|
|
Polícia Dólar
até na Bíblia Casal
da Renascer é preso nos Estados Unidos por ocultar dinheiro na
bagagem  Marcelo
Carneiro  | O
"apóstolo" Estevam, algemado, no aeroporto de Miami: 56 000 dólares escondidos
na bagagem |
Habituados aos
ares de Miami, onde têm casa, os líderes da Renascer, Sonia e Estevam
Hernandes, estão passando uma temporada diferente nos Estados Unidos desta
vez. No lugar de desfrutar o conforto de sua residência comprada
há seis anos por 465.000 dólares e localizada em um condomínio
de luxo no bairro de Boca Raton , a auto-intitulada bispa e o auto-nomeado
apóstolo passaram a semana no Federal Detention Center, complexo prisional
localizado no centro de Miami que abriga presos acusados de cometer delitos federais.
O casal foi detido na madrugada da última terça-feira, vindo da
primeira classe de um vôo que partiu de São Paulo. Acompanhados de
dois filhos e três netos, traziam 56.000 dólares escondidos em uma
mala, uma mochila, um porta-CDs e um exemplar da Bíblia. Foram detidos
sob a acusação de ter cometido dois crimes: inserção
de declaração falsa em documento público e lavagem de dinheiro
(pela legislação americana, a entrada de quantias não declaradas
no país é um dos delitos que caracterizam o crime). Por esse último
crime, pagaram 100.000 dólares cada um de fiança. Foi o primeiro
delito, no entanto, o da falsa notificação, que levou a dupla para
trás das grades, sem direito a fiança.
Helvio
Romero/AE
 |
Sonia e Hernandes estão em celas separadas. A bispa divide a sua com
apenas uma presa, a quem cabe o andar de cima do beliche. Além da cama,
há na cela uma pia e um vaso sanitário. Os chuveiros são
coletivos. Ao acordar, Sonia recebe um café-da-manhã composto de
cereais, mingau, café e suco. No almoço, é servida uma carne
acompanhada de vegetais e, de sobremesa, frutas. O jantar repete o cardápio
do almoço, acrescido de sopa. Durante o dia, os presos estão autorizados
a circular por uma área livre do complexo. A bispa, assim como seu marido,
é obrigada a usar o uniforme da prisão: calça comprida e
camiseta na cor cáqui. O Federal Detention Center, um prédio de
dezessete andares, abriga 1.500 presos, entre os quais um terrorista acusado de
ter ligações com a Al Qaeda e membros mafiosos da família
Gambino, uma das mais antigas dos Estados Unidos. Também já ficaram
detidos lá integrantes do cartel de Cali, que comanda o narcotráfico
na Colômbia. A prisão
de Sonia e Estevam Hernandes é o mais duro golpe sofrido até hoje
pela Renascer. A igreja que desde 2002 vem sendo investigada pelo Grupo
de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco),
do Ministério Público de São Paulo é um dos
expoentes brasileiros da chamada teologia da prosperidade. O movimento nasceu
na década de 40 nos Estados Unidos de um ramo pentecostal que pregava a
crença fervorosa na intervenção divina, que se revelaria
por meio da cura de doenças graves, por exemplo. "A partir dos anos 50,
com o surgimento dos telepastores, esse grupo começou a enfatizar também
a obtenção de bens materiais e financeiros por meio da oração",
explica Ricardo Mariano, doutor em sociologia pela USP. No Brasil e no resto do
mundo, a teologia da prosperidade (o termo foi cunhado por críticos do
movimento) começou a ganhar força a partir dos anos 70. A Renascer,
com 1.500 templos, é a terceira maior igreja do gênero no Brasil.
A operação que resultou
na prisão de seus líderes foi uma bem-sucedida parceria entre o
Gaeco e autoridades americanas. Todos os passos de Estevam e Sonia no Brasil vinham
sendo monitorados pelo Ministério Público. Na semana passada, assim
que o casal pisou em solo americano, o FBI, que também investiga a igreja
nos Estados Unidos, foi alertado. Logo depois do anúncio da detenção,
o Gaeco reapresentou à Justiça de São Paulo um segundo pedido
de prisão preventiva contra os dois (o primeiro havia sido revogado pelo
STJ). Na quarta-feira passada, a prisão foi decretada e o MP entrou com
um pedido de extradição do casal junto à Justiça americana.
Se o pedido for acatado, Sonia e Estevam serão enviados para o Brasil e
seguirão direto para um presídio (partindo do princípio de
que a ordem de prisão concedida pela Justiça brasileira será
mantida). Os Estados Unidos também podem negar o pedido de extradição,
com base no argumento de que o casal responde a processos em território
americano. Nesse caso, Sonia e Estevam deverão permanecer presos lá
até o julgamento. Em qualquer das hipóteses, o casal ficará
fora de combate por um bom tempo. Com os dois longe do púlpito e
dos negócios , o império da Renascer corre sério risco.
|