Poderosíssima!

O casamento de Adriane Galisteu, a loirinha
cabeça-de-vento que se transformou em mulher
de sucesso, sela o apogeu de quem tinha muito
pouco para dar certo e conseguiu virar o jogo

Lidice-Bá

De tiara de ouro e buquê de arruda contra mau-olhado, Adriane desfila a caminho do altar, onde o noivo Justus (abaixo), nervoso, sua em bicas
Foto: Antonio Milena  

A noiva estava de branco. E apaixonada. Encerram-se aí as manifestações de apego às tradições. Adriane Galisteu, a garota bonitinha que teve uma oportunidade na vida (Ayrton Senna) e a perdeu tão rapidamente, casou-se na semana passada, aos 25 anos, na condição de mulher poderosa, no apogeu do sucesso e no comando do próprio destino. Alguns exemplos, simbólicos ou concretos. Adriane entrou sozinha, radiante no vestido bem simplezinho, não obstante a griffe Valentino. Tiara de ouro branco na testa, cabelos soltos, bronzeada como se saísse do forno naquele instante e magérrima, ela desfilou com pose e passo de modelo até o altar, onde, em cerimônia de menos de quinze minutos, se uniu ao publicitário paulista Roberto Justus. Na mão, um buquê de arruda, para "afastar o mau-olhado", providência de primeira necessidade no caso de uma mulher linda, famosa e rica que encontrou um tremendo bom partido e faz planos de viver com ele feliz para sempre, ou pelo menos enquanto durar. Na retaguarda, um contrato de separação total de bens dos cônjuges. Detalhe: assinado por insistência dela, "para me poupar dos comentários maldosos de que estaria dando o golpe do baú".

Quantas mulheres tomariam a iniciativa de dar essa radical e incontestável prova de independência? E quem imaginaria ver entre esse clube com certeza restrito justamente Adriane Galisteu, a namoradinha cabeça-de-vento de Ayrton Senna, tantas vezes objeto de comentários maldosos sobre a verdadeira natureza de seu relacionamento com o piloto introspectivo? Ao perder o namorado famoso, há menos de cinco anos, Adriane tinha fama duvidosa, zero na conta bancária e poucas chances de se tornar algo mais do que uma viúva não oficial que o tempo se encarregaria de apagar da memória. Com garra, disciplina e tino, virou o jogo. Foi ficando cada vez mais loira, cada vez mais magra, cada vez mais exuberante, cada vez mais segura de si, até se tornar o que é hoje: a mulher que todas queriam ser e que todos queriam ter, uma espécie de Carla Perez da classe média, em que os músculos quase insuportavelmente esculpidos substituem a abundância dorsal como símbolo de beleza. Adriane construiu uma carreira, reconstruiu o corpo e realinhou o coração. Para quem quisesse ver, na quinta-feira passada os noivos exibiam sua condição de mútuo embasbacamento, vivida desde quando se conheceram, há meros seis meses. O acordo de separação de bens não exclui mimos apaixonados. De noivado, ela ganhou uma aliança de brilhantes e, de casamento, um Mercedes cupê, que dividirá espaço na garagem do apartamento de 1.000 metros quadrados onde vai morar com o Mercedes que já tinha e com o velho Fiat Uno prata, presente de Senna. É uma das poucas lembranças que carrega daquela fase da vida. Da família do piloto, por quem sempre foi esnobada solenemente, ninguém foi convidado para o casamento. "Não faz o menor sentido. É outro momento da minha vida. Mas também não guardo mágoas. Mágoa dá câncer e não quero morrer disso", diz a noiva.

Na volta da lua-de-mel, em Los Angeles e Las Vegas, Adriane pretende retomar a agenda de estrela com corpo de sereia e cabeça de caixa registradora: desfilar, apresentar programas de rádio e TV, fazer campanhas publicitárias, comparecer a eventos, promover os dois produtos licenciados com sua imagem (jóias e sopa dietética) e ainda licenciar mais quinze. Justus, dono da agência NewcommBates (faturamento de 120 milhões de dólares em 1998), que tem dinheiro de sobra para sustentar Adriane o resto da vida, se conforma. "A vida profissional é tudo para ela e tenho de entender", acredita o publicitário, que já está virando celebridade por aproximação. "Me reconheceram no Guarujá, mas não dei autógrafo." Quem já passou por isso sabe que é duro. O ex-namorado de quase quatro anos Júlio Lopes conta que, no final da relação, estava farto da fama de Adriane. "Até em Miami tinha assédio. Ela adora."

Tanta exposição enche o cofrinho de Adriane. Ela chegou ao primeiro milhão de dólares em 1996 e hoje tem patrimônio no mínimo três vezes maior. Sua renda mensal é de cerca de 80.000 reais, mas, do mesmo jeito que ganha bem, gasta bem. Costuma torrar a metade do salário com roupas, sapatos, viagens e com a mãe. Tanto o ímpeto gastador quanto outras lições aplicadas pela vida, ela explica pela seqüência de mortes que a acompanha (o pai, quando ela tinha 15 anos e estava viajando escondido com o namorado, Senna e o irmão, vitimado pela Aids). "Com a morte do meu pai aprendi a não mentir. Com a do Ayrton aprendi a não fazer planos. Mas a maior lição foi com a morte do meu irmão, quando aprendi que o dinheiro não pode resolver tudo. Por isso, hoje nada mais me choca nem me assusta." Morte é tema recorrente na conversa de Adriane. "Aprendi quase tudo o que sei através da dor pela morte de pessoas queridas. Mas agradeço também por isso. Se não fossem essas perdas, talvez eu não tivesse chegado aonde cheguei", diz a modelo, que nasceu na Lapa, bairro de classe média de São Paulo, e começou a posar aos 9 anos, num comercial para a rede McDonald's. Conheceu Senna em 1993, no autódromo de Interlagos, a trabalho para a agência Elite. Ele venceu a prova. À noite, na festa da vitória, ela recebeu atenções explícitas do piloto e um convite para passar o fim de semana seguinte em sua casa, em Angra dos Reis. Pronto: o passaporte para a fama estava na mão.

Durou pouco. No dia da morte de Ayrton Senna, Adriane, que o seguia pelo mundo e não trabalhava havia meses, viu-se sem um tostão no bolso, na casa do empresário carioca Antônio Carlos de Almeida Braga, o Braguinha, em Portugal. Foi ele quem pagou sua passagem de avião para vir ao enterro e hospedou-a em sua fazenda em Campinas, no dia seguinte. Ali, Adriane, transtornada, recebeu a visita da mãe de Senna, Neide, que foi lhe oferecer um cheque de "5 000 ou 10.000 reais", segundo ela, para que "recomeçasse a vida". Não aceitou. Pelo resto do ano, Adriane envergou o manto de viúva, engordou e viu o rosto pipocar de espinhas. Nada, porém, que obscurecesse definitivamente o faiscar dos olhos azuis, a maciez da pele dourada, a extensão interminável das pernas de modelo. Não foi difícil perceber que sua beleza impressionava as pessoas e lhe dava poder. Com quem Adriane, moça de origem humilde que nunca antes se destacara em nada e ainda hoje é capaz de comemorar a "guinada de 360 graus" que aconteceu em sua vida, aprendeu a ser tão esperta? "Na hora de tomar uma decisão, sempre ouço várias pessoas. Depois misturo tudo e sigo minha intuição", diz Adriane, que para posar nua para a Playboy esgotou a paciência de seu amigo Braguinha. "Infernizei mesmo. Ligava todos os dias pedindo conselhos."

A segunda dose da edição recorde — até hoje nenhuma beldade derrubou as vendas de Adriane — está vindo aí. Ela negocia posar para a primeira capa da Playboy no ano 2000, um repeteco que o maridão, confessadamente ciumento, já se comprometeu a engolir. A exposição do corpo malhado com disciplina de fuzileiro naval americano não é a única área que exigirá negociações conjugais. Ela fuma um maço de Marlboro por dia e não consegue parar. Justus detesta cigarro. Ela é totalmente informal longe das câmaras, ele parece ter nascido engomado — "Somos muito parecidos, com nosso jeito passadinho a ferro, sempre usando roupas combinando e secando o cabelo com o secador", compara um amicíssimo do noivo, o cantor Ronnie Von. O amor vencerá, espera-se. Como saída alternativa, Adriane Galisteu já demonstrou que não depende mais de um homem, por mais famoso ou rico que seja, para tocar a sua vida.


A escalada de Adriane Galisteu para o sucesso: aos 14 anos (à esq.), franjinha desajeitada e buquê no primeiro concurso, de miss Verão, em clube de bairro de São Paulo; cinco anos depois, pose de "possível namorada", distribuindo sorrisos e ovos de Páscoa na Avenida Paulista um dia depois de conhecer Ayrton Senna, com quem iria morar, viajar e passar temporadas em Angra dos Reis. Um ano após a morte do piloto, a moça um tanto gorducha (à dir.) posa meio sem graça para os fotógrafos, antes da grande virada exibida de alto a baixo no desfile da Portela, em que uma Adriane reinventada sacode o corpo malhado e bronzeado, e novamente em setembro passado, quando arranca suspiros de inveja e admiração em desfile de griffe de biquínis no Rio




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