia do Equador ao
norte do Chile. Com a chegada dos conquistadores espanhóis, no século
XVI, os poucos sobreviventes aliaram-se aos europeus na luta contra seus antigos
dominadores. Saedi
Press/AP
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faraó Tutancâmon: tomografia para reconstituir a face |
Foram
os incas que ensinaram aos chachapoyas os métodos para embalsamar os mortos.
Pedaços de algodão eram colocados debaixo das bochechas, na boca
e no nariz, as vísceras eram retiradas, pernas e braços eram dobrados
imitando um feto. A posição tem pelo menos duas explicações
possíveis. "Pode ser uma forma de ocupar menos espaço ou de preparar
o falecido para um renascimento no futuro", diz a arqueóloga Márcia
Severina Vasques, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Para
evitarem a decomposição dos corpos na úmida Floresta Amazônica,
os chachapoyas construíram plataformas de pedras e de madeira em penhascos
que se elevam abruptamente no meio da mata. Também instalaram tumbas no
interior de cavernas. A técnica funcionou. O mais difícil foi sobreviver
ao vandalismo. Em 1996, camponeses descobriram mais de 200 múmias chachapoyas
num penhasco próximo ao Lago dos Condores, a noroeste do Peru. Abriram
os túmulos com ferramentas em busca de tesouros e roubaram peças.
Quando souberam da notícia, arqueólogos do mundo todo correram para
o local para barrar o vandalismo. Em 2000, um museu foi inaugurado na cidade próxima
de Leimebamba para acolher os objetos.
Osvaldo
Stigliano/El Tribuno/AP
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inca: expressão facial preservada |
Hoje as múmias dão um testemunho de enorme valor sobre sociedades
do passado. O avanço da tecnologia de imagem, por exemplo, permite enxergar
o corpo com precisão e em três dimensões assim, recolhem-se
informações difíceis de obter, como seus hábitos alimentares,
rituais fúnebres e de que enfermidades sofriam. A tomografia realizada
na múmia do faraó Tutancâmon, cuja tumba foi encontrada em
1922, permitiu reconstituir sua face, vista pela primeira vez em 3 300 anos. Encontrou-se
também uma grave fratura no fêmur. Especialistas acreditam que uma
infecção provocada por esse ferimento poderia ter sido o motivo
da misteriosa morte do faraó, aos 19 anos. Outra múmia famosa é
a de um caçador com mais de 5.000 anos encontrado nos Alpes italianos em
1991. Exames feitos em 2001 descobriram a ponta de uma flecha encravada no seu
ombro esquerdo e vestígios de sangue de outras quatro pessoas, o que indicaria
sua morte em luta. No caso das múmias chachapoyas, os achados são
de imenso valor para compreender essa civilização perdida, que não
dominava a escrita e não deixou documentos para auxiliar seu estudo. As
múmias são uma ferramenta privilegiada para compreender o passado. |