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Especial A
mágica e o mágico Montagem
sobre fotos de Thomas Northcut/Gettyimages, divulgação
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As tecnologias refinadas, dizia Carl Sagan, funcionam
como mágica. O iPhone, o telefone celular da Apple com acesso à
internet e música de qualidade, é um exemplo. Passa-se o dedo levemente
sobre a superfície da tela e as imagens deslizam na mesma direção
como que impulsionadas por uma força invisível. Movam-se os dedos
indicador e polegar como uma pinça que se abre sobre a tela e a imagem
imediatamente é ampliada. O movimento contrário encolhe a imagem.
Nenhuma peça se move. Nenhum botão ou interruptor suja a superfície
lisa do aparelho. O que se enxerga do seu interior através da cobertura
transparente são ícones feitos de luzes e cores. Cada um deles reage
ao toque de uma maneira, produzindo os efeitos desejados do equipamento. A apresentação
do iPhone na semana passada entroniza o americano Steve Jobs, de 51 anos, líder
da Apple, como o Henry Ford do século XXI, o empreendedor que está
criando não apenas as máquinas mais extraordinárias mas fazendo-o
de modo que elas sejam acessíveis, se não às massas, a milhões
de pessoas. Como Ford, Jobs não é uma usina de idéias julio-verdianas.
Ele é um fazedor, um gestor com uma visão e com os meios de torná-la
realidade, recrutando e mantendo a seu lado as pessoas certas e, claro,
no lugar certo, no tempo certo, com a remuneração certa... A idealização
e a produção do iPhone geraram 200 novas patentes mais que
o dobro do que o Brasil registrou em todo o ano de 2005 nos Estados Unidos.  | FUTURO
NO PASSADO Jobs com Steve Wozniak (de barba),
co-fundador da Apple: não importa o aparelho, ele tem de ser sempre o mais
avançado de seu tempo |
Chega
a ser patético que, na semana em que o iPhone foi lançado, o Brasil
rivalizava com o aparelho da Apple nas páginas de tecnologia dos jornais
em todo o mundo. Nosso feito? Tentar tirar do ar o YouTube, um serviço
de internet de alcance mundial que hospeda pequenos vídeos digitais colocados
ali pelos próprios usuários. A idéia de um juiz brasileiro
era impedir que fosse visto o vídeo em que uma modelo brasileira, Daniella
Cicarelli, aparece em vias de fato com o namorado em uma praia da Espanha. O juiz
mandou, com o perdão da expressão, cortar o mal pela raiz. Como
não se conseguia impedir apenas a exibição do vídeo,
a solução que ocorreu foi tirar do ar o site inteiro. O lançamento
do iPhone e a tentativa de proibição do YouTube são símbolos
de duas culturas, de dois ambientes antagônicos de negócios, de duas
visões de mundo. Feliz o país cuja cultura, cujo ambiente de negócios
e cuja visão de mundo produzem o iPhone e o YouTube. Pobre do país
que proíbe o YouTube. Nas páginas
que se seguem, VEJA analisa justamente as condições que permitem,
incentivam e até obrigam as empresas a lançar-se em uma corrida
A Apple dá uma aula de inovação ao lançar um telefone
celular com acesso à internet e música digital. A criação
do iPhone produziu 200 novas patentes para a empresa. Isso é o dobro do
que o Brasil registra em um ano pela melhor, menor e mais barata tecnologia. Quem
ganha é o consumidor, que tem acesso a aparelhos que tornam a vida mais
agradável, colorida, desfrutável, segura, produtiva e rica.
O editor Marcelo Marthe, enviado especial de VEJA ao Vale do Silício, esteve
no coração do furacão criativo que se tornou o Google, mais
conhecido pelo serviço de busca na internet. Diz Marthe: "O pressuposto
do Google é que as boas idéias nascem e são enriquecidas
de forma coletiva: alguém tem uma centelha criativa e os colegas se sentem
estimulados a somar seus pontos de vista". Isso é mais difícil de
ocorrer, raciocina-se, em um ambiente formal no qual cada funcionário fica
isolado em sua sala. Para promover uma maior integração, não
há paredes nos ambientes do Google, as pessoas se sentam em grupos de quatro
a cinco mesas coladas umas às outras. A inovação é
objetivo constante, algo tão estratégico que a quarta pessoa na
hierarquia do Google depois dos fundadores e de seu presidente, Eric Schmidt
é a executiva cuja função é instigar e monitorar
os processos criativos. Marissa Mayer, de 31 anos, foi a funcionária número
20 da companhia. "Quando contei a meus pais que pegaria meu diploma de Ph.D. em
computação e me devotaria a uma empresa novata com um nome esquisito
como Google, eles acharam que era uma piada", diz ela. Muito do sucesso do Google
pode ser creditado à obstinação de Marissa na busca de novas
ferramentas e de soluções para os problemas que se apresentam aos
engenheiros da empresa. Ela não raro conduz workshops criativos com mais
de 100 funcionários. São eventos catárticos em que uma nova
idéia é pregada num imenso painel e, em seguida, os participantes
têm de cobri-lo rapidamente com anotações de sugestões
para melhorá-la. Diz Marissa: "Todo dia ouço pelo menos meia dúzia
de grandes idéias". Fotos
divulgação, Royalty-Free/Corbis/Stock Photos e Susan Ragan/AP
 | É
O TOQUE, ESTÚPIDO A roda sensível ao toque do
iPod e o primeiro mouse |
Mas ter
idéias boas é apenas o começo. Marthe, cuja reportagem começa
na página 64, procurou entender também o que transforma uma idéia
em um produto ou serviço de sucesso. Diz ele: "Como apontou o americano
Richard Florida no livro The Rise of the Creative Class (A Ascensão
da Classe Criativa), publicado no começo da década, a inovação
é a fonte fundamental do progresso econômico". "A habilidade de produzir
novas idéias e reinventar a forma de fazer as coisas é, em última
instância, o que gera produtividade e eleva nosso padrão de vida",
escreve ele. De acordo com Florida, no estágio atual do capitalismo a criatividade
não surge só como um diferencial, mas como a própria razão
de ser da economia. Se a transição da agricultura para a era industrial
foi baseada em recursos naturais e na força de trabalho, a revolução
agora em curso é potencialmente maior e mais poderosa. A atividade econômica
passou a se basear na inteligência e na capacidade de inovar e daí
emergiu um novo perfil de trabalhador, a "classe criativa" de que fala Florida.
