É
duro ser bebê brasileiro
Ilustração Pepe Casals
 |
Tenho um filho pequeno. Ele está crescendo no exterior.
Por algum insondável motivo, quero que ele seja pelo menos
um pouquinho brasileiro. Falo-lhe apenas em português, para
que ele tenha familiaridade com a língua. Quando falta
assunto, entôo uma cantiga da minha infância. Impressionante
como a gente é ruim de cantiga. Espero que alguém
já tenha escrito um tratado a respeito.
"Atirei
o pau no gato", por exemplo. Crianças são sádicas.
Admito que elas se divirtam com a imagem de um gato morto a pauladas.
O que eu me recuso a cantar é aquela execrável corruptela
"berrô". Bem mais enigmático é "Escravos de
Jó". Que eu saiba, o "Livro de Jó" não fala
em escravos. Muito menos em escravos que jogavam caxangá.
Aliás, alguém poderia me informar o exato significado
de caxangá? Segundo o Aurélio, trata-se de
um "crustáceo decápode". É isso mesmo? Os
escravos jogavam "crustáceos decápodes"? Na hora
de colocar meu filho para dormir, também enfrento grandes
dificuldades. Não me sinto muito à vontade para
cantar-lhe o tradicional "Nana neném, que a Cuca vem pegar.
Papai foi pra roça, mamãe foi costurar". Em primeiro
lugar, a Cuca é um monstro extinto. Só sei descrevê-lo
porque consultei o inestimável Câmara Cascudo. Além
disso, há uma barreira social que me separa dessa cantiga:
meu filho sabe que nunca precisei pegar numa enxada e que sua
mãe é incapaz de pregar um botão. O que dizer
de "Ó moreninha bonita, como é que se namora? Põe
o lencinho no bolso, deixa a pontinha de fora"? É essa
refinada técnica de sedução que pretendo
ensinar ao meu filho? Pior ainda é a aberração
patriótica de "Marcha soldado, cabeça de papel.
Se não marchar direito, vai preso pro quartel. O quartel
pegou fogo, Maria deu sinal: acode, acode, acode a bandeira nacional".
Como assim? O quartel pega fogo e, em vez de pensar em salvar
os pobres soldados presos no quartel, Maria se preocupa com a
bandeira nacional?
Pensei em recorrer a músicas mais recentes. Sei que no
Brasil tem um monte de gente que ganha dinheiro com a criançada.
De nome, conheço Xuxa e Angélica. Nos discos de
Xuxa, o único assunto é a própria Xuxa: "Dança
da Xuxa", "Bandinha da Xuxa", "Parabéns da Xuxa", "Rap
da Xuxa", "Lambaeróbica da Xuxa", "Amiguinha Xuxa", "Xuxa
Park", "Remelexuxa". Imagino que cada uma dessas composições
esteja associada a uma mercadoria. É o chamado "Planeta
Xuxa". Prefiro mandar meu filho para Júpiter. Fica mais
próximo de mim. A influência de Angélica pode
ser ainda mais perigosa. "Eu sou a namorada, eu quero casar com
você de véu e grinalda, pra ficar contigo todo o
tempo que eu quiser." Ou: "Eu quero entender essa paixão,
para que eu possa te seguir por onde você for". Ou: "Ele
é meu herói, príncipe encantado. Ele é
meu caubói, meu namorado. Ele pode ser tudo o que quiser,
eu só quero ser sua mulher". Um modelo feminino um tantinho
arcaico para uma criança do século XXI.
De agora em diante, meu filho só vai ouvir o rapper americano
Eminem. Ele fala de cadeia, tráfico de drogas, fugas da
polícia, falta de dinheiro e facadas nas costas. É
mais instrutivo.