|
|
Cidades
Limpeza, afinal
Em benefício do bem comum,
a prefeitura
de São Paulo enfrenta interesses privados
e começa a combater a poluição visual

Rosana Zakabi
Lalo de Almeida/Te New York Times
 |
| Elevado Costa e Silva, na região central,
onde os anúncios ficam colados nos prédios, e
o prefeito Kassab durante retirada de outdoor (abaixo): sem
exceções |
Luludi/Ag. Luz
 |
Aprovada três
meses atrás, a lei municipal que proíbe cartazes de
propaganda nas ruas de São Paulo foi recebida com ceticismo.
Medidas urbanísticas não costumam prosperar no Brasil
caso contrariem interesses privados bem organizados. Desta vez,
por enquanto, não está sendo assim. A lei entrou em
vigor na virada do ano e, há duas semanas, a prefeitura iniciou
a retirada das peças proibidas. "Foi uma rara vitória
do interesse público sobre o privado, da ordem sobre a desordem,
da estética sobre a feiúra, da limpeza sobre a sujeira",
escreveu a respeito Roberto Pompeu de Toledo em sua coluna em VEJA.
O impacto imediato da medida é municipal, mas está
em sintonia com o esforço global de tornar menos árida
a vida urbana. Nessa tarefa, os governantes têm dois desafios
principais. Um deles é planejar a ocupação
do espaço. Ou seja, saber o que deve e pode ser construído
e como isso será feito. O outro é definir a paisagem
que será proporcionada aos moradores: elementos da própria
natureza, arquitetura dos prédios, estrutura das ruas e padronização
das calçadas são aspectos que dão cara a uma
cidade. São Paulo, cuja população se multiplicou
quase cinqüenta vezes nos últimos 100 anos, é
uma das cidades mais caóticas do planeta.
O projeto paulistano, chamado
Cidade Limpa, prevê a eliminação nas próximas
semanas de todo tipo de propaganda do espaço público
outdoors, faixas, painéis eletrônicos, banners
e redimensiona letreiros e totens dos estabelecimentos comerciais.
"A medida é pra valer e nós não vamos recuar",
diz o prefeito Gilberto Kassab. A prefeitura admite que resolveu
tirar toda a propaganda porque, devido ao caos e à legislação
confusa, não tinha condições de fiscalizar
o que era legal e o que estava irregular. Numa segunda etapa, quando
a cidade estiver completamente sem anúncios, o município
pretende estabelecer novas regras e permitir a publicidade em alguns
pontos limitados. As empresas de outdoors, como não poderia
deixar de ser, entraram na Justiça, alegando que a lei é
inconstitucional.
Nenhuma metrópole mundial
está livre de conflitos entre o bem comum e os interesses
comerciais. Isso não se resume a anúncios publicitários,
mas também à restauração e à
padronização da altura de prédios, de praças
e espaços públicos. Não por coincidência,
vive-se melhor onde há regras rígidas para o mobiliário
urbano. Em Paris, é proibida a instalação de
anúncios em parques e prédios históricos, mesmo
aqueles de propriedade privada. Um novo plano de urbanismo, em vigor
desde o ano passado, mantém a altura máxima dos prédios
entre 25 e 37 metros, com o objetivo de preservar um padrão
na arquitetura da capital francesa. A exceção é
a Torre Montparnasse, arranha-céu de 59 andares inaugurado
em 1973 cuja construção é motivo de desgosto
e arrependimento para os parisienses. Em Roma, cidade sem arranha-céus,
a altura dos edifícios está limitada desde 1883. No
centro histórico, nenhum deles ultrapassa a altura da cúpula
da Basílica de São Pedro.
Medidas drásticas como
a adotada pela prefeitura de São Paulo costumam ter efeito
multiplicador. Ao perceberem que há uma política de
valorização do espaço público, a tendência
é os cidadãos começarem a se identificar com
o local onde vivem e se sentirem responsáveis pela preservação
desse ambiente. "O sucesso de uma cidade não deve ser medido
pelo seu crescimento econômico, e sim pela capacidade de fazer
com que seus habitantes se sintam comprometidos com ela", disse
a VEJA Joseph Rykwert, professor de história da arte da Universidade
da Pensilvânia.
Existem situações
em que anúncios se tornam a marca registrada de determinado
ponto da cidade e precisam ser preservados. É o caso
do visual frenético de Times Square, em Nova York, e de Piccadilly
Circus, em Londres. Não é o que ocorre em São
Paulo. "A propaganda aqui não é referência porque
está na cidade inteira de maneira desordenada", diz o arquiteto
João Carlos Cauduro, da Universidade de São Paulo.
Diferentemente do Rio de Janeiro, que tem a praia e o Pão
de Açúcar, em São Paulo há poucos pontos
referenciais que podem ser considerados marcos da cidade. A quantidade
de outdoors que cobre a capital paulista serve apenas para agravar
a situação. "Com a limpeza será possível
não apenas enxergar o que se esconde atrás dos cartazes,
mas também identificar os imóveis que estão
velhos, precisam de restauração e, assim, recuperar
o espaço urbano", diz o arquiteto Paulo Lisboa, vice-presidente
da Associação Brasileira dos Escritórios de
Arquitetura. Se a medida implantada pela prefeitura realmente for
cumprida, a cidade agradece.
Com reportagem de
Leoleli Camargo
|