|
|
|
![]() |
|
|||||||||||||
"E isso em pleno século XX!" Não é assim que se costuma dizer? Ou melhor, não era assim, no século passado? Diante de uma manifestação de suprema ignorância, ou ignomínia, de miséria, atraso ou injustiça, arrematava-se: "E isso em pleno século XX!" No século XIX, o século da luz elétrica, do telégrafo e dos trens, igualmente deslumbrado consigo mesmo, já se dizia: "E isso em pleno século XIX!" Agora se dirá: "E isso em pleno século XXI". O leitor escolha o que é maior, se a pretensão ou a ingenuidade, em tais manifestações. Quanto à pretensão, é como se os séculos se olhassem com desprezo uns aos outros. "Isso vá lá que acontecesse naqueles pobres séculos anteriores, não no nosso." Quanto à ingenuidade, há uma confiança cega em que os séculos sempre se sucedem para melhor. O presente é sempre melhor, ou menos ruim, do que o passado. E o futuro será melhor que o presente. Vai
ver, tem de ser assim. A utopia da melhora contínua é
condição para a sobrevivência. Há a literatura, ainda bem, para nos socorrer. Num de seus mais belos poemas, chamado economicamente Elegia, Carlos Drummond de Andrade descreve o percurso, da esperança à desilusão, contido num simples dia: "Ganhei (perdi) meu dia E baixa a coisa fria também chamada noite, e o frio ao frio em bruma se entrelaça, num suspiro." O poeta segue dizendo que, para ele, que "esperava os grandes sóis violentos" e se sentia "tão rico deste dia", eis que agora lá se foi o dia, "secreto, ao serro frio". E diz muito mais coisa, mais belas e lúcidas ainda, e mais melancólicas ("Gastei meu dia. Nele me perdi"), mas fiquemos por aqui, no esconderijo gélido que Drummond descobriu para o dia que se esgarça. Para lá vão também o século e o milênio. Todos agora recolhidos, secretos, ao serro frio.
E tome literatura. Contra a desilusão crepuscular de Drummond de Andrade, saca-se o antídoto solar de uma frase dos vedas hindus, citada por Nietzsche: "Há tantas auroras que não brilharam ainda!" Desesperança/esperança, desilusão/ilusão: faça o leitor o seu jogo. É começo de ano, de século, de milênio. O cassino está distribuindo suas fichas. O problema... O problema é que o Tempo não se toca. Para ele não há começo nem fim, não há intervalo nem divisão entre uma certa porção de sua própria substância e outra. Não se tocou nem mesmo diante do foguetório que se fez aqui embaixo. Não estava nem aí para nossas contas. Ele é que era o homenageado. E, no entanto, agiu como se comemorar o milênio não fosse com ele. Os relógios passaram, das 11h59 da noite do dia 31 de dezembro à meia-noite, exatamente como fariam ao passar das 3h27 da tarde às 3h28, numa banal terça-feira de um banal mês de um banal ano. E tudo continuou na mesma. O Tempo seguiu em sua andança, quieto e fechado em seu segredo. E isso em pleno século XXI!
|
||||||||
| Copyright
2001 Editora Abril S.A. |
VEJA
on-line | Veja
São Paulo | Veja
Rio | Veja
Curitiba Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco |