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Entrevista: Armínio
Fraga
Viciados em Estado
O ex-presidente do Banco Central
lamenta
o retrocesso das reformas econômicas e
diz que os brasileiros precisam independer
dos governos

Giuliano Guandalini
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Oscar Cabral

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"Ainda vejo no país essa mentalidade
de raízes ibéricas, de esperar que a mãe
governo cuide de todos os nossos problemas. Isso precisa
mudar"
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"Faz parte da nossa
cultura ibérica gostar do afago do Estado. Mas, como escreveu
Eça de Queiroz, a mãe governo é pobre; como
é pobre, paga pouco, e essa pobreza vai se perpetuando."
Com essa constatação, o economista Armínio
Fraga defende que os brasileiros cortem seus laços de dependência
de favores, subsídios e esmolas do Estado. Só assim,
segundo ele, serão livres para gerar riquezas e a economia
perderá a apatia que já dura duas décadas.
Fraga presidiu o Banco Central (BC) de 1999 a 2002, quando ajudou
a escrever um capítulo decisivo da história econômica
recente do país. À frente do BC, introduziu o sistema
de metas de inflação e o câmbio flutuante, peças
centrais da engrenagem que hoje permite ao Brasil amortecer as intempéries
financeiras. Aos 49 anos, ele teme que o governo atual perca, neste
início de segundo mandato e em meio a um momento raro de
prosperidade mundial, sua última oportunidade para concluir
a segunda geração de reformas justamente a
que, ao reduzir o tamanho do Estado, tornaria o país mais
independente da "mãe governo". Atualmente, Fraga administra
2,8 bilhões de dólares no fundo Gávea de investimentos,
empresa que abriu depois de deixar o governo.
Veja O mundo vive
a maior fase de prosperidade econômica em mais de trinta anos.
Até quando o cenário externo soprará a favor?
Fraga
A incorporação de bilhões de novos consumidores
ao mercado global com o despertar da China e da Índia é
um evento auspicioso e histórico, capaz de sustentar por
um bom tempo essa fase de expansão. Portanto, não
vejo sérios riscos em um cenário mais amplo. Mas existem
algumas nuvens no horizonte, sobretudo nos Estados Unidos, por causa
do enorme déficit na balança comercial e da bolha
de preços no mercado imobiliário. Uma eventual recessão
americana teria repercussões em todo o mundo.
Veja O dólar
pode mesmo perder sua preponderância nos mercados mundiais?
Fraga Os
dados mais recentes indicam que o euro já tem ocupado uma
parte significativa nas reservas dos bancos centrais de todo o mundo.
Mais adiante poderá surgir também uma moeda dominante
na Ásia, provavelmente o iuane, da China. Portanto, talvez
o dólar perca no futuro sua posição como a
principal reserva de valor internacional. Mas vai demorar para que
isso ocorra. A moeda americana continuará reinando por um
bom tempo.
Veja Apesar da bonança
internacional, o PIB brasileiro tem avançado pouco. O governo
Lula deverá anunciar um plano para acelerar seu crescimento
o PAC. Vai funcionar?
Fraga Espero
que sim. Mas, pelo que foi divulgado até o momento, acho
que não. Crescimento duradouro requer melhora na educação,
eficiência nos gastos públicos e mais investimentos.
Em resumo, precisa ocorrer um ganho de produtividade e de competitividade.
Não vejo o atual governo debruçando-se sobre as reais
questões que estimulam os investimentos e levam ao desenvolvimento.
Não se fala em reduzir o tamanho do Estado, que sufoca a
iniciativa privada. Outro passo fundamental, também ignorado
até agora, seria promover as reformas que aprimorariam o
ambiente de negócios, como a tributária e a trabalhista.
Sem isso podemos ter um ou outro ano bom, mas isso não pode
ser confundido com desenvolvimento. Tenho medo, neste momento, de
que se perca uma importante janela de oportunidades. Os governos
deveriam aproveitar os bons momentos e o começo de mandato
para avançar na agenda de reformas. Mas, infelizmente, é
raro que isso aconteça. Quando se dão conta do que
poderia ter sido feito, não dá mais tempo. O governo
parece não ter a visão necessária para enfrentar
as verdadeiras travas ao crescimento, que são o gigantismo
do Estado e a baixa produtividade da economia.
Veja Como é
possível elevar a produtividade?
Fraga
Em primeiro lugar, investindo em educação. Sem
capital humano o país não vai produzir mercadorias
de maior valor agregado e não terá como competir num
mercado globalizado. O governo atual não mostrou coragem
para gastar menos com educação superior e mais com
educação básica nem introduziu elementos de
concorrência para melhorar a qualidade do ensino, com promoções
vinculadas ao mérito. Mas não é só isso.
É preciso também criar condições para
que a poupança e o investimento aumentem, além de
abrir mais a economia à concorrência internacional.
Isso sem falar de uma reforma tributária que diminua a informalidade
e a carga daqueles que pagam impostos.
