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Edição 1991 . 17 de janeiro de 2007

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Especial
Inovar ou morrer
é a lei nesse vale

Por que nove em cada dez inovações
nascem nessa região
da Califórnia,
fertilizada pela Universidade Stanford,
pelo capital abundante e por um gosto
especial pelo risco


Marcelo Marthe, de Palo Alto, na Califórnia

 

Bruce Brwn/Getty Images
O RUMO CERTO
Placa de trânsito no Vale do Silício aponta para a Rua da Inovação: não tem outro caminho


NESTA EDIÇÃO
A mágica e o mágico
A era da alta definição
100.000.000 de celulares

Os moradores do Vale do Silício costumam dizer que o melhor termômetro da economia local é o trânsito. Seis anos atrás, a região que concentra a indústria da alta tecnologia nos Estados Unidos sentiu mais que qualquer outra os efeitos do estouro da bolha da internet – a quebradeira provocada pela valorização irreal das ações das empresas de alta tecnologia e informação. Em contrapartida, a crise fez o tráfego nas rodovias que ligam as cidades do Vale, distribuídas em uma faixa de cerca de 80 quilômetros ao sul da Baía de São Francisco, ficar uma maravilha. A situação hoje é inversa: os congestionamentos monstruosos indicam que a euforia econômica está de volta. "Nunca foi tão complicado andar de carro no Vale. Mas longe de mim reclamar disso", diz Vinton Cerf, cientista pioneiro do desenvolvimento da internet e atualmente "evangelista-chefe" do Google, uma das companhias-símbolo dos novos ares da região. O cargo de "evangelista" é invenção do Vale do Silício. São tantas as boas idéias ali que não lhes basta ser boas – é preciso que mais e mais pessoas sejam convertidas à verdade que elas anunciam. É assim que se criam os padrões de internet como os protocolos de comunicação TCP/IP ou os codificadores de música como o MP3. Eles não são os melhores padrões. São apenas aqueles que converteram mais adeptos.

Nos anos 90, pequenos empreendimentos – muitos deles criados em garagens por estudantes universitários – tornaram-se negócios milionários da noite para o dia. Quando a bolha estourou, a ressaca foi brava: apenas uma em cada 4.000 empresas sobreviveu, metade dos empregos se extinguiu e os investimentos secaram. Do setor de internet, a crise se disseminou em cascata. Só recentemente o rumo do crescimento foi reencontrado: 2005 foi o primeiro desde o fim da bolha em que a geração de empregos superou o volume de demissões. Um novo ciclo de prosperidade está em curso.

 

Panoramic Images/Getty Images
A REDE É O COMPUTADOR
Prédios da Oracle perto de San Francisco feitos na forma de unidades de armazenamento de dados em discos magnéticos. A Oracle foi pioneira da idéia correta de que a conexão, ou seja, a rede, é o que faz a diferença

O Vale do Silício é uma vitrine da economia americana – e sua volta por cima ajuda a entender por que o país é uma superpotência. O "expansionismo" americano sempre se valeu de uma arma de impacto muito mais profundo: sua capacidade de gerar produtos e serviços que despertam novas necessidades de consumo nas pessoas, da Argentina ao Turcomenistão. Essa habilidade de antever tendências com potencial para gerar lucros é a mola propulsora do capitalismo. E é ela que impulsiona a pesquisa de ponta e o apetite pelo novo que colocam o Vale do Silício na vanguarda da economia mundial. Sempre que sua sobrevivência foi ameaçada, a região soube reinventar sua vocação por completo. "Um empreendedor terá poucas chances por aqui se não estiver atento aos rumos da história e não se perguntar o tempo todo: o que o mundo deseja dos talentos de minha companhia neste momento?", diz Tom Kelley, criador da Ideo, uma das agências de design mais inovadoras do mundo – com sede, naturalmente, no Vale do Silício.

Essa sensibilidade não tem faltado às empresas da região. Ali funciona – mais precisamente no bucólico subúrbio de Cupertino – a Apple de Steve Jobs, o executivo que revolucionou a forma de vender e consumir música com sua loja virtual iTunes e o iPod, o tocador de MP3 mais cobiçado do planeta, e, desde a semana passada, o pai do iPhone. Jobs também é o cérebro por trás da Pixar, o estúdio que mudou o conceito de filme de animação com produções como Toy Story e cuja sede fica em Emeryville, bem perto de São Francisco. A meia hora dali, em Mountain View, está o quartel-general do Google, o serviço de busca com o qual o mundo se relaciona com a internet. A lista inclui ainda as dezenas de milhares de start-ups – microempresas que buscam um lugar ao sol dispondo de não mais que meia dúzia de funcionários e uma boa idéia. Até sua explosão, há coisa de um ano, o YouTube, o site que revolucionou a relação do mundo com o vídeo, gozava exatamente dessa condição. Ele foi fundado por Chad Hurley e Steve Chen, dois engenheiros com menos de 30 anos, numa garagem – como tantas empresas do Vale. E há muito mais na paisagem: de pesos-pesados da computação como a IBM e a Oracle às florescentes indústrias de bio e nanotecnologia. Embora sejam distintas no porte e no ramo de atividade, essas empresas comungam um traço cultural que parece estar no DNA do lugar: a busca incessante da inovação.

