Brasil, império do bisturi
A
facilidade e a rapidez com que o brasileiro
se submete à cirurgia plástica transformaram
o país no maior consumidor mundial desse tipo
de operação e num celeiro de médicos
respeitados internacionalmente
Daniela
Pinheiro
André Schiliró

A
atriz Danielle Winits exibe sua prótese de silicone colocada
pelo cirurgião Paulo Müller. O Brasil tem vários
cirurgiões plásticos conceituados no exterior,
como Pontes, Aboudib e Stocchero (veja fotos que ilustram
esta reportagem) |

Paulo
Müller
Idade:
43 anos
Cidade: Rio de Janeiro
Na profissão há: 15 anos
Especialidade: lipo e mama
Preço da consulta: 200 reais
Preço da cirurgia: 13 000 reais (lipo) |
Veja
também |
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Os
dados são fresquinhos. De acordo com a Sociedade Brasileira
de Cirurgia Plástica, o brasileiro se tornou o povo que mais
faz plástica no mundo. No ano passado, 350.000
pessoas se submeteram a pelo menos um procedimento cirúrgico
com finalidade estética. Fazendo as contas, isso significa
que, em cada grupo de 100.000 habitantes,
207 pessoas foram operadas em 2000. Os Estados Unidos, tradicionais
líderes do ranking, registraram 185 operados por 100.000
habitantes no ano 2000. Nos países europeus, como Inglaterra
e Alemanha, a média foi de quarenta pacientes operados por
100.000 habitantes um quinto da
brasileira. O cálculo se refere apenas às cirurgias
de caráter estético. Não inclui, portanto,
as operações de natureza reparadora, necessárias
por defeitos congênitos ou acidentes.
À
primeira vista impressiona imaginar o Brasil, um país em
desenvolvimento, tomando dos Estados Unidos o posto de o primeiro
do mundo num campo que envolve gastos elevados, como a cirurgia
plástica. Ainda mais quando se considera que a renda per
capita americana é oito vezes maior que a nossa. Embora os
preços cobrados pelos médicos no Brasil sejam em média
um terço dos praticados nos Estados Unidos e uma parte razoável
da população brasileira esteja no lado belga do país,
os especialistas entendem que a explicação central
para o fenômeno não reside propriamente no universo
da economia. Na opinião dos profissionais do ramo, acerta
mais quem procurar a resposta na esfera do comportamento. "Nos países
europeus não se vê um esforço das mulheres de
40 querendo parecer ter 30", diz o cirurgião paulista Fabio
Carramaschi, 44 anos. "No Brasil, sim." Seu consultório é
a prova do que diz. Só nos últimos cinco anos a clientela
quadruplicou.
Oscar Cabral
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Volney
Pitombo
Idade:
51 anos
Cidade: Rio de Janeiro
Tempo de profissão: 28 anos
Especialidade: nariz
Preço da consulta: 150 reais
Preço da cirurgia: 10 000 reais (nariz) |
Volney Pitombo e Débora Bloch (à dir.):
a atriz entregou seu perfil nas mãos do cirurgião,
que é
tido como referência quando o assunto é plástica
de nariz no país |
Pedro Paulo Figueiredo
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Os
cirurgiões plásticos dividem seus pacientes em três
principais grupos, por ordem de grandeza. O maior deles é
formado pelos que recorrem à plástica como forma de
lutar contra o inevitável processo de envelhecimento. O segundo
grande grupo reúne aqueles pacientes cujas imperfeições
físicas provocam tamanho desgaste psicológico que
a minimização ou a eliminação do problema
é mais do que bem-vinda. É quase necessária.
O terceiro grupo possui perfil mais ousado. Ele abriga aqueles cuja
meta é esculpir um corpo de parar o comércio. Essa
classificação dos pacientes se refere a cirurgias
estéticas e é semelhante em todas as partes do mundo,
incluindo o Brasil. O que torna o país especial nessa área
é o ímpeto com que as pessoas decidem operar-se e
a rapidez com que a decisão é tomada.
