Entrevista Marcelo Yuka

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"Vi tudo explodir"

Paraplégico desde novembro, quando levou
seis tiros, o baterista do grupo O Rappa
conta seu drama e nega ser herói

Lucila Soares

 
Oscar Cabral
"Em todos os meus sonhos eu ando. A mente não assimila que estou assim"

A vida de Marcelo Fontes Nascimento Santa Ana, o Marcelo Yuka, mudou radicalmente em 9 de novembro do ano passado. O baterista e letrista do grupo carioca de reggae e hip hop O Rappa, cujo disco LadoB LadoA vendeu 300 000 cópias, viveu um drama cada vez mais comum nas grandes cidades. Saiu à noite para ir a um show e levou seis tiros na rua. Muito pior, ficou paraplégico. Desde então, passou por quatro operações e centenas de horas de fisioterapia. Na quinta-feira passada, iniciou no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília, uma nova etapa da luta para voltar a andar. Desde que deixou o hospital, em dezembro, foi a quarta vez que saiu da casa que comprou recentemente na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. O isolamento não se deu só pela dificuldade de locomoção, agravada por uma escadaria de mais de 100 degraus. Ele tomou aversão ao ar de piedade que enxerga no rosto de quem o vê de cadeira de rodas. "Não sou vítima nem herói. E não estou doente", diz. Yuka recebeu VEJA na semana passada para sua primeira entrevista desde a tragédia sentado numa poltrona. E viajou para Brasília carregando três teclados na bagagem.

Veja – O que você pensou quando levou o primeiro tiro?
Yuka –
Nem me lembro do primeiro, foram vários tiros ao mesmo tempo. Sei é que permaneci ali, parado, pensando: "Ih, cara, acabou". Fiquei lúcido o tempo todo e desde o primeiro momento percebi que não ia mais andar. Sabe aqueles caras de circo que se equilibram sobre uma madeira em cima de uma bola? É como se eu estivesse naquela situação, mas sem saber me equilibrar. Tentava, caía no chão e repetia: "Estou paraplégico". Falava como se estivesse conversando, sem alterar a voz. Nem chorei por isso na hora.

Veja – Em algum momento achou que ia morrer?
Yuka – Nunca. Isso de ficar sem andar foi o que me impressionou mais.

Veja – Você saiu dessa tragédia com fama de herói.
Yuka – Não fui herói, não fui mesmo. Sei que disseram que parei para ajudar uma moça que estava sendo assaltada, mas não foi isso. Só fiquei sabendo que acabei ajudando alguém porque, depois que tudo acabou e eu estava lá, ferrado, veio a mãe da garota que estava no outro carro e disse: "Você salvou a vida da minha filha". Olhei para ela e perguntei: "E quem vai salvar a minha?"

Veja – O que aconteceu naquela noite?
Yuka – Foi tudo muito rápido. Vou contar o que está na minha cabeça. Saí de casa de carro, sozinho, para ir a um show. Entrei numa rua e vi uma Blazer lotada de gente com arma para fora. Resolvi dar marcha à ré para fugir e quando olhei para trás vi que mais bandidos ameaçavam alguém em outro carro. Mas pensei: se eu der ré, dou uma porrada nesse carro, tenho chance de sair fora e ainda posso dar chance ao outro que está sendo molestado. Só que tentei dar marcha à ré e o carro cantou pneu no mesmo lugar. Aí, então, tomei tiro de tudo quanto foi lado. Numa situação dessas, você vê tudo explodir a sua volta. Eu vi meu braço explodir com um tiro.

Veja – Você tentava fazer algo para se salvar?
Yuka – Tudo o que eu queria era segurar a mão de alguém. Era uma sensação de que aquilo me transmitiria vida. Então, chegou a ambulância, o sujeito me examinou e disse que a minha lesão era T2T4 (segunda e quarta vértebras torácicas). Não sabia o que era, claro, só que era grave para caramba. Mas a história nem tinha começado. Quando cheguei ao Hospital do Andaraí (na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro), ninguém sabia quem eu era. Num bairro como esse, cercado de favelas, um sujeito que chega com aquela quantidade de tiros no corpo provavelmente é bandido. Fizeram um pedido para a radiologia, levaram-me de maca e me puseram em cima de uma superfície de inox, ou pedra. Sei lá, era alguma coisa muito fria. Meu braço esquerdo doía horrivelmente, totalmente arrebentado por um tiro. Tinha também uma bala no pulmão que me deixava muito pouco ar. Estava guardando esse ar para dizer alguma coisa. Nesse momento, veio o sujeito da radiologia, fedendo a bebida. Pegou o pedido de exame e viu que o médico tinha informado só três tiros. Como eu tinha seis buracos no corpo, ele disse que isso podia lhe causar problemas e foi embora. Fiquei ali jogado, sozinho, até um médico pedir explicações ao radiologista. O cara disse: "Doutor, ele tem muito mais bala do que diz o pedido de exame, olhe o chão como é que está de sangue. Olhe como é que o garoto está, veja bem... Se eu meter a mão, vou ter de ficar preenchendo papel até amanhã". Mas acabou tirando as radiografias e, quando saí da radiologia, eu já havia me transformado no Marcelo Yuka, do Rappa.

Veja – Que tipo de mudança aconteceu quando você virou Marcelo Yuka?
Yuka – Eu tinha uma equipe muito boa a minha disposição. O doutor Enio de Vuono, que me operou, é craque em tirar bala. Ele é do Andaraí, que é um hospital público, mas ficou coordenando tudo, mesmo quando fui removido para uma casa de saúde particular na Zona Sul do Rio de Janeiro. Mas aprendi que, num hospital, por mais que ele seja bom, você passa a ser um número. Sofri muito com isso. Chega de manhã, o cara tem de dar banho em você e em mais trinta. Então ele me lava como se estivesse lavando um banheiro. É mais um número. Vira de um lado, vira do outro, e pronto. Isso não é só no hospital público, não, o outro hospital onde fiquei é particular, e caro. E lá teve um enfermeiro que, para lavar meu sovaco, me puxou pelo ferro ortopédico que tive de colocar no braço esquerdo. Quase morri de dor.

Veja – Durante esse tempo todo, o que passava pela sua cabeça?
Yuka – Estava tomando oito remédios para dor, oito drogas pesadas, derivadas de morfina. Fiquei dois dias sem saber o que estava ocorrendo. Tive alucinação. Foi por causa desses remédios, mas a dor era tanta que não tinha jeito. O problema é que a cabeça não parava de funcionar. Misturei realidade com ilusão. Os médicos entravam no meu delírio. E ninguém me falava o que estava acontecendo comigo. Eu perguntava: "O que estou fazendo aqui?" E eles diziam assim: "Calma, você tem de estar aqui". Não me respondiam. Fui ficando completamente nervoso. Minha mãe entrou chorando e também disse que tinha de ficar ali, mas não me informou onde eu estava. Até que um dia perdi o controle e dei porrada num enfermeiro. Nem sei como aconteceu, porque é difícil à beça me mover, mas consegui me virar e voei no pescoço dele.

Veja – Em que momento você começou a ter informações mais concretas sobre sua situação?
Yuka – Quando passaram esses primeiros dois dias de delírio eu sabia tudo sobre minhas condições. Mas nada sobre minhas chances. Isso só fui começar a saber quando saí do hospital. Lá teve gente que veio até mim só para dizer que eu não tinha chance nenhuma de voltar a andar, que ia ficar assim para o resto da vida. Como é que pode isso, alguém decidir que o outro não tem chance?

Veja – O tratamento está funcionando? Você nota alguma melhora?
Yuka – Tem coisas que só quem acompanha todos os dias percebe. Mas o que os exames mostram é que o meu pé ainda recebe sinal da minha cabeça. Estou começando a sentir dores nas pernas, quando fico numa posição desconfortável, e tenho a opinião de feras, como o doutor Paulo Niemeyer, de que tenho chance de voltar a andar. O problema é que todo mundo tem preocupação em me recuperar. E eu não tenho só essa preocupação. Quero viver, ser feliz. É difícil fazer que as pessoas entendam que eu não sou só um corpo que precisa de reparos. Por isso, sinto uma solidão enorme, mesmo com a minha casa cheia de gente, como sempre está. Às vezes exageram no cuidado comigo e esquecem que tem dois Marcelos. Um é o cara que está com esse problema. O outro é o que quer viver. É claro que é melhor viver andando, e estou batalhando para isso. Mas, se não tiver chance, não volto para a cama. De jeito nenhum.

Veja – Você é conhecido por sua preocupação com a injustiça social e sempre afirmou que era essa a principal causa da violência. A maioria de suas letras expressa essas opiniões. O que você acha disso hoje?
Yuka – Está havendo uma mudança muito significativa no padrão de comportamento do brasileiro. O padrão era ser espirituoso, alegre, divertido, malandro. A miséria, a injustiça social, o tráfico de drogas, tudo isso desencadeou uma guerra e, nessa guerra, tudo aquilo está sendo assassinado. Hoje, você olha um moleque de 13 anos e só vê rancor nos olhos dele. É nisso que as autoridades têm de prestar atenção: no rancor que está se acumulando. Porque tem moleque muito talentoso, muito mesmo. Talentoso demais para ganhar 150 reais por mês. Tem de dar alternativa para eles. Por isso O Rappa destina 5% do que recebe da venda de discos para a Fase, uma ONG que financia projetos de educação em comunidades carentes.

