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Edição 1991 . 17 de janeiro de 2007

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Especial
A mágica e o mágico

 
Montagem sobre fotos de Thomas Northcut/Gettyimages, divulgação


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Na ponta do dedo
NESTA EDIÇÃO
A era da alta definição
Inovar ou morrer é a lei nesse vale
100.000.000 de celulares

As tecnologias refinadas, dizia Carl Sagan, funcionam como mágica. O iPhone, o telefone celular da Apple com acesso à internet e música de qualidade, é um exemplo. Passa-se o dedo levemente sobre a superfície da tela e as imagens deslizam na mesma direção como que impulsionadas por uma força invisível. Movam-se os dedos indicador e polegar como uma pinça que se abre sobre a tela e a imagem imediatamente é ampliada. O movimento contrário encolhe a imagem. Nenhuma peça se move. Nenhum botão ou interruptor suja a superfície lisa do aparelho. O que se enxerga do seu interior através da cobertura transparente são ícones feitos de luzes e cores. Cada um deles reage ao toque de uma maneira, produzindo os efeitos desejados do equipamento. A apresentação do iPhone na semana passada entroniza o americano Steve Jobs, de 51 anos, líder da Apple, como o Henry Ford do século XXI, o empreendedor que está criando não apenas as máquinas mais extraordinárias mas fazendo-o de modo que elas sejam acessíveis, se não às massas, a milhões de pessoas. Como Ford, Jobs não é uma usina de idéias julio-verdianas. Ele é um fazedor, um gestor com uma visão e com os meios de torná-la realidade, recrutando e mantendo a seu lado as pessoas certas – e, claro, no lugar certo, no tempo certo, com a remuneração certa... A idealização e a produção do iPhone geraram 200 novas patentes – mais que o dobro do que o Brasil registrou em todo o ano de 2005 nos Estados Unidos.

 

FUTURO NO PASSADO
Jobs com Steve Wozniak (de barba), co-fundador da Apple: não importa o aparelho, ele tem de ser sempre o mais avançado de seu tempo

Chega a ser patético que, na semana em que o iPhone foi lançado, o Brasil rivalizava com o aparelho da Apple nas páginas de tecnologia dos jornais em todo o mundo. Nosso feito? Tentar tirar do ar o YouTube, um serviço de internet de alcance mundial que hospeda pequenos vídeos digitais colocados ali pelos próprios usuários. A idéia de um juiz brasileiro era impedir que fosse visto o vídeo em que uma modelo brasileira, Daniella Cicarelli, aparece em vias de fato com o namorado em uma praia da Espanha. O juiz mandou, com o perdão da expressão, cortar o mal pela raiz. Como não se conseguia impedir apenas a exibição do vídeo, a solução que ocorreu foi tirar do ar o site inteiro. O lançamento do iPhone e a tentativa de proibição do YouTube são símbolos de duas culturas, de dois ambientes antagônicos de negócios, de duas visões de mundo. Feliz o país cuja cultura, cujo ambiente de negócios e cuja visão de mundo produzem o iPhone e o YouTube. Pobre do país que proíbe o YouTube.

Nas páginas que se seguem, VEJA analisa justamente as condições que permitem, incentivam e até obrigam as empresas a lançar-se em uma corrida A Apple dá uma aula de inovação ao lançar um telefone celular com acesso à internet e música digital. A criação do iPhone produziu 200 novas patentes para a empresa. Isso é o dobro do que o Brasil registra em um ano pela melhor, menor e mais barata tecnologia. Quem ganha é o consumidor, que tem acesso a aparelhos que tornam a vida mais agradável, colorida, desfrutável, segura, produtiva e rica.

O editor Marcelo Marthe, enviado especial de VEJA ao Vale do Silício, esteve no coração do furacão criativo que se tornou o Google, mais conhecido pelo serviço de busca na internet. Diz Marthe: "O pressuposto do Google é que as boas idéias nascem e são enriquecidas de forma coletiva: alguém tem uma centelha criativa e os colegas se sentem estimulados a somar seus pontos de vista". Isso é mais difícil de ocorrer, raciocina-se, em um ambiente formal no qual cada funcionário fica isolado em sua sala. Para promover uma maior integração, não há paredes nos ambientes do Google, as pessoas se sentam em grupos de quatro a cinco mesas coladas umas às outras. A inovação é objetivo constante, algo tão estratégico que a quarta pessoa na hierarquia do Google – depois dos fundadores e de seu presidente, Eric Schmidt – é a executiva cuja função é instigar e monitorar os processos criativos. Marissa Mayer, de 31 anos, foi a funcionária número 20 da companhia. "Quando contei a meus pais que pegaria meu diploma de Ph.D. em computação e me devotaria a uma empresa novata com um nome esquisito como Google, eles acharam que era uma piada", diz ela. Muito do sucesso do Google pode ser creditado à obstinação de Marissa na busca de novas ferramentas e de soluções para os problemas que se apresentam aos engenheiros da empresa. Ela não raro conduz workshops criativos com mais de 100 funcionários. São eventos catárticos em que uma nova idéia é pregada num imenso painel e, em seguida, os participantes têm de cobri-lo rapidamente com anotações de sugestões para melhorá-la. Diz Marissa: "Todo dia ouço pelo menos meia dúzia de grandes idéias".