Veja Entidades
empresariais e economistas ligados ao PT dizem que basta reduzir
os juros e depreciar o câmbio para a economia decolar.
Fraga Discordo.
O crescimento não virá por decreto e os juros não
cairão por vontade política. Essa proposta "desenvolvimentista"
não faz sentido. Aliás, quem é contra o desenvolvimento?
Essa corrente não se preocupa com as reais fontes do crescimento.
É desejável, sim, que tenhamos juros mais baixos.
Mas, se isso for feito de forma súbita e desancorada da realidade
da economia, vamos crescer por alguns trimestres e depois virão
a ressaca inflacionária e a recessão. Não dá
para crescer sem poupar e investir. Não dá para crescer
sem educar. Não dá para crescer com a economia desordenada.
Veja Mas a China
e outros asiáticos são usados como exemplos de países
que exportam e crescem muito por causa do câmbio desvalorizado.
Fraga
É ingênuo e simplista achar que apenas a política
de câmbio vai acelerar o crescimento. Esses países
mantiveram taxa de poupança elevadíssima ao longo
de muitos anos. Na China, ela supera 40% do PIB. No Brasil, mal
passa de 20%. Aqui, porque o setor público arrecada muito
e queima quase tudo com gastos correntes, em vez de educação
primária e infra-estrutura. Costumo dar o exemplo da Coréia
do Sul. Há 25 anos, os coreanos tinham uma renda per capita
inferior à brasileira. Hoje é o triplo da nossa. Eles
investem em média 33% do PIB por ano. No Brasil, essa taxa
é de 20%. A escolaridade média deles é mais
que o dobro da brasileira.
Veja O senhor já
foi do governo. Por que é difícil transformar diagnósticos
como esse em ações?
Fraga Porque
no governo não basta capacidade técnica. É
preciso convencer a sociedade e, em particular, os políticos
a tomar decisões difíceis e que muitas vezes não
dão frutos a curto prazo. É preciso enfrentar interesses
particulares que se contrapõem ao bem do país como
um todo. Em política as coisas não são tão
nítidas quanto no mercado financeiro. Há pressões
de todos os lados. São pequenos grupos, às vezes não
tão pequenos assim, que buscam defender os seus interesses
de maneiras visíveis e invisíveis. É uma briga
inglória. A maioria é silenciosa, ao passo que esses
grupos esperneiam, fazem lobby, ganham espaço na mídia
e com isso abocanham fatias do Orçamento e postergam reformas.
Veja Em que aspectos
econômicos o Brasil avançou nos últimos anos?
Fraga
Em vários. A estabilidade econômica trouxe a queda
da inflação e a redução dos juros, o
que despertou uma série de negócios. É muito
interessante a mudança radical que está ocorrendo
no mercado de capitais. A bolsa de valores perdeu aquela imagem
de cassino. Passou a assumir sua função de financiar
os investimentos produtivos. Se as empresas são bem administradas,
elas conseguem atrair capital para investir, contratar gente, crescer.
O mercado imobiliário caminha nesse sentido; houve um grande
salto nos financiamentos. Mas o Brasil ainda precisa passar por
outras revoluções culturais.
Veja Quais seriam
essas revoluções?
Fraga
Uma delas já começou a pegar, mas ainda de forma incipiente:
a idéia de que é bom fazer parte do mundo. Hoje o
brasileiro pensa em exportar e vê isso como oportunidade.
A revolução mais urgente, no entanto, é cultural.
Requer uma mudança de atitude em relação ao
Estado. Os brasileiros e suas empresas precisam aprender a depender
menos do governo. Ainda vejo essa mentalidade que é própria
das raízes ibéricas, de esperar que a mãe governo
cuide de todos os nossos problemas. Mas, como escreveu Eça
de Queiroz, a mãe governo é pobre; como é pobre,
paga pouco, e essa pobreza vai se perpetuando. O triste é
que, ao que parece, estamos retrocedendo nesse item. A campanha
eleitoral para o segundo turno, por exemplo, foi marcada pela crucificação
das privatizações. A agenda de reformas liberais apanhou
muito.
Veja A que o senhor
atribui esse retrocesso?
Fraga
A agenda liberal sempre apanha porque ela melhora a vida de muitos,
de maneira difusa, e prejudica grupos organizados. Quem usa o celular
deveria se lembrar de que só tem o aparelho graças
às privatizações. O mesmo vale para a internet.
Quantos pequenos negócios não foram viabilizados por
causa dos celulares e da internet? Mas não tenho ilusões.
Não acredito num modelo liberal radical para o Brasil, não
combina muito com o que vejo por aí. O brasileiro gosta de
Estado. É da nossa cultura, e eu mesmo não acho razoável
pensar num Estado minimalista. .Mas isso não quer dizer que
alguns aspectos de uma agenda liberal não possam ser implementados.
Deveríamos ter um governo mais enxuto e eficiente, com uma
economia mais livre e mais bem regulada. Não dá para
imaginar que o país vá crescer sem que essas questões
sejam abordadas. A riqueza não brota da terra, mesmo quando
brota da terra. Senão o petróleo resolveria os problemas
sociais do Rio de Janeiro.