Veja – Essa sua tese se aplica também aos bandidos que dispararam esses seis tiros?
Yuka – Não vejo os bandidos que atiraram em mim, vejo a situação em que entrei. Sofri uma conseqüência. Aquela bala foi disparada há muito tempo. Foi disparada com o desemprego, com a falta de oportunidades, com o assassinato da malandragem. Ela foi disparada quando a dificuldade começou a virar rancor. Então, eu não fui vitimado por aquela bala, fui vitimado por 500 problemas. Fui vitimado pelo governo fluminense. Sabe por quê? Porque os traficantes inventam o "bonde" (comboio de bandidos armados) e eles inventam o "papa-bonde" (comboio de policiais para enfrentar bondes). Então vira uma corrida armamentista e eu estou no meio. É uma tremenda hipocrisia. E tem mais: o que aconteceu comigo só foi notícia porque não foi no morro. Enquanto quem morre é preto, é pobre, é feio, dane-se. Quando desce, vira estatística.

Veja – Você não sente raiva?
Yuka – Não sinto raiva por estar assim. Mas tenho muita raiva dentro de mim. Sempre tive. Só quis estudar por raiva. Meu pai cismou que eu tinha de fazer um colégio bom. Então fui para uma escola da Zona Sul. Mas sou de Campo Grande, Zona Oeste. Era o único suburbano, o único que pegava trem para ir à escola. Tinha 16 anos, achava que ia fazer um monte de amigos, mas todos eles se conheciam e eu não conhecia ninguém. Surfava nas praias do Rio, mas não tinha o biotipo do surfista da Zona Sul. Aí meti a cara nos livros, li Rimbaud, Baudelaire, Nietzsche e fiquei com mais raiva ainda. As letras que faço são minha raiva. Meu trabalho fora do palco, com as comunidades, também. São minha raiva canalizada, dirigida.

Veja – Foi a raiva que o empurrou para a frente na vida?
Yuka – A raiva foi trampolim para mim. Quando subia no palco, por exemplo, estava feliz por estar ali e tudo. Mas era eu contra o público. Então, tocava pensando em vencer um desafio. Agora é a mesma coisa. Às vezes estou chorando, lamentando. Mas, quando chega o fisioterapeuta, sou eu contra ele. Dou tudo de mim. Essa chance que estou indo buscar em Brasília também. Estou cheio de medo de ir para lá. Mas vou cerrar os dentes. Só tenho essa opção.

Veja – Nos seus sonhos você anda?
Yuka – Em todos os meus sonhos eu ando. Minha psiquiatra diz que isso é sinal de que minha mente não assimilou que eu estou assim. Também sonho muito que estou surfando. Mas outro dia fiquei preocupado. Sonhei que estava na praia e encontrei uma amiga minha. Tinha feito uma prancha, mas não sabia se aleijado podia surfar. Aí ela disse que no final da praia estava um amigo dela, campeão de surfe, que podia me responder isso. Fui até lá, perguntei e ele disse que era impossível. Acordei preocupado, pensando que essa história de aleijado já estava dentro de mim. Até que meu irmão perguntou como eu tinha chegado até o final da praia do sonho. Percebi que tinha ido andando e fiquei aliviado. Minha mente continua sem assimilar o aleijado.

Veja – O ano passado foi muito importante para O Rappa, com disco novo, clipe premiado, shows lotados. Como vê seu futuro neste momento?
Yuka – Eu tinha um monte de planos. Foi uma ruptura muito grande. Se eu recuperar este braço aqui (o esquerdo), já posso voltar a trabalhar. E para curar isso é fácil. Portanto, vou voltar. A lesão que tenho é clinicamente possível de superar, porque a bala não atingiu a medula. Tenho chance. Os exames indicam que tenho, o maior especialista disso no Brasil confirma. Mas não penso nisso, não consigo me ver andando. Acho que seria felicidade demais para mim. Por outro lado, quantas pessoas sobrevivem a seis tiros? Então acho que alguma coisa vou fazer. Hoje represento alguma coisa, e para falar do que acabou acontecendo comigo posso falar de outras coisas em que acredito. Não tenho religião, mas acredito em Deus. E acho que não passei por isso à toa. De novo minha raiva vai me conduzir.

Veja – Como você imagina o dia em que ficar bom? Qual a primeira coisa que vai fazer?
Yuka – Tocar fogo na cadeira de rodas. Já combinei com meus primos. Quebrar primeiro, em pedaços, e tocar fogo. Eles já fizeram isso com a cadeira de outro cara que voltou a andar. Depois quero ir para o sítio que comprei em Parati. Só fui duas vezes lá.

 
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