 

Fotos divulgação, Royalty-Free/Corbis/Stock Photos e Susan Ragan/AP

É O TOQUE, ESTÚPIDO
A roda sensível ao toque do iPod e o primeiro mouse

Mas ter idéias boas é apenas o começo. Marthe, cuja reportagem começa na página 64, procurou entender também o que transforma uma idéia em um produto ou serviço de sucesso. Diz ele: "Como apontou o americano Richard Florida no livro The Rise of the Creative Class (A Ascensão da Classe Criativa), publicado no começo da década, a inovação é a fonte fundamental do progresso econômico". "A habilidade de produzir novas idéias e reinventar a forma de fazer as coisas é, em última instância, o que gera produtividade e eleva nosso padrão de vida", escreve ele. De acordo com Florida, no estágio atual do capitalismo a criatividade não surge só como um diferencial, mas como a própria razão de ser da economia. Se a transição da agricultura para a era industrial foi baseada em recursos naturais e na força de trabalho, a revolução agora em curso é potencialmente maior e mais poderosa. A atividade econômica passou a se basear na inteligência e na capacidade de inovar – e daí emergiu um novo perfil de trabalhador, a "classe criativa" de que fala Florida. No começo do século XX, não mais que 10% dos americanos exerciam atividades criativas. Esse número cresceu dramaticamente nas duas últimas décadas. Hoje, um terço dos trabalhadores dos Estados Unidos tem funções que envolvem a criação de novas idéias. Nas empresas do Vale do Silício, a criatividade não é um atributo apenas dos departamentos de criação de produtos e serviços – ela permeia toda a cadeia produtiva. Mais de 60% dos funcionários estão em postos que requerem alto grau de criatividade.

 

Susan Ragan/AP

"MEU FOCO É DIRIGIDO PARA ONDE O DISCO VAI ESTAR, E NÃO ONDE ELE ESTEVE."
WAYNE GRETZKY,
o Pelé do hóquei sobre o gelo, autor da frase acima, que Jobs tem como lema  

* A peça de borracha vulcanizada de 2,5 centímetros de altura e 7,5 de diâmetro que serve de "bola" no jogo de hóquei

O enviado de VEJA a Las Vegas, Ethevaldo Siqueira, é o mais experimentado e talentoso jornalista de tecnologia do Brasil. O show eletrônico de Las Vegas fez quarenta anos. Ethevaldo esteve presente a todas as edições da mostra, desde sua criação. Sua reportagem sobre a feira começa na página 60.

Aqui Ethevaldo reflete sobre o que separa os países que produzem o YouTube daqueles que proíbem o YouTube: "Do ponto de vista de recursos naturais, o Brasil tinha tudo para ser um país avançado em eletrônica, a começar pela maior reserva mundial de silício de alta qualidade, a matéria-prima dos componentes digitais. Seu imenso mercado interno também poderia dar base de sustentação a uma indústria competitiva e exportadora desde os anos 80". Por que falhamos, então? As principais razões:

• Diferentemente do que ocorreu nas áreas de telecomunicações e aeronáutica, ao longo dos últimos quarenta anos o Brasil não teve projeto de longo prazo de desenvolvimento da eletrônica.

• O país afugentou investimentos durante os anos de vigência da política de reserva de mercado, que punia computador importado como se fosse droga.

• Ao longo dos anos 80 e no início dos 90, as políticas brasileiras para o setor acabaram expulsando as poucas indústrias existentes na área de microeletrônica, entre as quais a Icotron-Siemens, a Philco, a Texas e a Philips. Por mais absurdo que pudesse parecer, empresas estrangeiras eram impedidas de investir e produzir aqui.

• Falta de investimento em educação. Durante as duas décadas de vigência da reserva de mercado, o país não deu prioridade aos investimentos em educação e formação de recursos humanos de alto nível para pesquisa e produção industrial, como fizeram países emergentes a partir dos anos 70, por exemplo, Coréia do Sul, China, Malásia e Irlanda.

• Falta de investimento em pesquisa. Ainda nesse período de fechamento quase total do mercado, o Brasil não investiu o mínimo essencial em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

• Falta de infra-estrutura. Ao longo dos anos 80 e 90, uma das maiores barreiras ao desenvolvimento da indústria era a falta de infra-estrutura em setores como telecomunicações, energia, estradas e portos.

• Carga fiscal insuportável. Os custos tributários e fiscais da produção industrial brasileira têm sido um obstáculo intransponível para a instalação de indústrias de eletrônica no país.

O resultado de tantas medidas erradas é um déficit setorial de 8 bilhões de dólares por ano, causado, em especial, pela importação de componentes. Mas, como se verá na reportagem de Carlos Rydlewski, editor de tecnologia de VEJA, apesar de todos os desvios do passado, o Brasil produz celulares de ponta para uso interno e exportação. Isso gera 2 bilhões de dólares anuais de receitas para o país. Rydlewski narra também o impacto econômico e social da chegada do celular número 100 000 000 às mãos dos brasileiros.

 

Susan Ragan/AP

"TODA TECNOLOGIA SUFICIENTEMENTE AVANÇADA PARECE MÁGICA."
CARL SAGAN
(1934-1996)
Astrobiólogo e popularizador da ciência

 

 
 
 
 
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