Veja Aliás,
por que o petróleo não resolve o problema dos cariocas?
Fraga
Parece ser um caso da maldição dos estados ricos em
recursos naturais e pobres em avanços sociais. A verdade
é que o Rio nunca se recuperou de ter perdido o status de
capital federal. A cidade era um centro econômico, financeiro,
político e cultural. Nasci em Botafogo e fui criado no Jardim
Botânico; acompanhei essa crise de identidade. A cidade está
buscando um caminho, mas não tem sido fácil. Nem com
os recursos do petróleo. Vive um problema seriíssimo
que é achar uma nova vocação. A questão
da segurança é dramática. Os jovens não
dispõem de oportunidades. Temos boas escolas e universidades,
mas, como não há empregos aqui no Rio, eles acabam
se mudando para outras cidades. É enorme o número
de profissionais que vão para São Paulo quando
não para fora do país. Tomara que o novo governador
encontre um caminho para o Rio de Janeiro.
Veja O que mudou
no sistema financeiro internacional entre sua experiência
como investidor de George Soros, na década passada, e hoje?
Fraga
Tornou-se mais difícil ganhar dinheiro no mercado internacional.
Antigamente muitos países tinham regimes de câmbio
fixo, o que estimulava o ataque especulativo de grandes fundos e
bancos estrangeiros. Hoje as economias são mais sólidas
e já não há tantas brechas. A maioria dos emergentes
tem políticas fiscais boas e câmbio flutuante. Além
disso, os mercados tornaram-se mais eficientes. Todos os participantes
recebem as informações quase que simultaneamente.
A concorrência ficou bem maior. Nos seis anos em que trabalhei
com Soros, minha função era investir nos mercados
emergentes. Foi um período de grande turbulência. Houve
a crise do México, a asiática e depois a russa. Com
isso, conheci de perto mais de vinte países. Via claramente
que alguns deles caminhavam para o colapso e observei como lidaram
com as dificuldades. Ficaram claras ali as vantagens de ter transparência
na condução da economia. Em 1999, quando fui para
o governo, levei comigo essa lição.
Veja O senhor enfrentou
várias crises na presidência do Banco Central. Qual
foi a pior?
Fraga Foi
a de 2002, sem dúvida, porque aconteceu puramente pela insegurança
dos investidores diante da possibilidade de vitória do PT.
Não havia nada que pudéssemos fazer para reverter
as expectativas. Quando ficou claro que dificilmente Lula perderia
a eleição, o mercado congelou. Os investidores se
negavam a comprar títulos da dívida pública.
Isso já acontecera anteriormente, mas, daquela vez, a crise
não respondia ao tratamento convencional. Os investidores
nos diziam que não havia nada que pudéssemos fazer
para conter a fuga de dólares. Às vezes eu me perguntava
se o PT tinha mesmo um plano econômico maluco e perdia o sono
imaginando como faríamos para levar o país até
o fim do governo. O que tornou a situação mais difícil
foi que, diferentemente de hoje, o mundo passava por uma severa
redução da liquidez financeira.
Veja O presidente
Lula afirmou que herdou uma economia quebrada e que o senhor teria
dito a ele, em 2002, que o país estava na UTI.
Fraga É
verdade, mas o presidente esqueceu-se de mencionar uma coisa: eu
também disse a ele que não havia motivos para o país
estar na UTI e que estavam nas mãos dele os instrumentos
para reverter aquela situação. Foi o que acabou ocorrendo.
O PT, pelo seu passado, gerou a crise, mas Lula teve o mérito
de conquistar a confiança de investidores e credores. Tive
a oportunidade de conversar com Lula duas vezes, ainda em 2002,
e fiquei com a impressão de que ele é muito pragmático.
Isso ficou claro quando ele não pôs em prática
a plataforma histórica do PT. Lula entende que a estabilidade
é positiva para os mais pobres. Sua decisão pessoal
de indicar Antonio Palocci para ministro da Fazenda gerou um enorme
crédito. Outro ponto positivo foi a autonomia operacional
concedida ao BC. Longe de interferências políticas,
o BC tem mais condições de reduzir os juros.
Veja Quando ficou
claro para o senhor que Lula adotaria uma política econômica
sensata?
Fraga Foi
em agosto de 2002. No fim de uma reunião com Lula então
candidato, Palocci me chamou e disse que precisava falar comigo.
Marcamos um encontro no Hotel Glória, no Rio. A conversa
foi uma surpresa maravilhosa. Naquela noite dormi tranqüilo
pela primeira vez em semanas. Palocci afirmou que, se eleito, Lula
seria pragmático e realista, não faria pirotecnias.
Por coincidência, no instante em que o PT deu essa guinada,
o panorama internacional começou a melhorar. Ali teve início
a atual fase de rápido crescimento, baixos juros e farta
liquidez, o que ajudou muito. Já são quatro anos de
festa na economia global.
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