Luis Gomes
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Milton Michida/Ag. Estado
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| Os
Suplicy entraram na faca: o cantor Supla eliminou uma cicatriz
na testa, a prefeita de São Paulo, Marta, atenuou as rugas da
idade e o senador Eduardo tirou bolsas de gordura debaixo dos
olhos |
Para
se ter uma idéia desse destemor nacional, quando se pergunta
a um americano ou a um europeu qual é seu maior receio durante
a cirurgia, a resposta é: a anestesia. Nas pesquisas sobre
o assunto, eles se dizem apavorados com a possibilidade de se internarem
em razão de um problemazinho estético e acabarem com
um problemão de saúde. Um choque anafilático,
talvez. Já os brasileiros têm outra preocupação
na cabeça. O que mais os apavora é a chance de o resultado
final não ficar bom. Riscos ligados à anestesia ficam
em segundo plano. "De fato, operar-se é uma decisão
que o brasileiro toma com mais facilidade do que outros povos",
diz José Horácio Aboudib, renomado cirurgião
plástico carioca que já operou beldades como Vera
Fischer e Paula Toller.
Até
o início da década passada, a plástica no Brasil
era tida como um item de consumo fútil, um capricho próprio
das dondocas. Não passava pela cabeça de uma mulher
de classe média reconstituir as curvas de seu corpo ou modificar
os traços de seu rosto. Hoje a mulher que mais procura as
clínicas trabalha fora, paga a plástica em prestações
e integra uma família com renda média mensal de 3.000
reais. Os estudos mostram que quem gosta do resultado da cirurgia
muitas vezes volta uma segunda vez. Atualmente, recorrer à
faca para aumentar ou diminuir os seios, sugar a gordurinha a mais
nos quadris e no abdome, enxertar silicone na panturrilha e nos
ombros ou redesenhar a linha do nariz é algo tão difundido
que já integra a lista dos traços da personalidade
do país. No imaginário das pessoas, a cirurgia virou
uma coisa simples, quase banal. É como se a clínica
Santé, onde se internam os artistas da televisão,
fosse uma espécie de spa, no qual o paciente se hospeda para
descansar e perder uns quilinhos. Em 1990, apenas 60.000
pessoas submeteram-se a esse tipo de cirurgia padrão
europeu. Desde então, a procura pela plástica aumentou
580%. Há estudos mostrando que um quinto das operações
não precisaria ser feito e elas poderiam ser substituídas
pela velha combinação dieta-ginástica.
Os
dados apontam para um aumento quantitativo e uma transformação
qualitativa. Cada vez mais seguras, rápidas e baratas, as
cirurgias estão atraindo uma clientela jovem. Assim como
os adultos, os adolescentes brasileiros também passaram a
se operar como em nenhum outro lugar do mundo. De cada 100 pessoas
que se submetem à cirurgia plástica com finalidade
estética nos Estados Unidos, duas são adolescentes.
No Brasil, a clientela com menos de 18 anos chega a 13% do total
de pacientes sete vezes mais. Até cinco anos atrás,
os homens representavam 5% do total de operados. Agora são
30%. Esse aumento na procura acabou por produzir um agito de igual
proporção no meio médico.
O
país nunca teve tantos plásticos. Proporcionalmente,
há tantos médicos em atividade no Brasil quanto nos
Estados Unidos. Mas, quando o assunto é pós-graduação,
o Brasil ganha novamente. Há mais médicos fazendo
uma especialização em plástica no Brasil do
que nos Estados Unidos. De acordo com os dados, são 450 pós-graduandos
na área no Brasil contra 400 nos Estados Unidos. O mais famoso
cirurgião plástico do país, Ivo Pitanguy, mantém
um curso de pós-graduação que atrai alunos
de toda parte do mundo. Lá, 30% dos estudantes são
estrangeiros. Outra mudança notável nesse campo é
que o número de queixas contra os plásticos caiu.
