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Congresso
Contra a sociedade
Vale-tudo na eleição
da Câmara tem
aumento para deputados, promessa
de cargos e loteamento dos ministérios

Otávio
Cabral
Fotos Roberto Jayme/AE
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| Aldo Rebelo, o atual presidente: promessas
idênticas às do seu adversário, mas sem
ajuda da máquina federal |
No fim do ano passado, os deputados decidiram reajustar o próprio
salário em 91%. Apesar dos protestos generalizados e da indignação
da sociedade com o abuso, o aumento só não foi homologado
graças a uma decisão da Justiça que considerou
ilegal a forma como ele foi concedido. Pergunte agora aos candidatos
Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo qual a opinião deles sobre
o reajuste. O petista Chinaglia vai responder, no máximo,
que precisa estudar o caso. O comunista Rebelo vai acabar dizendo
algo parecido, talvez de uma forma mais rebuscada. Nos bastidores,
porém, ambos usam a promessa do superaumento como uma poderosa
arma para atrair o voto dos colegas. Chinaglia, que está
despontando como favorito, tem, inclusive, feito da promessa salarial
uma de suas principais bandeiras de campanha. Na terça-feira
passada, o petista jantou com vinte deputados do PT e do PMDB em
um restaurante de Brasília. Entre uma taça de vinho
e outra, declarou, alto e bom som, que, se eleito, independentemente
das críticas, dará o aumento. Foi fervorosamente aplaudido.
Depois, foi aconselhado pelo presidente do PMDB, Michel Temer, e
pelo líder de seu partido, Henrique Fontana, a não
explicitar essa posição em público, para evitar
um desgaste desnecessário. Ele aceitou o conselho. Episódios
como esse revelam o tamanho do fosso que existe hoje entre as ações
dos políticos e os desejos da sociedade.
Aldo Rebelo usa a mesma estratégia
do rival. Sem coragem para defender publicamente o aumento, escala
sua tropa de choque para fazer o serviço. Um dos coordenadores
da campanha do comunista é Ciro Nogueira, do PP do Piauí
e segundo vice-presidente da Câmara. Nogueira tem experiência
em produzir embustes. Conhecido pela defesa do nepotismo
ele já teve doze parentes empregados na Câmara ,
o deputado pepista foi um dos mentores da bem-sucedida campanha
que elegeu Severino Cavalcanti, o ex-presidente da Câmara
flagrado recebendo propina. Na semana passada, Nogueira se encontrou
com o deputado Chico Alencar, do PSOL fluminense. Deu-se então
uma típica conversa de campanha: "Ainda bem que você
não entrou na Justiça contra o aumento", comentou.
"Porque aquilo foi inútil. Em 1º de fevereiro tudo vai
estar resolvido, nosso aumento vai sair." Alencar, um dos líderes
da cruzada antiaumento, respondeu indignado: "Não entrei
no Supremo porque perdi o avião!." Nogueira desconversou
e saiu de fininho. Não esperava a reação do
colega, até porque normalmente os parlamentares ficam muito
satisfeitos com esse tipo de notícia. Se alguém perguntar
a Aldo Rebelo o que ele pensa sobre o aumento, vai ouvir que os
salários estão defasados e que é preciso analisar
a questão com cautela. Assim como ocorre com Chinaglia, a
resposta é apenas para consumo externo. Para o distinto público
interno, o compromisso do aumentão já foi assumido.
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| Chinaglia: o petista cooptou até os
tucanos |
Não é, portanto,
o aumento dos salários que vai decidir a eleição
para a presidência da Câmara. Isso os dois candidatos
já prometeram. O que elevou na semana passada a cotação
de Arlindo Chinaglia foi a capacidade que ele demonstrou de repetir
em sua campanha aquilo que o PT faz no governo. A máquina
federal está em ação, distribuindo emendas,
loteando ministérios, prometendo ajudas a aliados e ameaçando
infiéis com retaliações. Tudo com o consentimento
do presidente Lula e com a atuação do ministro das
Relações Institucionais, Tarso Genro. A negociação
é tão explícita que é difícil
imaginar que não acabe em mais um escândalo do governo
petista. Lula deu o aval à operação na noite
de 3 de janeiro, antes das férias, em uma reunião
com Chinaglia e Tarso, no Palácio do Planalto. Convencido
nas semanas anteriores de que é importante ter um petista
no comando da Câmara, o presidente fez apenas duas recomendações:
não envolver seu nome diretamente nas negociações
e que Aldo, "o meu candidato preferido", nas palavras de Lula, seja
derrotado a ponto de não precisar receber um ministério
como prêmio de consolação. Lula quer premiar
quem ajudar o petista a vencer. A estratégia franciscana
conseguiu atrair até uma parte do PSDB para as trincheiras
petistas. Os tucanos, que não são de ferro, vislumbraram
a chance de ganhar alguma coisa, de tirar alguma vantagem da disputa,
e cederam ao canto da sereia. Diz o deputado tucano eleito Paulo
Renato Souza. "Isso é inadmissível".
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