 

Fotos divulgação
NOVA REALIDADE
A Pixar, outra idéia de Steve Jobs, começou como um estúdio de efeitos especiais digitais. Aliada à Disney, a Pixar criou uma nova realidade em Hollywood: as novas estrelas são feitas pixel a pixel

O Vale do Silício não é o único lugar no mundo em que a inovação está na ordem do dia. A alta circulação de idéias também é o diferencial de outros centros tecnológicos nos Estados Unidos, como aquele que se formou no entorno da cidade texana de Austin. Na Europa, não é diferente – para ficar só no campo da telefonia celular, vale lembrar a finlandesa Nokia, que mudou o conceito desses aparelhos. Na China e na Índia, os dois gigantes emergentes da economia mundial, a criatividade também tem sido o motor do crescimento. Os empresários chineses avançam nos mercados de prestação de serviços e entretenimento na internet – área que oferece oportunidades ilimitadas num país com 1,3 bilhão de habitantes e cada vez mais plugado na rede. As empresas de tecnologia indianas, por sua vez, descobriram um negócio bilionário com a exportação de serviços terceirizados de programação e manutenção de redes de computadores em outros países. No Brasil, apesar de percalços como a burocracia e o peso da carga tributária, também não faltam empreendedores e companhias que fazem da capacidade de gerar novas idéias seu maior capital. Em nenhum outro lugar, contudo, se conseguiu até hoje reproduzir as condições que fizeram do Vale do Silício o que ele é.

A primeira dessas condições está em sua própria origem: a proximidade com o saber. No começo do século XX, as terras onde estão instaladas suas indústrias eram ocupadas por plantações de frutas, o que valia ao lugar o apelido de "Vale das Delícias do Coração". Se há um responsável pela revolução por que passou sua economia, é o engenheiro e professor Frederick E. Terman (1900-1982). À frente da Universidade Stanford – cuja sede se localiza em Palo Alto, o epicentro do Vale –, ele lançou as bases do desenvolvimento da região: a associação entre a academia e os empreendedores privados. Terman investiu dinheiro do próprio bolso no negócio de dois alunos que daria origem à Hewlett-Packard. Estabeleceu também um sistema de cessão de terras da universidade para empresas. Além de Stanford, a região conta com outro centro de ensino de alto nível, a Universidade da Califórnia, em Berkeley.

 

Walter Bieri/AP/Keystone
Kimberly White
A VIDA BOA DO GOOGLE
Marissa Mayer, pioneira do Google, e um funcionário de patinete no campus da companhia: "20% do tempo é livre e pode ser dedicado a projetos pessoais"

As universidades têm sido o celeiro de novas empresas. Jerry Yang e David Filo, os criadores do Yahoo!, saíram de Stanford. Assim como eles, Larry Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, deram seus passos iniciais no negócio quando ainda eram estudantes de computação naquela universidade. A dupla, aliás, não se cansa de dizer que o segredo que permite ao Google estar na crista da inovação é o exército de Ph.D.s. que compõem seu quadro de 10 000 funcionários. "Quando contratamos alguém, não queremos só os melhores: queremos os mais brilhantes", diz Marissa Mayer, profissional que gerencia a área criativa do Google. Com tais condições ambientais, digamos, o Vale do Silício acaba atraindo cérebros brilhantes do mundo todo. O grosso da população da região é composto de engenheiros, programadores e cientistas. Nada menos do que 38% de seus habitantes são estrangeiros altamente qualificados, em geral provenientes da Índia e da China. O casamento estratégico entre indústria e centros de produção de conhecimento também vigora no Brasil, ainda que em escala infinitamente menor: não à toa, a região em torno da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, no interior paulista, tornou-se o principal pólo de inovação tecnológica do país.

A segunda condição ideal é a farta disponibilidade de capital para investimento em pesquisa de ponta e novos negócios. Até os anos 60, o Vale do Silício vivia dos recursos das Forças Armadas americanas, então as maiores clientes de suas empresas. A chegada em massa dos investidores privados, a partir dos anos 70, mudou esse cenário. Hoje, o aporte de capital nas empresas locais é bem menor do que no auge da bolha da internet – foram 20 bilhões de dólares em 2005, contra 120 bilhões em 2000, no auge da bonança. Mas isso ainda é uma enormidade: um quarto de todo o investimento de risco na economia americana. Há quem diga que Sand Hill Road, a via da pequena Menlo Park que concentra os escritórios de investimento da região, tem mais capitalistas de risco que todo o restante dos Estados Unidos. Na mesma rua, é possível trombar com figuras como Tom Kelley, o mago do design, circulando de bicicleta. Não muito longe dali, em Santana Row, misto de shopping e condomínio de luxo, podem-se observar os capitalistas de risco em seu habitat – além dos carrões e roupas de grifes badaladas, chama atenção a onipresença de laptops, palmtops, bluetooths e outros brinquedos eletrônicos de última geração. Embora os investidores tenham ficado bem mais realistas depois do estouro da bolha, um traço importante de sua cultura permanece inalterado: apostar em negócios que nem sempre acabam vingando é algo visto com naturalidade. Para encontrar uma nova empresa lucrativa, faz parte do jogo dar alguns tiros n'água – os que investem em empresas novatas que não passam ainda de promessas vagas de sucesso são conhecidos como "anjos". A terceira condição é o ambiente de alta competitividade. A luta pela sobrevivência é, no fim das contas, aquilo que força as empresas a ser inovadoras.

 
 
 
 
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