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TELEVISÃO

Maratona Federico Fellini (sábado, dia 20, a partir das 19h, no Eurochannel) – Uma única atração deste ciclo já seria um programão para a sua noite de sábado: o documentário Entrevista com Fellini – Um Auto-Retrato Revelador, que vai ao ar às 19h e será reprisado à 1h30. Feito com base em preciosas imagens de arquivo da Rádio e Televisão Italiana (RAI), o filme flagra o cineasta italiano em várias fases da carreira. Além de trazer opiniões e análises do próprio Fellini (1920-1993), há depoimentos de outros cineastas ilustres, como o sueco Ingmar Bergman. Outra atração curiosa, às 20h15, é o curta-metragem de animação A Longa Viagem, inspirado em desenhos do diretor. A seguir, madrugada adentro, será exibida uma seleção de seus trabalhos, que inclui clássicos como Ensaio de Orquestra (1979), às 22h30.

 

CINEMA

O Pequeno Vampiro (The Little Vampire, Estados Unidos/Alemanha/ Holanda, 2000. Desde sexta-feira em circuito nacional) – Vez por outra, alguém consegue fazer um filme infantil que, além de encantador, é também original – como este aqui. Traumatizado com sua mudança da Califórnia para a Escócia, o menino Tony (Jonathan Lipnicki, o garotinho de Jerry Maguire) encontra um amigo muito peculiar: o pequeno vampiro Rudolph, caçula de uma família que há 300 anos busca uma maneira de deixar o reino dos mortos-vivos. Como primeira medida, é claro, o clã corta da dieta o sangue humano, preferindo atacar bois e vacas – o que rende situações um tanto intrigantes para um fazendeiro das redondezas. Atenção à cena em que Anna, a irmãzinha de Rudolph, ensina Tony a assobiar, como Lauren Bacall fazia com Humphrey Bogart em Uma Aventura na Martinica. O mais curioso é que quem assina a direção é o alemão Uli Edel, cujo trabalho mais famoso é Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada e Prostituída. Mas não há o que temer: não há nada em O Pequeno Vampiro que não seja perfeitamente adequado às crianças.

 

DISCO

The Very Best Of, UB40 (Virgin) – Este octeto surgido em Birmingham, Inglaterra, é conhecido pelo epíteto de "Melhor Banda Cover de Reggae do Mundo". Eles ganharam notoriedade graças às releituras palatáveis de pérolas do ritmo jamaicano e da soul music. Entre seus principais hits estão as versões de Cherry Oh Baby (do cantor Eric Donaldson, também gravada pelos Rolling Stones na década de 70) e The Way You Do the Things You Do (do grupo vocal The Temptations). Esta coletânea, no entanto, mostra que o UB40 também possui um repertório próprio de boa qualidade. Ele tanto abriga canções mais ásperas e politizadas (como King e Sing Our Own Song) quanto irresistíveis convites ao sacolejo (como Rat in Mi Kitchen e Higher Ground).

 

LIVROS

Sorte Sua, de Carl Hiaasen (tradução de Celso Nogueira; Companhia das Letras; 416 páginas; 35 reais) – Com o perdão do trocadilho, sorte mesmo é a do leitor, que pode encontrar nas livrarias um romance saboroso como este. Facílima de ler, a obra de Hiaasen tem perfeito timing cômico e uma trama que prende a atenção até o final. A história gira em torno de JoLayne Lucks, jovem negra que divide um prêmio da loteria com dois sujeitos truculentos e asquerosos, que vão atrás dela para roubar o bilhete premiado e, assim, ficar com toda a bolada. Autor de mais de uma dezena de livros, a maioria deles tendo a Flórida como cenário, Hiaasen é um observador arguto da sociedade americana. Cria personagens e situações impagáveis e ainda consegue ir além da diversão, abordando temas sérios como o preconceito racial.

