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Luiz Felipe de Alencastro

Praga, Pequim e liberdade

"No decorrer da história brasileira, a imprensa contribuiu muito mais que
o rádio ou a TV
para o amadurecimento
político e cultural do país"


Ilustração Ale Setti


O noticiário azucrinante da globalização chama diariamente a nossa atenção para as oscilações do índice Nasdaq. Mas não há nenhuma informação sobre a greve de Praga. Greve de Praga? Sucede que a República Checa está sendo sacudida por um movimento exemplar: uma greve para garantir a liberdade de opinião na TV estatal checa, Ceska Televize (CT). Exasperados com os arreglos partidários que amordaçavam a CT, os jornalistas ocuparam a sede da TV. O movimento recebeu largo apoio da opinião pública. No começo do ano, dezenas de milhares de checos se reuniram para defender os jornalistas da CT, no maior comício realizado em Praga desde a Revolução de Veludo (1989), que marcou a derrocada do comunismo. O evento merece reflexão.

A televisão conhece um estatuto paradoxal na história das liberdades públicas. De fato, no século XIX muita gente deixou a vida nos combates pela liberdade de imprensa. Mas, no século XX, a liberdade de opinião nos canais de TV tem sido negligenciada, como se fosse um direito já consagrado. Ora, os checos, os cidadãos dos outros países da Europa Oriental e da América Latina, engajados nas últimas décadas no processo de transição democrática, sabem que não é bem assim. No Brasil, a TV esteve aquém dos jornais e das revistas que escudaram a opinião pública e o eleitorado na luta pela democratização durante a última ditadura (1964-1985). Da mesma forma que o rádio não acompanhou a luta da imprensa e da sociedade contra a penúltima ditadura (1937-1945). No decorrer da história brasileira, a imprensa contribuiu muito mais que o rádio ou a TV para o amadurecimento político e cultural do país. Travados na maior parte do tempo pela bajulação governista, o rádio e a TV reservaram seus maravilhosos recursos comunicacionais à produção de amenidades. Bajulação, bola, besteirol e baixaria: tais são os quatro B que poderiam caracterizar o rádio e a TV brasileiros. Consoante a tradição oligárquica que nos veio do escravismo, o espaço da liberdade é inversamente proporcional ao alcance da mídia. Para o público limitado dos leitores de jornais e revistas, o debate político e cultural pode ser desdobrado. Mas, para a massa imensa de ouvintes de rádio e dos telespectadores de TV, esse debate deve ser encolhido.

Apesar do papel ainda limitado no Brasil e na maior parte do mundo, a internet vai complicar as coisas. Combinando-se à TV, ao computador e ao cinema, ela dará lugar a milhares de microemissoras. Acessíveis aos internautas, essas microemissoras vão romper o monopólio dos grandes canais de TV. Nas ditaduras mais truculentas, a internet, mesmo incipiente, já começa a atrapalhar, como o demonstram os acontecimentos recentes na China.

Como se sabe, a luta interna na ditadura chinesa provocou o vazamento do registro das reuniões governamentais que decidiram o massacre dos estudantes da Praça Tiananmen, em Pequim, em junho de 1989. Publicadas pela revista Foreign Affairs e acessíveis pela internet (http://63.236.1.211), essas conversas mostram agora a violência da gerontocracia chinesa. Volta à atualidade uma tragédia que os dirigentes chineses e as principais potências ocidentais – interessadas em comerciar tranqüilamente com a China – tentaram deixar cair no esquecimento. Imediatamente, o acesso a esse site foi bloqueado na China. Contudo, os internautas chineses – algumas centenas de milhares de indivíduos no meio de 1,3 bilhão de habitantes – passaram a receber do estrangeiro, via e-mail, o texto das transcrições. Provavelmente a ditadura chinesa ainda vai abafar mais essa luta pela liberdade. Entretanto suas dificuldades aumentam. No final das contas, é possível ser otimista. Mas otimista lutador, à maneira do filósofo Hegel, que afirmava: "O homem não nasceu livre, ele nasceu para se libertar".

 

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)

 

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