De acordo com os dados do Conselho Regional de Medicina do Estado
de São Paulo onde se concentra a maioria dos cirurgiões
do país , o total de queixas caiu nos últimos
anos.
O
crescimento da plástica no Brasil, que é um fenômeno
em si, gerou outro fenômeno. Nos diversos ramos da medicina,
é possível citar um ou outro brasileiro de notoriedade
internacional. A comunidade científica sabe quem é
o cardiologista Adib Jatene ou o urologista Sami Arap. Mas na cirurgia
plástica o Brasil virou referência como conjunto
não por ter este ou aquele nome isoladamente, e sim por possuir
um time enorme de profissionais competentes, que comparecem em peso
aos congressos internacionais e são convidados a falar de
seu trabalho.
Nos
últimos anos, o Brasil produziu uma nova geração
de cirurgiões plásticos de primeira linha que estão
repetindo a trajetória de Pitanguy. Alguns deles têm
agenda lotada nos próximos quatro meses, outros cobram 20
000 reais por uma plástica no rosto. Em comum, conseguiram
amealhar um patrimônio de padrão semelhante ao de quem
é bem-sucedido no mercado financeiro. Não são
apenas veteranos, como Farid Hakme, 61 anos, do Rio de Janeiro,
dono da maior clínica de cirurgia plástica da América
Latina, que fechou o ano com um recorde: 240 pares de próteses
colocadas. Há médicos de todas as idades, espalhados
pelos grandes centros, e os mais notáveis já costumam
ser associados a partes do corpo humano. Na comunidade dos plásticos,
já se dizem coisas como "a mama do Sampaio Góes",
"o rosto do Pedro Vital" e o "nariz do Volney Pitombo".
Quando
se fala de plástica de mama no país, é impossível
não citar o cirurgião paulista João Carlos
Sampaio Góes. Aos 52 anos, divide seu tempo entre a presidência
do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer e seu consultório.
Também é um dos cirurgiões mais caros do Brasil.
Faz cerca de cinqüenta cirurgias por mês, pelas quais
cobra 15.000 reais, em média,
cada uma. Góes tornou-se conhecido entre os especialistas
por sua técnica de reconstrução de mama usando
gordura do abdome. Um craque na cirurgia de face é outro
paulista, Pedro Vital, 59 anos. Sua especialidade é uma técnica
de resultado duradouro. Em vez de repuxar a pele, o médico
faz o trabalho reparador no músculo. Em sua clínica,
consultas só para daqui a quatro meses. Vital foge de artistas.
"Eles não pagam. Querem sempre de graça", diz.
Rosto,
seios, barriga, nariz. As cirurgias são tão diferentes
que a especialização parece ser inevitável.
Um dos melhores cirurgiões na dificílima operação
para correção de orelha de abano é o mineiro
Juarez Avelar, 56 anos. Com consultório em São Paulo,
ele chega a fazer setenta intervenções por mês.
É de sua autoria um dos mais detalhados livros sobre plástica
de orelha publicados em todo o mundo. Outra unanimidade é
o cirurgião Volney Pitombo, 51 anos, um baiano estabelecido
no Rio de Janeiro. É ele o responsável pelo novo perfil
da atriz Débora Bloch. Nariguda de nascença, operou-se
e ostenta o que os médicos garantem ser o perfil ideal. De
cada cinco consultas que Pitombo faz, três são operações
no nariz para as quais cobra 10 000 reais. "É a parte
do corpo em que o cirurgião pode mostrar sua arte: ou fica
um desastre ou uma obra de Michelangelo", diz.
O
desempenho profissional dos médicos de alto gabarito é
discutido nos congressos e também nas festas dos colunáveis.