As Obras-Primas de Oscar Wilde (Ediouro; 518 páginas; 23 reais) – Desde que se completou o centenário da morte de Oscar Wilde, em novembro do ano passado, muitos textos do autor irlandês ganharam nova edição no Brasil. O mérito deste volume é sua praticidade. Nele estão reunidas as principais obras de Wilde, acrescidas de uma boa introdução. Salomé e Um Marido Ideal, as peças mais famosas do escritor, e O Retrato de Dorian Gray, o seu único e fundamental romance, estão aqui agrupados, seguidos de dois contos, poemas em prosa e alguns aforismos memoráveis, como "Pessimista é aquele que, podendo optar entre dois males, fica com ambos". A obra é um bom resumo do universo de um escritor que fez o elogio da frivolidade, mas revelou como poucos a hipocrisia e as contradições de seu tempo.


LITERATURA BRASILEIRA

O Agressor

Rosário Fusco
Bluhm
158 páginas;
17 reais

Rosário Fusco é um personagem curiosíssimo, injustamente esquecido na literatura nacional. Mulato, filho de uma lavadeira e de um imigrante italiano que sumiu logo depois de seu nascimento, ele estava longe de ser um privilegiado. Não deixou, porém, que a pobreza e a educação capenga o vexassem. Em 1927, com apenas 17 anos, juntou-se a outros rapazes da cidadezinha mineira de Cataguases e com eles fundou uma revista de vanguarda, a Verde. Graças à liderança e à ousadia de Fusco, que não hesitava em pedir colaborações a escritores famosos, Verde teve em suas páginas textos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Manuel Bandeira e até de um estrangeiro, o poeta franco-suíço Blaise Cendrars. Circulou por dois anos e entrou para a história como uma das publicações mais vivazes do período modernista. Mais tarde, Fusco mostraria que, além de agitador cultural, era também um prosador de respeito. Nos últimos anos, porém, andava difícil conferir seu talento. Desde que o autor morreu, em 1977, seus livros estavam fora de catálogo. Só agora um deles volta às prateleiras: O Agressor, de 1943. Registre-se, aliás, que a entusiástica orelha da nova edição é assinada por Paulo Coelho, o vendedor-mor de nosso mercado editorial. Insólito – mas palmas para ele, por empenhar seu prestígio junto ao público na recuperação de um autor que estava no limbo.

O Agressor conta a história de David, guarda-livros de uma loja de chapéus que pouco a pouco vê sua sanidade esfacelar-se. Fusco o descreve como uma espécie de autômato: um homem incapaz de expressar-se, de criar vínculos humanos, de entender ou lidar com o sexo. À medida que o texto avança, o aturdimento do protagonista passa a ser compartilhado pelo leitor. Pois Fusco quebra a linearidade da narrativa e faz com que ela progrida aos saltos, obscurecendo os vínculos entre diversos episódios. Graças a esses artifícios, uma atmosfera misteriosa emana do livro – o que já fez com que o autor fosse descrito como uma espécie de Franz Kafka brasileiro. Não é o caso de ir tão longe. Mas também não resta dúvida de que Fusco explora de maneira bastante habilidosa o terreno em que a realidade faz fronteira com o fantástico. Não se trata de uma vertente dominante na ficção brasileira, mas alguns bons escritores a seguiram: Murilo Rubião, José J. Veiga e, mais recentemente, Nelson de Oliveira. Talvez seja possível dizer que Rosário Fusco inaugurou essa pequena tradição, e nisso reside seu grande mérito.

Carlos Graieb

 

Fontes: São Paulo: Cultura, Laselva, Saraiva, Livraria da Vila, Nobel, Siciliano; Rio: Saraiva, Laselva, Sodiler, Siciliano; Porto Alegre: Saraiva, Livraria Ed. Porto Alegre, Sulina, Siciliano; Brasília: Sodiler, Siciliano, Saraiva, Leitura; Maceió: Sodiler; Recife: Sodiler, Saraiva; Natal: Sodiler; Florianópolis: Siciliano; Goiânia: Siciliano; Fortaleza: Siciliano, Laselva; Salvador: Siciliano; Curitiba: Livraria Curitiba, Siciliano, Saraiva; Belo Horizonte: Leitura, Siciliano.

 

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