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Edição 1991 . 17 de janeiro de 2007

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Congresso
Contra a sociedade

Vale-tudo na eleição da Câmara tem
aumento para deputados, promessa
de cargos e loteamento dos ministérios


Otávio Cabral

Fotos Roberto Jayme/AE
Aldo Rebelo, o atual presidente: promessas idênticas às do seu adversário, mas sem ajuda da máquina federal


No fim do ano passado, os deputados decidiram reajustar o próprio salário em 91%. Apesar dos protestos generalizados e da indignação da sociedade com o abuso, o aumento só não foi homologado graças a uma decisão da Justiça que considerou ilegal a forma como ele foi concedido. Pergunte agora aos candidatos Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo qual a opinião deles sobre o reajuste. O petista Chinaglia vai responder, no máximo, que precisa estudar o caso. O comunista Rebelo vai acabar dizendo algo parecido, talvez de uma forma mais rebuscada. Nos bastidores, porém, ambos usam a promessa do superaumento como uma poderosa arma para atrair o voto dos colegas. Chinaglia, que está despontando como favorito, tem, inclusive, feito da promessa salarial uma de suas principais bandeiras de campanha. Na terça-feira passada, o petista jantou com vinte deputados do PT e do PMDB em um restaurante de Brasília. Entre uma taça de vinho e outra, declarou, alto e bom som, que, se eleito, independentemente das críticas, dará o aumento. Foi fervorosamente aplaudido. Depois, foi aconselhado pelo presidente do PMDB, Michel Temer, e pelo líder de seu partido, Henrique Fontana, a não explicitar essa posição em público, para evitar um desgaste desnecessário. Ele aceitou o conselho. Episódios como esse revelam o tamanho do fosso que existe hoje entre as ações dos políticos e os desejos da sociedade.

Aldo Rebelo usa a mesma estratégia do rival. Sem coragem para defender publicamente o aumento, escala sua tropa de choque para fazer o serviço. Um dos coordenadores da campanha do comunista é Ciro Nogueira, do PP do Piauí e segundo vice-presidente da Câmara. Nogueira tem experiência em produzir embustes. Conhecido pela defesa do nepotismo – ele já teve doze parentes empregados na Câmara –, o deputado pepista foi um dos mentores da bem-sucedida campanha que elegeu Severino Cavalcanti, o ex-presidente da Câmara flagrado recebendo propina. Na semana passada, Nogueira se encontrou com o deputado Chico Alencar, do PSOL fluminense. Deu-se então uma típica conversa de campanha: "Ainda bem que você não entrou na Justiça contra o aumento", comentou. "Porque aquilo foi inútil. Em 1º de fevereiro tudo vai estar resolvido, nosso aumento vai sair." Alencar, um dos líderes da cruzada antiaumento, respondeu indignado: "Não entrei no Supremo porque perdi o avião!." Nogueira desconversou e saiu de fininho. Não esperava a reação do colega, até porque normalmente os parlamentares ficam muito satisfeitos com esse tipo de notícia. Se alguém perguntar a Aldo Rebelo o que ele pensa sobre o aumento, vai ouvir que os salários estão defasados e que é preciso analisar a questão com cautela. Assim como ocorre com Chinaglia, a resposta é apenas para consumo externo. Para o distinto público interno, o compromisso do aumentão já foi assumido.

Chinaglia: o petista cooptou até os tucanos

Não é, portanto, o aumento dos salários que vai decidir a eleição para a presidência da Câmara. Isso os dois candidatos já prometeram. O que elevou na semana passada a cotação de Arlindo Chinaglia foi a capacidade que ele demonstrou de repetir em sua campanha aquilo que o PT faz no governo. A máquina federal está em ação, distribuindo emendas, loteando ministérios, prometendo ajudas a aliados e ameaçando infiéis com retaliações. Tudo com o consentimento do presidente Lula e com a atuação do ministro das Relações Institucionais, Tarso Genro. A negociação é tão explícita que é difícil imaginar que não acabe em mais um escândalo do governo petista. Lula deu o aval à operação na noite de 3 de janeiro, antes das férias, em uma reunião com Chinaglia e Tarso, no Palácio do Planalto. Convencido nas semanas anteriores de que é importante ter um petista no comando da Câmara, o presidente fez apenas duas recomendações: não envolver seu nome diretamente nas negociações e que Aldo, "o meu candidato preferido", nas palavras de Lula, seja derrotado a ponto de não precisar receber um ministério como prêmio de consolação. Lula quer premiar quem ajudar o petista a vencer. A estratégia franciscana conseguiu atrair até uma parte do PSDB para as trincheiras petistas. Os tucanos, que não são de ferro, vislumbraram a chance de ganhar alguma coisa, de tirar alguma vantagem da disputa, e cederam ao canto da sereia. Diz o deputado tucano eleito Paulo Renato Souza. "Isso é inadmissível".

 
 
 
 
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