Algo semelhante ao que já acontece nos Estados Unidos há
vários anos. O nova-iorquino Daniel Baker, que tem agenda
lotada para os próximos treze meses, já foi citado
pela New York Times Magazine como o "assunto principal do
restaurante Le Cirque à Sotheby's", ou seja, onde circulam
os famosos e ricaços. Seu colega, Sherrell Aston, que também
tem endereço na famosa Park Avenue, cobra 25.000
dólares por uma plástica de rosto. E Thomas Rees,
o papa da lipo em Nova York, desfruta a vida como milionário
com casas espalhadas mundo afora. Em países da Europa e do
Oriente essa festa não se repete. Ali a cirurgia é
quase sempre reparadora. "O boom da plástica se concentrou
mesmo nas Américas", diz o concorrido cirurgião Paulo
Müller, 43 anos, ex-genro de Pitanguy e queridinho das locomotivas
do Rio de Janeiro. A atriz Danielle Winits e a socialite Narcisa
Tamborindeguy são algumas delas.
Como
todos os demais ramos da cirurgia, a plástica depende da
tecnologia como forma de permitir que as operações
fiquem cada vez mais seguras. Diferentemente deles, no entanto,
a plástica avança também segundo as influências
da moda. Nos anos 60, as mulheres queriam possuir uma boca carnuda
como a da atriz francesa Brigitte Bardot. O procedimento de aumentar
os lábios ganhou o nome de "bardotização".
Nos anos 70, no Brasil, faziam sucesso os seios pequenos de Sonia
Braga. A atriz Bo Derek provocou uma corrida às clínicas.
Eram mulheres querendo copiar o seu nariz arrebitado e pequeno.
A barriga de Madonna e os seios fartos de Luma de Oliveira também
serviram de referência. Há dez anos, de cada dez cirurgias
de mama realizadas no país, seis eram de redução,
três para levantar e apenas uma para aumentar os seios. Hoje,
cinco levantam, três aumentam e só duas reduzem. Provavelmente,
pode-se chamar essa mudança de "efeito Gisele Bündchen".
Mas,
atenção, não há milagre. "A paciente
entra aqui com a idéia de um seio, mas sai com o seio que
a medicina é capaz de fazer", afirma o cirurgião fluminense
Ronaldo Pontes, 65 anos. Com cerca de 16.000
operações no currículo, Pontes mantém
uma clínica com 22 leitos que emprega sessenta funcionários.
Ele é o responsável pelo visual de atrizes como Renata
So outras mulheres dispostas a pagar cerca
de 8.000 dólares por uma esticadinha
na pele do rosto.
É
comum que certos cirurgiões prometam resultados que não
vão poder apresentar. É também freqüente
entre os profissionais menos qualificados uma atitude imprudente
de não prevenir o paciente sobre os riscos que ele corre.
"Dizer que não vai ficar cicatriz, que uma pessoa mais velha
vai ficar vinte anos mais nova, isso tudo é mentir para o
paciente", afirma o médico paulista Ithamar Stocchero, que
recentemente operou a empresária Eliana Tranchesi, dona da
Daslu, a butique mais chique do país. "Nós precisamos
mostrar claramente que a obesa que faz lipo nunca vai ficar como
a Luana Piovani", explica Sampaio Góes. Bom seria se todos
os cirurgiões se comportassem assim. Infelizmente, atua no
mercado um grupo cuja conduta ética é para lá
de questionável. São profissionais capazes de divulgar
suas habilidades em anúncios de jornais e revistas, como
se suas operações fossem um produto de lojas de eletrodomésticos.
Quem é sério não faz. Só no Brasil,
dizem os médicos, há uma política de oferecer
pacotes com pagamento de prestações, cheques pré-datados
e até mesmo consórcios. "Médico não
deveria ser mercantilista nunca", diz Regina Carvalho, do Conselho
Regional de Medicina de São Paulo. Mas que os há,
os há.
| A
matemática da perfeição
Não
existe fórmula para
definir o
que é bonito ou
feio no corpo humano.
Mas as
beldades têm características
em
comum apontadas
pelos cirurgiões
plásticos.
Veja
algumas delas:
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