Artes e Espetáculos Ensaio

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
O cenário da segunda edição de No Limite
Um programa em que vale tudo, menos pular a cerca
Manchas tomam conta do Museu Guggenheim de Bilbao
Corpo Fechado, com Bruce Willis
Três sucessos de crítica no circuito alternativo
Garimpeiros do som recuperam jóias das gravadoras

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Literatura brasileira
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Roberto Pompeu de Toledo

De um milênio a outro

Algumas cândidas notas sobre a
passagem
do tempo, seu sentido
e falta de sentido

Então a chegada de um novo milênio era isso!? Grande coisa... Não aconteceu nada. Os céus não se abriram, o Sol não despencou do firmamento, línguas de fogo não brotaram das profundezas da terra, o sertão não virou mar e tampouco – nem isso – o mar virou sertão. O grande cenário exterior não se alterou. As montanhas não saíram de lugar, os rios não deixaram seu leito. O cosmo, em sua impassibilidade, registrou a passagem de um milênio para outro sem o menor sobressalto. Ou melhor: não registrou.

Houve época em que o universo interagia com os seres humanos. No tempo de Moisés, mares secavam, sarças ardiam sem se consumir, trombetas ecoavam no céu. E nem se estava comemorando algo tão grave e solene como uma passagem de milênio. Não mereceríamos, num momento desses, pelo menos um assobiozinho nas nuvens, algo que desse a entender que, sim, o Universo, o Céu, o Cosmo, ou que nome tenha essa suprema e enigmática entidade (talvez Deus), nos acompanha, registra e endossa nossas manifestações? Não. Deus, se é que se trata de Deus, emudeceu ultimamente. Desistiu de expressar-se de forma clara e direta.

Todo esse vão arrazoado é para revelar aos felizes leitores desta página, em primeira mão, o sentido de se soltar fogos nas passagens de ano. Como o Universo se recusa a participar da festa, e insiste em continuar sua rotina, entrecortada no máximo por previsíveis chuvas, como no Rio de Janeiro, ou de neves, como na Europa, então nós, aqui da terra, ateamos um incêndio coreográfico no céu, acompanhado de uma sinfonia de rojões. Ah, é assim? Vai continuar quieto, como se não estivesse acontecendo nada? Não. Fazemos com que ele se manifeste, na marra.

"E isso em pleno século XX!"

Não é assim que se costuma dizer? Ou melhor, não era assim, no século passado? Diante de uma manifestação de suprema ignorância, ou ignomínia, de miséria, atraso ou injustiça, arrematava-se: "E isso em pleno século XX!" No século XIX, o século da luz elétrica, do telégrafo e dos trens, igualmente deslumbrado consigo mesmo, já se dizia: "E isso em pleno século XIX!" Agora se dirá: "E isso em pleno século XXI". O leitor escolha o que é maior, se a pretensão ou a ingenuidade, em tais manifestações. Quanto à pretensão, é como se os séculos se olhassem com desprezo uns aos outros. "Isso vá lá que acontecesse naqueles pobres séculos anteriores, não no nosso." Quanto à ingenuidade, há uma confiança cega em que os séculos sempre se sucedem para melhor. O presente é sempre melhor, ou menos ruim, do que o passado. E o futuro será melhor que o presente.

Vai ver, tem de ser assim. A utopia da melhora contínua é condição para a sobrevivência.


Há a literatura, ainda bem, para nos socorrer. Num de seus mais belos poemas, chamado economicamente Elegia, Carlos Drummond de Andrade descreve o percurso, da esperança à desilusão, contido num simples dia:

"Ganhei (perdi) meu dia

E baixa a coisa fria

também chamada noite, e o frio ao frio

em bruma se entrelaça, num suspiro."

O poeta segue dizendo que, para ele, que "esperava os grandes sóis violentos" e se sentia "tão rico deste dia", eis que agora lá se foi o dia, "secreto, ao serro frio". E diz muito mais coisa, mais belas e lúcidas ainda, e mais melancólicas ("Gastei meu dia. Nele me perdi"), mas fiquemos por aqui, no esconderijo gélido que Drummond descobriu para o dia que se esgarça. Para lá vão também o século e o milênio. Todos agora recolhidos, secretos, ao serro frio.

E tome literatura. Contra a desilusão crepuscular de Drummond de Andrade, saca-se o antídoto solar de uma frase dos vedas hindus, citada por Nietzsche: "Há tantas auroras que não brilharam ainda!" Desesperança/esperança, desilusão/ilusão: faça o leitor o seu jogo. É começo de ano, de século, de milênio. O cassino está distribuindo suas fichas. O problema...

O problema é que o Tempo não se toca. Para ele não há começo nem fim, não há intervalo nem divisão entre uma certa porção de sua própria substância e outra. Não se tocou nem mesmo diante do foguetório que se fez aqui embaixo. Não estava nem aí para nossas contas. Ele é que era o homenageado. E, no entanto, agiu como se comemorar o milênio não fosse com ele. Os relógios passaram, das 11h59 da noite do dia 31 de dezembro à meia-noite, exatamente como fariam ao passar das 3h27 da tarde às 3h28, numa banal terça-feira de um banal mês de um banal ano. E tudo continuou na mesma. O Tempo seguiu em sua andança, quieto e fechado em seu segredo. E isso em pleno século XXI!

 

Copyright 2001
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Curitiba
Veja BH | Veja Fortaleza | Veja Porto Alegre | Veja Recife
Edições especiais | Especiais on-line | Estação Veja
Arquivos | Próxima VEJA | Fale conosco