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Especial Inovar
ou morrer é a lei nesse vale Por que nove
em cada dez inovações nascem nessa região da
Califórnia, fertilizada pela Universidade Stanford, pelo capital
abundante e por um gosto especial pelo risco  Marcelo
Marthe, de Palo Alto, na Califórnia
Bruce
Brwn/Getty Images
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RUMO CERTO Placa de trânsito no Vale do Silício
aponta para a Rua da Inovação: não tem outro caminho |
Os moradores do Vale do Silício costumam
dizer que o melhor termômetro da economia local é o trânsito.
Seis anos atrás, a região que concentra a indústria da alta
tecnologia nos Estados Unidos sentiu mais que qualquer outra os efeitos do estouro
da bolha da internet a quebradeira provocada pela valorização
irreal das ações das empresas de alta tecnologia e informação.
Em contrapartida, a crise fez o tráfego nas rodovias que ligam as cidades
do Vale, distribuídas em uma faixa de cerca de 80 quilômetros ao
sul da Baía de São Francisco, ficar uma maravilha. A situação
hoje é inversa: os congestionamentos monstruosos indicam que a euforia
econômica está de volta. "Nunca foi tão complicado andar de
carro no Vale. Mas longe de mim reclamar disso", diz Vinton Cerf, cientista pioneiro
do desenvolvimento da internet e atualmente "evangelista-chefe" do Google, uma
das companhias-símbolo dos novos ares da região. O cargo de "evangelista"
é invenção do Vale do Silício. São tantas as
boas idéias ali que não lhes basta ser boas é preciso
que mais e mais pessoas sejam convertidas à verdade que elas anunciam.
É assim que se criam os padrões de internet como os protocolos de
comunicação TCP/IP ou os codificadores de música como o MP3.
Eles não são os melhores padrões. São apenas aqueles
que converteram mais adeptos. Nos anos 90, pequenos
empreendimentos muitos deles criados em garagens por estudantes universitários
tornaram-se negócios milionários da noite para o dia. Quando
a bolha estourou, a ressaca foi brava: apenas uma em cada 4.000 empresas sobreviveu,
metade dos empregos se extinguiu e os investimentos secaram. Do setor de internet,
a crise se disseminou em cascata. Só recentemente o rumo do crescimento
foi reencontrado: 2005 foi o primeiro desde o fim da bolha em que a geração
de empregos superou o volume de demissões. Um novo ciclo de prosperidade
está em curso. Panoramic
Images/Getty Images
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REDE É O COMPUTADOR Prédios da Oracle perto de
San Francisco feitos na forma de unidades de armazenamento de dados em discos
magnéticos. A Oracle foi pioneira da idéia correta de que a conexão, ou seja,
a rede, é o que faz a diferença |
O Vale do Silício é uma vitrine da economia americana e sua
volta por cima ajuda a entender por que o país é uma superpotência.
O "expansionismo" americano sempre se valeu de uma arma de impacto muito mais
profundo: sua capacidade de gerar produtos e serviços que despertam novas
necessidades de consumo nas pessoas, da Argentina ao Turcomenistão. Essa
habilidade de antever tendências com potencial para gerar lucros é
a mola propulsora do capitalismo. E é ela que impulsiona a pesquisa de
ponta e o apetite pelo novo que colocam o Vale do Silício na vanguarda
da economia mundial. Sempre que sua sobrevivência foi ameaçada, a
região soube reinventar sua vocação por completo. "Um empreendedor
terá poucas chances por aqui se não estiver atento aos rumos da
história e não se perguntar o tempo todo: o que o mundo deseja dos
talentos de minha companhia neste momento?", diz Tom Kelley, criador da Ideo,
uma das agências de design mais inovadoras do mundo com sede, naturalmente,
no Vale do Silício. Essa sensibilidade não
tem faltado às empresas da região. Ali funciona mais precisamente
no bucólico subúrbio de Cupertino a Apple de Steve Jobs,
o executivo que revolucionou a forma de vender e consumir música com sua
loja virtual iTunes e o iPod, o tocador de MP3 mais cobiçado do planeta,
e, desde a semana passada, o pai do iPhone. Jobs também é o cérebro
por trás da Pixar, o estúdio que mudou o conceito de filme de animação
com produções como Toy Story e cuja sede fica em Emeryville,
bem perto de São Francisco. A meia hora dali, em Mountain View, está
o quartel-general do Google, o serviço de busca com o qual o mundo se relaciona
com a internet. A lista inclui ainda as dezenas de milhares de start-ups
microempresas que buscam um lugar ao sol dispondo de não mais que meia
dúzia de funcionários e uma boa idéia. Até sua explosão,
há coisa de um ano, o YouTube, o site que revolucionou a relação
do mundo com o vídeo, gozava exatamente dessa condição. Ele
foi fundado por Chad Hurley e Steve Chen, dois engenheiros com menos de 30 anos,
numa garagem como tantas empresas do Vale. E há muito mais na paisagem:
de pesos-pesados da computação como a IBM e a Oracle às florescentes
indústrias de bio e nanotecnologia. Embora sejam distintas no porte e no
ramo de atividade, essas empresas comungam um traço cultural que parece
estar no DNA do lugar: a busca incessante da inovação. Fotos
divulgação
 | NOVA
REALIDADE A Pixar, outra idéia de Steve Jobs,
começou como um estúdio de efeitos especiais digitais. Aliada à Disney, a Pixar
criou uma nova realidade em Hollywood: as novas estrelas são feitas pixel a pixel
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O Vale do Silício não
é o único lugar no mundo em que a inovação está
na ordem do dia. A alta circulação de idéias também
é o diferencial de outros centros tecnológicos nos Estados Unidos,
como aquele que se formou no entorno da cidade texana de Austin. Na Europa, não
é diferente para ficar só no campo da telefonia celular,
vale lembrar a finlandesa Nokia, que mudou o conceito desses aparelhos. Na China
e na Índia, os dois gigantes emergentes da economia mundial, a criatividade
também tem sido o motor do crescimento. Os empresários chineses
avançam nos mercados de prestação de serviços e entretenimento
na internet área que oferece oportunidades ilimitadas num país
com 1,3 bilhão de habitantes e cada vez mais plugado na rede. As empresas
de tecnologia indianas, por sua vez, descobriram um negócio bilionário
com a exportação de serviços terceirizados de programação
e manutenção de redes de computadores em outros países. No
Brasil, apesar de percalços como a burocracia e o peso da carga tributária,
também não faltam empreendedores e companhias que fazem da capacidade
de gerar novas idéias seu maior capital. Em nenhum outro lugar, contudo,
se conseguiu até hoje reproduzir as condições que fizeram
do Vale do Silício o que ele é. A
primeira dessas condições está em sua própria origem:
a proximidade com o saber. No começo do século XX, as terras onde
estão instaladas suas indústrias eram ocupadas por plantações
de frutas, o que valia ao lugar o apelido de "Vale das Delícias do Coração".
Se há um responsável pela revolução por que passou
sua economia, é o engenheiro e professor Frederick E. Terman (1900-1982).
À frente da Universidade Stanford cuja sede se localiza em Palo
Alto, o epicentro do Vale , ele lançou as bases do desenvolvimento
da região: a associação entre a academia e os empreendedores
privados. Terman investiu dinheiro do próprio bolso no negócio de
dois alunos que daria origem à Hewlett-Packard. Estabeleceu também
um sistema de cessão de terras da universidade para empresas. Além
de Stanford, a região conta com outro centro de ensino de alto nível,
a Universidade da Califórnia, em Berkeley. Walter
Bieri/AP/Keystone
 | Kimberly
White
 | A
VIDA BOA DO GOOGLE Marissa Mayer, pioneira do
Google, e um funcionário de patinete no campus da companhia: "20% do tempo é livre
e pode ser dedicado a projetos pessoais" |
As universidades têm sido o celeiro de novas empresas. Jerry Yang e David
Filo, os criadores do Yahoo!, saíram de Stanford. Assim como eles, Larry
Page e Sergey Brin, os fundadores do Google, deram seus passos iniciais no negócio
quando ainda eram estudantes de computação naquela universidade.
A dupla, aliás, não se cansa de dizer que o segredo que permite
ao Google estar na crista da inovação é o exército
de Ph.D.s. que compõem seu quadro de 10 000 funcionários. "Quando
contratamos alguém, não queremos só os melhores: queremos
os mais brilhantes", diz Marissa Mayer, profissional que gerencia a área
criativa do Google. Com tais condições ambientais, digamos, o Vale
do Silício acaba atraindo cérebros brilhantes do mundo todo. O grosso
da população da região é composto de engenheiros,
programadores e cientistas. Nada menos do que 38% de seus habitantes são
estrangeiros altamente qualificados, em geral provenientes da Índia e da
China. O casamento estratégico entre indústria e centros de produção
de conhecimento também vigora no Brasil, ainda que em escala infinitamente
menor: não à toa, a região em torno da Universidade Estadual
de Campinas, a Unicamp, no interior paulista, tornou-se o principal pólo
de inovação tecnológica do país.
A segunda condição ideal é a farta disponibilidade de capital
para investimento em pesquisa de ponta e novos negócios. Até os
anos 60, o Vale do Silício vivia dos recursos das Forças Armadas
americanas, então as maiores clientes de suas empresas. A chegada em massa
dos investidores privados, a partir dos anos 70, mudou esse cenário. Hoje,
o aporte de capital nas empresas locais é bem menor do que no auge da bolha
da internet foram 20 bilhões de dólares em 2005, contra 120
bilhões em 2000, no auge da bonança. Mas isso ainda é uma
enormidade: um quarto de todo o investimento de risco na economia americana. Há
quem diga que Sand Hill Road, a via da pequena Menlo Park que concentra os escritórios
de investimento da região, tem mais capitalistas de risco que todo o restante
dos Estados Unidos. Na mesma rua, é possível trombar com figuras
como Tom Kelley, o mago do design, circulando de bicicleta. Não muito longe
dali, em Santana Row, misto de shopping e condomínio de luxo, podem-se
observar os capitalistas de risco em seu habitat além dos carrões
e roupas de grifes badaladas, chama atenção a onipresença
de laptops, palmtops, bluetooths e outros brinquedos eletrônicos de última
geração. Embora os investidores tenham ficado bem mais realistas
depois do estouro da bolha, um traço importante de sua cultura permanece
inalterado: apostar em negócios que nem sempre acabam vingando é
algo visto com naturalidade. Para encontrar uma nova empresa lucrativa, faz parte
do jogo dar alguns tiros n'água os que investem em empresas novatas
que não passam ainda de promessas vagas de sucesso são conhecidos
como "anjos". A terceira condição é o ambiente de alta competitividade.
A luta pela sobrevivência é, no fim das contas, aquilo que força
as empresas a ser inovadoras. |