No começo do século XX, não mais que 10% dos americanos exerciam
atividades criativas. Esse número cresceu dramaticamente nas duas últimas
décadas. Hoje, um terço dos trabalhadores dos Estados Unidos tem
funções que envolvem a criação de novas idéias.
Nas empresas do Vale do Silício, a criatividade não é um
atributo apenas dos departamentos de criação de produtos e serviços
ela permeia toda a cadeia produtiva. Mais de 60% dos funcionários
estão em postos que requerem alto grau de criatividade. Susan
Ragan/AP
 | "MEU
FOCO É DIRIGIDO PARA ONDE O DISCO VAI ESTAR, E NÃO ONDE ELE ESTEVE."
WAYNE GRETZKY, o
Pelé do hóquei sobre o gelo, autor da frase acima, que Jobs tem
como lema * A peça
de borracha vulcanizada de 2,5 centímetros de altura e 7,5 de diâmetro
que serve de "bola" no jogo de hóquei |
O enviado de VEJA a Las Vegas, Ethevaldo Siqueira, é o mais experimentado
e talentoso jornalista de tecnologia do Brasil. O show eletrônico de Las
Vegas fez quarenta anos. Ethevaldo esteve presente a todas as edições
da mostra, desde sua criação. Sua reportagem sobre a feira começa
na página 60. Aqui Ethevaldo reflete sobre
o que separa os países que produzem o YouTube daqueles que proíbem
o YouTube: "Do ponto de vista de recursos naturais, o Brasil tinha tudo para ser
um país avançado em eletrônica, a começar pela maior
reserva mundial de silício de alta qualidade, a matéria-prima dos
componentes digitais. Seu imenso mercado interno também poderia dar base
de sustentação a uma indústria competitiva e exportadora
desde os anos 80". Por que falhamos, então? As principais razões:
• Diferentemente do que ocorreu nas áreas
de telecomunicações e aeronáutica, ao longo dos últimos
quarenta anos o Brasil não teve projeto de longo prazo de desenvolvimento
da eletrônica. • O país afugentou
investimentos durante os anos de vigência da política de reserva
de mercado, que punia computador importado como se fosse droga.
• Ao longo dos anos 80 e no início dos 90, as políticas brasileiras
para o setor acabaram expulsando as poucas indústrias existentes na área
de microeletrônica, entre as quais a Icotron-Siemens, a Philco, a Texas
e a Philips. Por mais absurdo que pudesse parecer, empresas estrangeiras eram
impedidas de investir e produzir aqui. • Falta
de investimento em educação. Durante as duas décadas de vigência
da reserva de mercado, o país não deu prioridade aos investimentos
em educação e formação de recursos humanos de alto
nível para pesquisa e produção industrial, como fizeram países
emergentes a partir dos anos 70, por exemplo, Coréia do Sul, China, Malásia
e Irlanda. • Falta de investimento em pesquisa.
Ainda nesse período de fechamento quase total do mercado, o Brasil não
investiu o mínimo essencial em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
• Falta de infra-estrutura. Ao longo dos anos 80
e 90, uma das maiores barreiras ao desenvolvimento da indústria era a falta
de infra-estrutura em setores como telecomunicações, energia, estradas
e portos. • Carga fiscal insuportável. Os
custos tributários e fiscais da produção industrial brasileira
têm sido um obstáculo intransponível para a instalação
de indústrias de eletrônica no país.
O resultado de tantas medidas erradas é um déficit setorial de 8
bilhões de dólares por ano, causado, em especial, pela importação
de componentes. Mas, como se verá na reportagem de Carlos Rydlewski, editor
de tecnologia de VEJA, apesar de todos os desvios do passado, o Brasil produz
celulares de ponta para uso interno e exportação. Isso gera 2 bilhões
de dólares anuais de receitas para o país. Rydlewski narra também
o impacto econômico e social da chegada do celular número 100 000
000 às mãos dos brasileiros. Susan
Ragan/AP
 | "TODA
TECNOLOGIA SUFICIENTEMENTE AVANÇADA PARECE MÁGICA." CARL
SAGAN (1934-1996) Astrobiólogo
e popularizador da ciência |
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